sábado, fevereiro 28, 2009

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

O obsessivo e seu desejo


O obsessivo e seu desejo,
segundo o Seminário V de Lacan.


O desejo para o obsessivo se apresenta de forma evanescente, diz Lacan no Seminário V. Essa evanescência do desejo é efeito da dificuldade, do sujeito obsessivo, na relação com o Outro; na medida em que o campo do Outro é o lugar onde se ordena o desejo.

Se, conforme Lacan, o desejo se ordena pelo significante. É no interior do campo Simbólico que o sujeito é obrigado a se exprimir e produzir um efeito de significante, isto é, um significado. Esse é o pacto da constituição do sujeito da linguagem, fora de qualquer imanência. É no interior da experiência que o sujeito tem com a linguagem que vem se formular sua relação com o desejo.

A relação do sujeito com o Outro, e com a vida, é simbolizada por um engodo, uma isca, cujo ponto de referência é o significante do falo. O falo como simbólico tem por tarefa orientar o ser humano com relação a um significado, assim sendo orienta o desejo, e por esta razão se encontra numa posição privilegiada.

Para a teoria lacaniana, a inserção do sujeito no desejo é sempre problemática, pois o desejo se insere através da dialética da demanda, e a demanda sempre pede algo a mais que a satisfação a que ela apela. “Daí o caráter problemático e ambíguo do lugar onde se situa o desejo.” Esse lugar está para além da demanda, na medida em que esta visa à satisfação: o desejo busca algo a mais, algo para além. Mas, por outro lado, o desejo está aquém da demanda considerando que ela, por ser articulada em significantes, é demanda de amor. O amor almeja obter do Outro uma presenticação essencial, o ser do Outro. Que o Outro dê o seu próprio ser, é justamente o que é visado no amor. No entanto, o desejo visa este aquém da presentificação do significante, aquém da presentificação do ser.

Ou seja, enquanto a demanda de amor visa o ser o desejo visa à falta a ser, isto que estaria aquém da presentificação do significante, aquém da presentificação do ser. “É no espaço virtual entre o apelo da satisfação e a demanda de amor que o desejo ocupa seu lugar e se organiza”.

Desse modo, só podemos situar o desejo a partir de sua dupla relação à demanda. Aquém ou além, dependendo do aspecto que considerarmos a demanda. Além da demanda em relação a uma necessidade, ou aquém da demanda estruturada em termos significantes. Ou seja: além da necessidade, aquém das palavras.

Como tal, o desejo não se reduz a satisfação da demanda e ao mesmo tempo necessita da articulação desta. “O outro como lugar da fala, como aquele a quem se dirige a demanda, passa a ser também o lugar onde deve ser descoberto o desejo, onde deve ser descoberta sua formulação possível. É aí que se exerce a todo instante a contradição, porque esse Outro é possuído por um desejo – um desejo que, inaugural e fundamentalmente, é estranho ao sujeito.”

Daí a dificuldade da formulação do desejo nas estruturas neuróticas. O sujeito histérico fica preso no desejo enquanto insatisfação da demanda. Não é isto o que deseja, o que deseja é sempre outra coisa. Este algo a mais, que está para além de toda satisfação da demanda, caracteriza seu desejo como desejo de insatisfação. O sujeito histérico se identifica com o outro insatisfeito, e a identificação histérica aponta para o além da demanda.

Por sua vez, o sujeito obsessivo fica na dependência do Outro para obter acesso ao seu desejo, precisa que o Outro diga o que ele quer para que ele possa ser. Lembramos que esse aquém da demanda aponta para a falta a ser: o desejo do Outro aponta para esta falta que ele não consegue interpretar.

Mas, se por um lado, o sujeito obsessivo fica preso na demanda do Outro, tentando ser o que ele demanda; por outro, busca com afinco desvencilhar-se dessa identificação dada pelo Outro para poder desejar. “Poderíamos dizer que o obsessivo está sempre pedindo alguma permissão. ... Pedir permissão é, justamente, ter como sujeito uma certa relação com a própria demanda. Pedir permissão, na medida mesma em que a dialética com o Outro – o Outro falante – é posta em causa, posta em questão, ou até posta em perigo, é dedicar-se, afinal de contas, a restaurar esse Outro, é colocar-se na mais extrema dependência dele. Isso já nos indica a que ponto esse lugar é de manutenção essencial para o obsessivo. É exatamente aí que vemos a pertinência do que Freud sempre chama de Versagung, a recusa. Recusa e permissão implicam uma na outra. O pacto é recusado sobre o fundo da promessa, o que é melhor do que falar em frustração”.

O impasse do desejo no sujeito obsessivo se demonstra com o fato que para ele desejar, isto é, ter acesso a falta a ser que o desejo exige, é necessário se desvencilhar do ser do Outro do significante que é lhe imposto com a demanda. Para isso, procura destruir o Outro: o desejo do obsessivo implica na destruição do Outro. Quando ele detém o objeto do seu desejo nada mais existe, e na destruição do Outro, quando ocorre, o próprio desejo vem a desaparecer. No entanto, se essa destruição não ocorre torna-se servo da demanda. Preso na demanda de amor tenta ser para o Outro, e, simultaneamente, preserva o Outro na sua toda potência.

Numa análise, o analista deve sustentar esse impasse entre a falta e a potência do Outro, abstendo-se do furor terapêutico. Único modo de construir um espaço onde o sujeito obsessivo poderá colocar em questão, por um lado, suas identificações, o seu ser, para deixar aparecer o sujeito dividido; e, por outro lado, reencontrar-se na ex-sistência, na sua falta a ser, lá onde é apesar de não ser. O que provoca uma nova inserção do sujeito no mundo com o trabalho que nunca acaba e com respeito ao amor, não mais visto como uma solução, uma possibilidade de se livrar da falta, mas como resultado da impossibilidade da queda do Outro.
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Referência Bibliográfica
Lacan, Jacques, O Seminário – livro 5 – as formações do inconsciente.
  • (Parte 4 – A Dialética do desejo e da demanda na clínica e no tratamento das neuroses.)

domingo, fevereiro 15, 2009








A cólera, eu lhes disse, é o que acontece nos sujeitos quando os pininhos não entram nos buraquinhos. Que quer dizer isso? É quando, no nível do Outro, do significante - ou seja, sempre, mais ou menos, no nível da fé, da boa fé -, não se joga o jogo. Pois bem, é isso que provoca a cólera.


Jacques Lacan - Seminário: a angústia

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sábado, fevereiro 14, 2009

O desejo e o sujeito histérico:




O sujeito histérico é, por "natureza", eternamente insatisfeito. Com medo de um gozo arrebatador que poderia enlouquecê-lo, ele se defende com a fantasia inconsciente, da impossibilidade de concretizá-lo. Assim, em suas relações, o Outro é sempre causador de insatisfação. Para sustentar este estado de insatisfação, no seu imaginário, o histérico transforma realidade em fantasias, sexualiza o que não é sexual, encarna uma sensualidade provocadora mas acaba por frustrar o Outro para continuar como ser insatisfeito.

Nega a relação sexual, anestesiando seus órgãos genitais mas, por outro lado, faliciza globalmente o corpo. O desejo do histérico é um desejo de insatisfação.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Lalíngua ou Alíngua: pequena introdução

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Embora as traduções dos textos de Lacan apresentem ora a palavra alíngua, ora lalíngua, um grande número de seus comentadores opta por manter a palavra lalangue tal como Lacan a criou, por considerar esse neologismo intraduzível, já que ele associa o termo à lalação do bebê.
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“Je fais lalangue parce que ça veut dire lalala, la lallation, à savoir que c’est un fait que très tôt l’être humain fait des lallations, comme ça, il n’y a qu’à voir un bébé, l’entendre, et que peu à peu il y a une personne, la mère, qui est exactement la même chose que lalangue, à part que c’est quelqu’un d’incarné, qui lui transmet lalangue”. (Jacques Lacan: Conférence donnée au Centre culturel français le 30 mars 1974.)

 
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Para Haroldo de Campos, tradutor-inventor desse significante lacaniano, o prefixo “a”, em português, tem um sentido privativo que o distancia do artigo feminino francês La escolhido por Lacan. Assim sendo, a opção por “alíngua” poderia vir a significar o oposto do que se pretende com lalangue. Em vez de um destaque, de uma ênfase nas ressonâncias com “lalia”, “lalação” e de uma evocação de tudo o que nos afeta quanto a um fluxo polifônico das palavras, poderíamos incorrer no erro de conceber lalangue como uma ausência de linguagem. (Campos, Haroldo de, “O afreudisíaco Lacan na galáxia de lalíngua (Freud, Lacan e a escritura)
“Desde a origem há uma relação com lalangue, que merece ser chamada, com toda razão, de materna, porque é pela mãe que a criança – se assim posso dizer – a recebe. Ela não aprende lalangue”
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Lalangue é do domínio onomatopaico: não mais uma língua arbitrária, mas motivada. É uma forma de satisfação que não depende da significação. Ela introduz a conseqüência na linguagem, e essa introdução é mediada pela figura materna:
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A noção de lalangue aparece pela primeira vez em O aturdito, mas é no Seminário Mais, ainda (1972-73) que Lacan melhor desenvolve esse conceito. Refere-se à lalangue nas aulas de 13 de março, 8 e 15 de maio de 1973, e a aula de 26 de junho é especificamente dedicada a esse tema. “A linguagem é apenas aquilo que o discurso científico elabora para dar conta do que chamo de lalangue”, diz Lacan ao citar o discurso científico como produtor de saber.

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Na última aula do Seminário XX, Lacan fala que o ponto chave de seu ensino naquele ano foi o saber, e que a linguagem é uma elucubração de saber sobre lalangue, enquanto o inconsciente é um saber-fazer sobre lalangue. O conceito de lalangue será retomado regularmente em seu ensino, principalmente de 1973 a 1975, como em Televisão (1973), no Seminário XXI – Les non-dupes-errent (1973/74), em La troisième - Intervention au Congrès de Rome (31.10.1974 / 3.11.74), no Seminário XXIII – O sinthome (1975-76), em Conference et entretiens dans des universités nord-americaines (1975) e segue até o Seminário XXVII – Dissolution, Le Séminaire de Caracas, de 12 a 15 de julho de 1980.
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No Seminário XXIII - O Sinthome -, Lacan analisa o escritor Joyce e sua obra. A leitura de Joyce foi tão importante para Lacan, teve tanta influência em sua teoria, que acabou por se tornar o mito lacaniano. Joyce está para Lacan como o mito de Édipo está para Freud.
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Segundo Lacan, no Seminário XXIII, Joyce abstrai-se do querer-dizer, isto é, não quer mais nada dizer. Não dá o significado do significante, mas somente o eco homofônico e translingüístico que confunde que despista todo significado e, principalmente, que o anula e que o multiplica, sendo uma câmara de ecos que baterá um no outro ao acaso, de maneira contingente. Lacan diz que Joyce é o que está ali, para demonstrar a relação de cada um com lalangue.
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Uma primeira articulação entre psicose e lalangue foi pensar em que os
neologismos se distanciam de lalangue. Os neologismos são criações de novas palavras ou uma palavra que não tem significação e passa a ter para um determinado sujeito. Lalangue é feita de qualquer coisa, de mal-entendido, anterior ao significante-mestre. Não é um instrumento de comunicação, mas uma forma de tecer um esboço de laço social.
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Sob a perspectiva da psicose, “lalangue, faz do ser que a habita e que a falará, um doente, um diferente e tudo que lhe é permitido fazer com, é uma obra.” Esse seria o exemplo de Joyce. Pela via do traumatismo sofrido da lalangue, e de suas conseqüências, fazer uma obra. Joyce trabalhou durante dezessete anos um ideal - a que o autor irlandês prometeu a si mesmo dedicar-se e realizar, afastando-se dos vínculos sociais -, e que Lacan chamou o seu “escabelo” – “S.K.beau”.
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Outros escritores igualmente se isolaram durante muitos anos. Dois exemplos bastante conhecido são os de Montaigne, fechado na sua torre de marfim depois de perder seu grande amigo; e o do escritor Marcel Proust que, bastante doente, permaneceu em seu quarto, durante catorze anos. - Após a morte da mãe, dois anos depois da do pai, dedicou-se a estudar psicanálise e psicologia, internou-se numa clínica e, de volta à sua casa escreveu À la recherche du temps perdu, obra de quatro mil páginas. - Também esses fizeram de seu traumatismo, de seu sintoma, uma obra de arte.
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Cada lalangue é incomparável a qualquer outra, já que não existem dois ditos que sejam iguais. Partindo da perspectiva lacaniana de que não há discurso que não seja do semblante, a psicanálise, como qualquer discurso, é um artifício e uma tentativa de abordar lalangue.
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Lalangue é a língua da magia, das crianças, dos amantes. É a palavra fora da significação. Está em oposição à linguagem estruturada, que separa o saber do real. É um saber que está inteiramente investido no fazer, um saber-fazer.
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Essa é à base da Segunda Clínica de Lacan. Lalangue, L´apparole e Lituraterre estão para a Segunda Clínica de Lacan, assim como a Fala, a Linguagem e a Letra estão para a Primeira Clínica. Antes, o sujeito buscava uma análise para encontrar um sentido, uma interpretação da sua vida. Hoje, o analisando encontra uma orientação na análise, mas ele é quem dá o sentido, ele decide e se responsabiliza por sua escolha.
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É um convite ao que Lacan chamava da lógica da fantasia – a elevação da libido ao patamar do gozo suposto, um dos nomes do real. Enquanto a linguagem e o discurso podem ser considerados uma defesa contra o real, lalangue veicula o real.
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 (Jacques Lacan: Conference et entretiens dans des universités nord-americaines. Scilicet n. 6/7, 1975, p.42-45)

JUDITH BUTLER E PSICANÁLISE

Conversando sobre psicanálise: entrevista com Judith Butler Patrícia Porchat Pereira da Silva Knudsen Univer...