sábado, novembro 05, 2011

POR QUE MICHEL ONFRAY NÃO CONSEGUE CRITICAR FREUD ?


Alain Didier-Weill*

Tradução: Marco Antonio Coutinho Jorge**

A decisão tomada pela France Culture de propor a Michel Onfray uma tribuna cotidiana, durante este verão, para reforçar sua “crítica” de Freud, coloca diferentes questões. A primeira é lembrar que uma crítica pode proceder de uma démarche eminentemente criativa: quem contestaria que as críticas em relação a Freud que puderam ser formuladas, por exemplo, por Sartre, Foucault, Levinas, e até mesmo Lacan, trouxeram uma poderosa emulação junto a todos aqueles, especialistas ou não especialistas, que tinham razões de estar interessados na psicanálise?

Por que a crítica produzida por um pensador detém o poder de nos despertar? Porque a maneira pela qual nós a atestamos ou a contestamos faz, em todos os casos, ressoar em cada um de nós a relação conflituosa que ele mantém com a verdade.

É nesse ponto, em que devemos nos perguntar se o livro de Michel Onfray tem a dimensão de uma crítica, que respondemos categoricamente: não.

Esse livro não é, de fato, concebido para colocar a questão epistemológica da veracidade da invenção freudiana, mas sim para dizer que Freud seria um pecador com uma moral duvidosa: que busca ele nos dizer senão que Freud não cessou de frequentar o mal, pois teria dormido com mulheres de sua família, extorquido indevidamente quantias colossais de seus pacientes e pactuado com o diabo (o nazismo)?

Através dessa busca da denúncia de um pecador – e não da questão colocada pela enunciação de um pesquisador – temos a impressão de que Michel Onfray, que dispende tanta energia para denunciar a Igreja, se conduz como um padre dos tempos antigos: tão fascinado pelo pecado que é levado, sem temer o ridículo, a inventar fábulas tão loucas quanto aquelas que eram inventadas pelos inquisidores para autentificar sua condenação das bruxas.

Do mesmo modo que elas eram cúmplices do diabo, Freud, segundo o inquisidor moderno que é Michel Onfray, era cúmplice desse mal diabólico encarnado em sua época pelo nazismo. É nessa perspectiva que podemos dizer que o discurso de Michel Onfray, tal como o do inquisidor, não critica: ele nega.

O que o inquisidor nega ao dizer que a bruxa pactua com o diabo será muito diferente do que Onfray nega ao dizer que Freud pactua com o demônio sexual ou o demônio nazista? A esse respeito, eu diria que o ponto comum entre eles é a obediência a esse Mestre que é o supereu que, incapaz de pensar de outro modo senão através da perseguição, torna possível tais contra-verdades aberrantes, por exemplo, situar Freud como simpatizante do nazismo.

Em relação a essa acusação precisa, é necessário agradecer a France Culture por ter de alguma forma respondido a Onfray ao transmitir, em 10 de julho passado, o texto “Freud e Einstein – Por que a Guerra?”, interpretado por Michel Bouquet e Pierre Forest. Lembremos, com efeito, que a correspondência entre esses dois homens – a partir da qual escrevi o diálogo que foi transmitido pelo rádio – lhes foi encomendada em 1933 pela Sociedade das Nações, que, conhecendo perfeitamente sua posição radical em relação a Hitler, lhes solicitou intervir sobre a questão do perigo nazista.

Voltemos à diferença entre a crítica e a negação: quando Sartre critica o inconsciente freudiano, pois este lhe parece introduzir um limite infranqueável à liberdade, ele coloca os psicanalistas na posição de responder o que é, segundo eles, a liberdade. Quando Levinas critica o inconsciente freudiano, que lhe parece barrar o horizonte da transcendência, ele demanda do mesmo modo uma resposta à sua questão. Quando Lacan critica o Édipo de Freud, ele propõe ir mais além daquilo que Freud concebeu, pelo fato de sua própria história, de sua própria neurose.

A negação não tem nada a ver com a crítica, pois ela não é efeito da razão, mas do supereu: ela é o meio pelo qual o fato de acusar uma pessoa exonera de ter que acusar recebimento da mensagem que esta pessoa porta. Da mesma maneira que o inquisidor nega o que a feiticeira dá a entender do desejo humano, Michel Onfray, acusando Freud, é exonerado de acusar recepção do dizer de Freud sobre o inconsciente.

Nessa perspectiva, eu não diria, como alguns colegas, que se trata aí de um ódio em relação a Freud, mas sim de um ódio estrutural, que, apesar da aparência, visa um real que ultrapassa muitíssimo a pessoa de Freud. Esse ódio estrutural é aquele que anima o Mestre tal como Lacan propôs defini-lo: ele é aquele que, sustentando um discurso que é “o avesso da psicanálise”, está fadado, por isso mesmo, a consagrar sua vida e sua energia a foracluir, a negar, a odiar, a própria existência do inconsciente.

Devido à existência de tal ódio estrutural, não devemos nos surpreender ao tomar conhecimento de que, lendo o livro de Michel Onfray, as pessoas que têm uma experiência de análise, são levadas imediatamente a reconhecer – sem ter que conhecer profissionalmente a teoria ou a história da psicanálise – que este livro não fala nunca do que é a psicanálise em ato.

A abertura para a ética própria ao reconhecimento do inconsciente é necessária e suficiente para reconhecer um discurso negador.

 * Psicanalista francês, fundou a revista Insistance www.insistance.org ) e é autor de livros como Quartier Lacan (Cia. de Freud, 2007) e Os três tempos da lei (Jorge Zahar Ed., 1997).
** Psicanalista, psiquiatra diretor do Corpo Freudiano do Rio de Janeiro, professor-adjunto do Instituto de Psicologia da Uerj, membro correspondente do Mouvement du Coût Freudien (Paris), membro correspondente da Association Insistance (Paris/Bruxelles), autor de Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan (Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2000). Sítio pessoal: www.macjorge.pro.br.

IN: Psicanálise & Barroco em revista v.8, n.2: 175-178, dez.2010 177

segunda-feira, outubro 31, 2011

Sobre o Existencialismo: fragmentos


"A existência precede a essência" ou os cinco conceitos- chaves do existencialismo sartriano: a má-fé, a reificação, o ser e o nada, a náusea.

Comecemos pelo começo; o que é o existencialismo? Simplesmente, segundo Sartre, a filosofia que assume como própria a convicção de que "a existência precede a essência". Essa formula pode parecer abrupta e pouco eloquente à primeira vista. No entanto, ela é muito simples e mais profunda do que parece. Significa em primeiro lugar o seguinte: em toda a filosofia clássica de inspiração platônica e, talvez mais ainda, na religião cristã, partiu-se da ideia de que para o ser humano "a essência precedia a existência". Claramente falando: primeiro Deus concebe o homem e a mulher e depois vem, num segundo tempo, a criação que os faz existir. Haveria em certo sentido um "Deus artesão" que, como um operário que tem de fabricar um objeto, faria primeiro um projeto e depois o realizaria. Em outras palavras ainda, nessa perspectiva, Deus primeiro faz funcionar seu entendimento e somente depois, num segundo momento, sua vontade.
Para tornar suas ideias totalmente claras, Sartre, num pequeno texto que aconselho todos os meus alunos a ler, O existencialismo é um humanismo, toma o exemplo de um operário que tivesse de fabricar um corta-papel. Eis como formula as coisas:
Consideremos um objeto fabricado, como, por exemplo, um livro ou um corta-papel: tal objeto foi fabricado por um artífice que se inspirou num conceito; ele se reportou ao conceito do corta-papel e igualmente a uma técnica prévia de produção que faz parte do conceito, e que e no fundo uma receita. Assim, o corta-papel é ao mesmo tempo um objeto que se produz de uma certa maneira e que, por outro lado, tem uma utilidade definida, e não é possível imaginar um homem que produzisse um corta-papel sem saber para que há de servir tal objeto. Diremos, pois, que, para o corta-papel, a essência - quer dizer, o conjunto de receitas e de características que possibilitam produzi-lo e de defini-lo - precede a existência... Quando concebemos um Deus criador, identificamos esse Deus quase sempre com um artífice superior; e qualquer que seja a doutrina que consideremos, trate-se de uma doutrina como a de Descartes ou a de Leibniz, admitimos sempre que a vontade segue mais ou menos a inteligência ou pelos menos a acompanha, e que Deus, quando cria, sabe perfeitamente o que cria. Assim o conceito de homem, no espírito de Deus, é assimilável ao conceito de um corta-papel no espírito do industrial... O existencialismo ateu, que eu represento... declara que, se Deus não existe, há pelo menos um ser no qual a existência precede a essência, um ser que existe antes de poder ser definido por qualquer conceito, e que este ser é o homem...
Vemos, portanto, que Sartre, sem se dar conta (acreditando inclusive ser totalmente original), coincide quase palavra por palavra com a noção de liberdade humana elaborada por Rousseau e Kant. Para ele assim como para eles, o homem é livre no sentido que escapa a todas as categorias "essenciais", a todas as definições, mas também a todos os "programas" nos quais gostariam de encerrá-lo.
Eis por que, aos olhos de Sartre, o principal adversário do existencialismo é a religião, e particularmente a teologia cristã. De fato, segundo a visão teológica do mundo, a essência (o plano) vem antes da existência (sua realização), de tal sorte que se deve supor uma finalidade prévia do ser criado da qual se poderia deduzir uma reflexão sobre sua destinação - no que concerne ao homem, uma moral. Assim como o corta-papel é "feito para" abrir livros ou o relógio para dar as horas, deve-se imaginar que também o ser humano, na perspectiva de ser "fabricado" por Deus, deva responder a um objetivo e cumprir uma certa missão (por exemplo, servir a ele, obedecer a seus mandamentos etc.)
É esse esquema clássico, com todas as suas implicações éticas, que o existencialismo sartriano propõe inverter: se o ser humano não é estritamente falando uma criatura, nenhum "plano", nenhuma “essência” precede sua existência. Por conseguinte, nenhuma finalidade particular esta vinculada a seu ser - como ocorre, em contrapartida, no caso de todos os objetos fabricados. O ser humano é nesse sentido o único ser plenamente livre, o único que escapa a priori a toda definição prévia. Compete a ele, não seguir mandamentos divinos que estariam vinculados a sua condição de criatura, mas, ao contrário, “inventar” o Bem e o Mal.
Dessa simples abordagem do existencialismo já se deduz uma tese crucial: para Sartre, assim como para Rousseau e Kant, não existe “natureza humana” intangível, não existe destinação do homem inscrita a priori na sua essência.
Deve-se prestar bastante atenção ao ler Sartre: por não ser um bom historiador da filosofia, ele ignora seus predecessores e não para de afirmar, equivocadamente, que o existencialismo marca uma ruptura total com as filosofias do século XVIII. Há nisso um engano, o que não tem importância no que diz respeito ao fundo, mas é às vezes constrangedor no plano histórico. Na verdade, como Rousseau e Kant, Sartre acha que o homem é o ser que por assim dizer faz “explodir” todas as categorias, todas as definições nas quais querem aprisioná-lo – no que, mais uma vez, reside sua liberdade. Por isso também, assim como eles, acaba desmontando os pressupostos do racismo e do sexismo. De fato, em que mais eles consistem senão na ideia de que existe uma essência da mulher, do árabe, do negro, do amarelo ou do judeu que precederia a existência deles e da qual poderiam ser deduzidas características necessárias e comuns à “espécies”? Logo, faria parte da “natureza” “da” mulher (como se houvesse apenas uma!) ter filhos, não participar da vida pública e ficar fechada na vida doméstica, ser doce e sensível, intuitiva mais que intelectual etc, assim como, segundo os clichês habituais do racismo, faria parte da natureza “do” negro ter o ritmo no sangue e ser infantil (“o africano é brincalhão”), “do” árabe ser hábil, “do” judeu ser inteligente, gostar de dinheiro e outras baboseiras desse tipo.
Se não existe nenhuma “natureza” do ser humano em geral, tampouco existe natureza de determinado sexo ou “raça”. Foi sobre essa convicção que o existencialismo teve por vocação fundar um feminismo e um anti-racismo de tipo universalista: o que dá dignidade ao ser humano em geral é o fato de ser, diferentemente dos objetos ou dos animais, um ser fundamentalmente livre, transcendendo todas as etiquetas que pretendam colar nele. O que constitui seu valor não é sua pertença a uma determinada comunidade sexual, étnica, nacional, linguística ou cultural, mas, ao contrário, o fato de ser capaz de se elevar acima de todos esses enraizamentos possíveis para participar da humanidade em geral.
Pelas mesmas razões, nem a história nem a natureza poderiam ser tidas por “códigos” determinantes. É verdade que o humano existe em situação: tem um sexo, uma nação, uma família etc. Em suma, tem uma natureza e uma história. Ocorre que, justamente ao contrário do que diz o materialismo, ele não é essa natureza e essa história e nem poderia ser reduzido a elas. Ele as tem e pode pô-las em perspectiva, ou até, em certa medida, abstrair-se delas para lançar-lhes um olhar crítico. Não é por ser mulher que se é menos Homem...
Luc Ferry, in: Vencer os Medos
Tradução de Claudia Berliner
Editora: WMF Martins Fontes
Parte III – Para levar para a ilha deserta...