sexta-feira, abril 17, 2009

Aula de 14 de abril



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Texto para o Cartel de MG

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Em 1953, na fundação da Sociedade Francesa de Psicanálise, Lacan pronuncia uma conferência que intitula de “O simbólico, o imaginário e o real. A partir daí, a tripartição estrutural real-simbólico-imaginário – RSI – foi objeto de contínua investigação até o último de seu Seminário.



Vinte anos depois (1974-75) apresenta o Seminário denominado RSI, reunindo os três registros sob a ótica do nó borromeano. Nesse Seminário, Lacan utiliza a imagem do nó borromeano para representar as relações de dependência recíprocas entre os três registros. Esses três registros são absolutamente indissociáveis. Eles se entrelaçam e, juntos, dão consistência e existência ao psiquismo. Podemos dizer que a noção do nó borromeano em Lacan é análoga a noção de estrutura psíquica em Freud.




O Real



O campo do Real não é a realidade externa, material ou não, nem muito menos a realidade psíquica de Freud, constituída pela fantasia; o Real é o que subsiste a toda simbolização. É o que sempre resta, o impossível de simbolizar. Como impossível, o Real é o que não cessa de não se escrever.

Nesse campo Lacan situa as pulsões parciais. O objeto a, na sua vertente de Das Ding - a Coisa -, o Vazio; é o objeto causa de desejo.

Desde o Seminário 10 – a angústia –, Lacan muda sua concepção de desejo: da intencionalidade à causalidade. Já não se trata do desejo, à maneira da concepção de consciência husserleriana, movido pela intenção, um desejo que se dirige ao objeto

d ---------------------→ a



Trata-se, a partir de então, do desejo “causado”, determinado pelo objeto.



a ----------------------→ d




O desejo intenção corre atrás do seu objeto, circunscrevendo-o na dimensão imaginária. É radicalmente diferente considerar que o objeto está atrás do desejo, que o causa, o determina. Lacan, no Sem. 10, toma o exemplo do fetichista. O fetiche é o Dasein, estar ali. O desejo não se dirige ao fetiche, não é sua meta, mas sim presença necessária que causa e determina a aparição do desejo.



O Simbólico


Se em Lévi-Strauss o simbólico é o lugar da cultura, em Lacan, o simbólico não se resume a ela. Para a teoria lacaniana, o Simbólico é a rede significante, o conjunto dos significantes marcado pelo significante da falta de um significante que pudesse totalizá-lo. O simbólico, portanto, é da ordem da contingência. É o que cessa de não se escrever.


No campo do simbólico o objeto a ganha estatuto de semblante. É aí que podemos falar de pulsão oral – objeto seio, pulsão anal – objeto fezes, pulsão escópica – objeto olhar e pulsão invocante – objeto voz.


O Imaginário


O Imaginário é mais que a imagem e a imaginação. O imaginário é o sistema dos significados ou das significações cristalizadas. É da ordem do necessário: do que não cessa de se escrever.


No campo do imaginário se constitui o estádio do espelho. Onde o olhar do Outro (a mãe) enlaça a libido do sujeito a sua imagem. É o campo do narcisismo e do amor.


Embora o objeto a escape a especularização ele é a condição da imagem narcisista – i(a). Ao mesmo tempo em que a imagem mascara o objeto, forma-se a partir dele.


Lacan esvazia o predomínio imaginário que os prós-freudianos, sob a batuta de Melaine Klein, haviam construído na clínica e na teoria psicanalítica, povoando-a de objetos bons, objetos maus, fases de desenvolvimento e interpretações capazes de revelar o sentido oculto da fala do analisando.


Na trilha desse esvaziamento imaginário, muitas vezes, utiliza, metaforicamente, os conceitos da filosofia para propor uma nova leitura dos conceitos freudianos. Como, por exemplo, o recurso a Hegel e à “dialética do senhor e do escravo” vai servir para repensar o complexo freudiano do Édipo em termos de uma dinâmica intersubjetiva, e não como um sistema de escolhas e de relação de objeto.