terça-feira, março 22, 2011

A leitura lacaniana de "O visível e o invisível"



Prof(a). Dr. Marcos José Müller-Granzotto
E-mail: ..mjmuller@cfh.ufsc.br

Duração: 15 semanas - 4 créditos

Inicio do Curso: março 2011

Local: UFSC - CFH - sala 309

Horário de início: 13h30min


Título do curso: A leitura lacaniana de "O visível e o invisível".


Ementa:


No seminário XI (Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise), Jacques-Lacan interrompe a primeira sessão, dedicada a discutir a noção freudiana de pulsão, para tratar não mais dos conceitos fundamentais da psicanálise, mas do modo como Maurice Merleau-Ponty, na obra póstuma "O visível e o invisível", estabelece aquilo que Lacan denominou de uma diferença entre o olho e o olhar : mais além da visibilidade do mundo, no seio daquilo que emerge como horizonte de invisibilidade, um olhar vem me surpreender, denunciando minha própria vidência. Lacan – agora interessado em delimitar a gênese do sujeito da psicanálise (o sujeito do desejo) - reconheceu, na noção merleau-pontyana de olhar, uma possível indicação daquilo que Freud denominou de pulsão de morte, como se, para Merleau-Ponty, a divisão (Esquize) do Outro (como Invisível) vem denunciar minha própria castração e, por conseguinte, a causa do desejo (objeto a). Mas Lacan não tem certeza se, com a noção de “vidência”, Merleau-Ponty não recai novamente no imaginário platônico de um ultra-olhar, do qual cada corpo seria uma versão. Ora, como Lacan “leria” as mesmas passagens de Merleau-Ponty, agora do ponto de vista do sujeito do gozo, para quem a divisão do Outra já não importa mais? A dúvida se sustentaria? Ou seria letal para a nova mirada lacaniana? Para dar conta de cada uma destas questões, vamos recorrer aos textos em que Merleau-Ponty gesta seus conceitos, precisamente, os textos que tratam de construir uma ontologia a partir da obra de arte.


Sinopse:


“O que há então, não são coisas idênticas a elas mesmas que, em seguida, se ofereceriam ao vidente, e não é um vidente vazio antes de tudo que, em seguida, se ofereceria a elas, mas alguma coisa de que não poderíamos estar mais perto senão lhe apalpando com o olhar, porque o olhar mesmo as envolve, as veste com sua carne. De onde vem que, fazendo isto, ele as deixa em seu lugar, que a visão que nós as tornamos nos parecer vir delas” (MPonty, 1964, p.173).


Mas não é entre o visível e o invisível que nós temos que passar. A esquize que nos interessa não é a distância que se mantém entre o que existe de formas impostas pelo mundo e aquilo contara o que a intencionalidade da experiência fenomenológica nos dirige (...). O olhar só se apresente a nós sob a forma (...) da nossa experiência, a saber, a falta constitutiva da agonia da castração. O olho e o olhar, tal é para nós a esquize na qual se manifesta a pulsão no nível do campo escópico (Lacan, 1964, 69-70/72-73).



“De sorte que o vidente, estando preso no que vê, continua a ver-se a si mesmo: há um narcisismo fundamental de toda visão, daí por que, também ele sofre, por parte das coisas, a visão por ele exercida sobre elas; daí, como disseram muitos pintores, o sentir-me olhado pelas coisas, daí, minha atividade ser identicamente passividade – o que constitui o sentido segundo e mais profundo do narcisismo: não ver de fora, como os outros vêem, o contorno de um corpo habitado, mas sobretudo ser visto por ele, existir nele, emigrar para ele, ser seduzido, captado, alienado pelo fantasma, de sorte que vidente e visível se mutuem reciprocamente, e não mais se saiba quem vê e quem é visto. É a essa Visibilidade, a essa genreralidade do Sensível em si, a esse anonimato inato do Eu=-mesmo que há pouco chamávamos de carne, e sabemos que não há outro nome na filosofia ocidental para designá-lo “(Merleau-Ponty, 1964, 135.)

“Uma vez que vemos outros videntes, não temos apenas diante de nós o olhar sem pupila, espelho sem estanho das cosias, este pálido reflexo, fantasma de nós mesmos, que elas evocam ao designar um lugar entre elas de onde as vemos: doravante somos plenamente visíveis para nós mesmos, graças a outros olhos. Essa lacuna onde se encontram nossos olhos, nosso dorso, é de fato preenchido, mas preenchido por um visível de que não somos titulares; por certo, para acreditarmos numa visão que não é a nossa, para a levarmos em conta, é sempre, inevitável e unicamente, ao tesoura da nossa visão que recorremos e, portanto, tudo quanto a experiência nos pode ensinar já está, nela previamente esboçado. Mas é próprio do visível, dizíamos, ser a superfície de uma profundidade inesgotável; é o que torna possível sua abertura a oturas visões além da minha. (Merleau-Ponty, 19054, p. 139)




Programa

1. Lacan Leitor de Merleau-Ponty

2. Merleau-Ponty do ponto de vista do “sujeito do desejo”:

Tese A - Fazer-se objeto ante a divisão do Outro:? Carne como objeto a

Tese B - Fazer-se olho a partir da clarevidência alheia? Carne como chora

O veredicto da pintura

3. Merleau-Ponty do ponto de vista do “sujeito do gozo”:

Tese A – Narcisismo fundamental e gozo unário

Tese B – Narcismo fundamental e ambigüidade

O veredicto da literatura: descentramento e quiasma




Referências bibliográficas


FREUD, Sigmund. (1976) “Três ensaios sobre a sexualidade: _____. Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Trad. Jayme Salomão, RJ: Imago. (Vol. XXII)

LACAN, Jacques. (1986) O seminário – livro 7. A ética da psicanálise. Versão de M. D. Magno – 2.ed. – RJ: Zahar.

_____. 1964. O seminário. Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da

psicanálise. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Trad. M. D. Magno.

2.ed.Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

_____. 1969-70. O seminário. Livro 17. O avesso da psicanálise. Texto estabelecido por

Jacques-Alain Miller. Trad. M.D. Magno. Rio de Janeiro, Zahar.1998

_____. 1972. O seminário. Livro 20: mais, ainda. Texto estabelecido por Jacques-Alain

Miller. Trad. M.D. Magno. 2.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

MILLER, Jacques-Alain (1994-5). Silet – Os paradoxos da pulsão, de Freud a Lacan. Trad. Celso Rennó Lima: texto estabelecido por Angelina Harari e Jésus Santiago – RJ: Jorge Zahar, 2005.

MERLEAU-PONTY, Maurice(1964a) . Le visible et l'invisible. - Paris: Gallimard.

_____. (1992) O visible e o invisível. Trad. J. A. Gianotti. SP: Perspectiva

_____ (1964b) . L'oeil et l’esprit. - Paris: Gallimard.

_____. (2004) O olho e o espírito. Trad. Paulo Neves e Maria Ermantina Galvão Gomes Pereira. SP: Cosac & Naify.

_____ (1969) . La Prose du monde. - Paris: Gallimard.

MÜLLER-GRANZOTTO, Marcos José. Outrem em Husserl e em Merleau-Ponty. In: BATTISTI, César (org). Às voltas com a questão do sujeito. Posições e perspectivas. Toledo, Unioeste, 2010.

SARTRE, Jean-Paul. (1943) Entre quatro paredes. SP: Abril Cultural e Industrial.

SHEPHERDSON, Charles. Uma libra de carne. Discurso, (36), 2006, pp.95-125.

SAFATLE, Vladimir. A teoria das pulsões como ontologia negativa. Discurso, (36), 2006, Pp.151-191.

SOLLER, Colette. (1977). O sujeito e o Outro I e II, in: FELDSTEIN, Richard, FINK, Bruce, JAANUS, Maire (orgs). Para Ler o Seminário 11. Trad. Dulce Duque Estrada. RJ: Jorge Zahar, 1977.

ZIZEK, Slavoj; DALY, Glyn.. Arriscar o impossível: Conversas com Zizek. Trad. Vera Ribeiro. SP: Martins Fontes, 2006.

sexta-feira, março 18, 2011

A pressa é inimiga do desejo

20, Maresfield Gardens
in Hampstead,
LONDON-UK

"Aquele que sabe esperar não precisa fazer concessões....."

Freud, in: Psicologia de Grupo e a Análise do Ego, 1921


Alenka Zupančič: sobre o mal

Sobre o mal:  uma entrevista com Alenka Zupan Č i Č “Aqui, novamente, o termo “mal radical” não se refere a algum conteúdo ...