quinta-feira, abril 11, 2013

O Conceito de Angústia em Lacan




As formulações apresentadas por Lacan no seminário de 1962-63 (Seminário X) a propósito da concepção de angústia apresentam algumas diferenças em relação à teoria freudiana da angústia. Não são apenas retomadas das teses freudianas, mas formulações novas que, de qualquer modo, têm as elaborações freudianas como referência. Ainda que Lacan afirme que em "Inibição, Sintoma e Angústia"(Freud,1926) fala-se de tudo, exceto da angústia, é às questões levantadas por Freud neste texto que ele se refere privilegiadamente na sua discussão, questionando algumas formulações e procurando apresentar caminhos para a resolução de determinados impasses.

Em primeiro lugar, para Lacan a angústia é um afeto. Esta afirmação é importante no contexto de uma crítica ao ensino lacaniano por apresentar um excesso de intelectualismo, crítica feita por aqueles que consideravam que a psicanálise deveria tratar do afetivo, a partir de uma distinção psicológica entre o pensar, o sentir e o querer. Não se trata para Lacan, de entrar nessa psicologia dos afetos, na medida em que a angústia não é uma emoção, mas um afeto especial que "tem estreita relação de estrutura com o que é um sujeito" (Lacan, op.cit) Este afeto especial Lacan diz que é da ordem de uma perturbação e não de um sentimento.

Além disso, a angústia é um afeto que interessa sobremodo à experiência psicanalítica, uma vez que, como dirá mais adiante, é um afeto que não engana. Como tal ele serve de orientação para o analista na sua prática, não só pela sua emergência no analisante, mas também no próprio analista. Em todo o seu desenvolvimento sobre a angústia, a prática psicanalítica aparece como uma referência importante, o que não significa dizer que ele deixe de pensar a angústia no nível teórico, no sentido meta-psicológico, articulando-a aos registros do real, do simbólico e do imaginário.

O que há de mais fundamental no que Lacan vai elaborar neste seminário decorre da sua afirmação da existência de uma relação essencial entre a angústia e o desejo do Outro. Ao referir-se ao desejo do Outro, ele traz a dimensão do Outro, como lugar do significante para a definição de angústia. Ao pensar a estrutura da angústia, enfatiza que, ao contrário do que geralmente se pensa, a angústia está enquadrada por esta relação ao campo do significante na sua articulação com o imaginário. Nesse sentido, não se pode ver, em Lacan, uma concepção de angústia totalmente descolada do registro da representação, como falta de representação, puro excesso econômico.

Ele parte da própria definição de sujeito como determinado pelo significante, como constituído pelo traço unário, o significante mais simples, que o precede. Nessa relação ao Outro, o sujeito se inscreve como um quociente, isto é, como um resultado dessa marca significante. Mas há um resto, um resíduo, no sentido mesmo da operação matemática da divisão. Esse resto, esse irracional, esse enigma, é o objeto a, única garantia da alteridade do Outro. A problemática da angústia se vincula ao desejo do Outro justamente enquanto estrutura portadora desse enigma, nesse ponto de falta que faz do Outro o Outro. 

Nesse momento de sua formulação Lacan vai articular o simbólico e o imaginário, o significante e a imagem especular, afirmando que a angústia permite refazer esta articulação.

No estádio do espelho há uma relação essencial entre o momento jubilatório em que o bebê assume sua imagem especular e o movimento que faz ao se voltar para o adulto pedindo assentimento. Este pode ser considerado como o indício da ligação inaugural entre o advento da função da imagem especular i(a) e a relação com o grande Outro. A relação especular encontra-se dependente do fato de que o sujeito se constitui no lugar do Outro, pelo significante.

O investimento especular se dá no interior da dialética do narcisismo, a partir da identificação. Por outro lado, esse investimento está também na base do desejo, na medida em que ele supõe essa relação ao Outro. Como diz Comaru: "É nos impasses da relação entre desejo e identificação que a angústia surge sob a forma de uma questão: Che vuoi? Que queres? Que Lacan traduz como: O que queres de mim? Que quer ele em relação a esse lugar do eu? "No momento de da virada entre o investimento no outro (desejo) e a retração narcísica (identificação), a angústia comparece como índice de que nem tudo no campo dos investimentos se desdobra em identificação. Este resto não incorporável no eu, esse resíduo de investimento narcísico, isso que não entra na imagem especular é postulado por Lacan como sendo causa da angústia" (Comaru, 1995).

Esse resto, é um objeto que escapa à imagem especular, cujo estatuto é difícil de articular, diz Lacan - o objeto a. É dele que se trata quando Freud fala da angústia. Nesse sentido, para Lacan, não se pode dizer que a angústia é sem objeto.

É interessante que Lacan introduz a noção de unheimlich para pensar a angústia na sua relação com este objeto. Ele diz: abordei o inconsciente pela via do chiste e vou abordar a angústia pela via do unheimlich, porque é a dobradiça absolutamente indispensável para pensar essa questão.

O que constitui a angústia? É quando um mecanismo fez aparecer alguma coisa, unheimlich, no lugar do a como objeto do desejo, como imagem da falta. Porque o objeto a não é especularizável. Pelo contrário, quanto mais o sujeito tenta dar corpo ao que no objeto do desejo representa a imagem especular, mais ele é logrado. Quando algo surge no lugar da castração imaginária, é isso que provoca angústia, uma vez que a falta falta. É isso que dá o verdadeiro sentido ao que Freud designa como perda de objeto em relação à angústia.

Examinando o radical da palavra - heim/ unheim - Heim indica a casa do homem e o homem encontra sua casa num ponto situado no Outro, para além da imagem de que somos feitos e este lugar representa a ausência em que estamos. É a presença que faz esse lugar como ausência. A experiência do unheimlich é sempre fugidia. O unheimlich - o horrível, o duvidoso, o inquietante - surge nas frestas, de repente, subitamente. O surgimento do unheimlich-heimlich ( porque um se revira no outro, neste ponto de dobradiça), no sentido radical daquele que não passou pelas redes do reconhecimento, é o fenômeno da angústia.

Esta formulação nos reenvia à experiência primitiva do objeto, ao complexo do próximo que, no Projeto de 1895 Freud articula ao desamparo primordial do sujeito humano, que o inscreve indelevelmente na dialética da relação ao outro. Este complexo Freud o divide em duas partes: uma que pode ser reconhecida como significante e outra que se apresenta como estranha e mesmo hostil, na medida em que não se deixa apreender como transparência pelo sujeito. Seguindo esta articulação Lacan dirá, diferentemente de Freud, que a angústia não está relacionada ao desamparo inicial, mas sim ao amparo que o sujeito recebe, onde se faz enigmático algo que diz respeito ao desejo do Outro. A perda do objeto não está relacionada a uma ausência mas a uma presença portadora de um enigma: Che vuoi?

Se a demanda primitiva tem sempre alguma coisa de enganadora, que preserva o lugar do desejo, o que acontece na neurose? Na neurose o que ocorre é uma falsa demanda. O neurótico faz da demanda o seu objeto. A angústia surge quando se dá a está falsa demanda uma resposta obturante que não preserva esse vazio, causa do desejo, uma obturação que não tem nada a ver com o conteúdo da demanda, se positivo ou negativo: é aí que surge esta perturbação onde se manifesta a angústia.

Se a angústia surge no lugar da castração imaginária - phi - e Freud vai dizer que na experiência do neurótico a angústia de castração se apresenta como intransponível, Lacan afirma que não é a castração em si mesma que constitui o impasse do neurótico. Aquilo diante do que ele recua, não é da castração, mas de fazer de sua castração o que falta ao Outro. É de fazer de sua castração algo de positivo que é a garantia desta função do Outro.

Mas a angústia não se refere, certamente, apenas ao neurótico, estando ligada à própria estrutura do sujeito. "O significante engendra um mundo, o mundo do sujeito que fala e cuja característica essencial é a de que é possível, aí, enganar. A angústia é esse corte mesmo, sem o qual a presença do significante, seu funcionamento, sua entrada, seu sulco no real é impensável. É este corte que se abre e que deixa aparecer o inesperado, a visita, a novidade - presentimento, pré-sentimento - antes do nascimento de um sentimento" (Lacan, op.cit). Nesse sentido, a verdadeira substância da angústia é aquilo que não engana - o sem dúvida..

Para Lacan, portanto, a angústia não é sem objeto, o que não significa dizer que ela tem um objeto. O objeto que se trata na angústia é esse objeto que é apenas um lugar, que tem um estatuto especial de causa do desejo: o objeto a.

Ao comentar a definição mínima de angústia que Freud apresenta em "Inibição, Sintoma e Angústia", como angústia sinal, Lacan opera uma torção ao dizer que ela é sinal não de perda do objeto, mas justamente da intervenção do objeto a. Ela é sinal de certos momentos da relação do sujeito com esse objeto e, por isso, é um sinal para o analista. Ele chega a dizer que é pelo viés da angústia que se pode falar do objeto, na medida em que ela é a sua única tradução subjetiva.

A angústia introduz à função da falta, no sentido de que ela é, para a psicanálise, radical. Ela é radical para a própria constituição da subjetividade tal qual ela aparece na experiência analítica. "A relação ao Outro se dá por esse ponto de onde surge o fato de que há significante, ponto esse que não poderia ser significado. O que eu chamo de ponto "falta de significante" (Lacan, op.cit). Não existe, portanto, falta no Real, na medida em que a falta só é apreensível por intermédio do simbólico. Nesse sentido a falta é simbólica.

Quando Freud fala de angústia sinal se produzindo no eu, ele se refere a um perigo interno. Lacan suprime a noção de perigo interno, pois o envelope do aparelho neurológico - em uma referência ao Projeto - não tem interior, não é mais do que uma superfície - superfície unilátera. O que se interpõe entre percepção e consciência, a outra cena, situa-se nesta dimensão do Outro enquanto lugar do significante.

A angústia é introduzida como manifestação específica nesse nível do desejo do Outro, onde ganha importância o sinal que se produz no eu, no lugar do eu, mas que diz respeito ao sujeito. O eu é o lugar do sinal, mas não é pelo eu que o sinal é dado. Se isto aparece no eu é porque o sujeito foi advertido de algo – e este algo é um desejo.

Já no Seminário 8 sobre A transferência Lacan afirmava que o sinal de angústia tem uma relação absolutamente necessária com o desejo. Sua função não se esgota na advertência, pois ao mesmo tempo que realiza esta função, o sinal mantém a relação com o desejo. A angústia é o modo radical sob o qual é mantida a relação com o desejo. "Quando, por razões de resistência, de defesa e de outros mecanismos de anulação do objeto, o objeto desaparece, permanece o que dele pode restar, a direção para o seu lugar, lugar de onde ele , a partir de então, se ausenta .... Quando atingimos este ponto, a angústia é o último modo, modo radical, sob o qual o sujeito continua a sustentar, mesmo que de uma maneira insustentável, a relação com o desejo.(Lacan,1992:353)

O desejo do Outro não reconhece o sujeito, nem o desconhece, ele o coloca em causa, o interroga na raiz mesmo do seu desejo como a, como causa de desejo e não como objeto. A única via para romper esse aprisionamento é engajar-se nele. Por isso Lacan diz que o desejo é o remédio contra a angústia. A dimensão temporal desse engajamento surge com a angústia e é isto que está em jogo na análise.

O sinal da angústia, assim, adverte sobre algo muito importante na clínica. É o ponto que mais pode indicar aos analistas o uso que podem fazer da angústia. A angústia não é absolutamente interna ao sujeito, mesmo porque o próprio do neurótico é ser um vaso comunicante. A angústia como energia o neurótico busca nos grandes Outros com os quais se defronta, entre eles o analista. Por isso é importante que o analista saiba a quantas anda o seu desejo para que não surja na análise a sua angústia, na medida em que ela pode se transportar para a economia do sujeito. A angústia do analista não pode entrar em jogo, a análise deve ser asséptica quanto a isso.

É a noção de real que permite a orientação na prática, uma vez que esse algo diante do qual surge a angústia é o real. A angústia é sinal do real, de algo da ordem do irredutível. Por isso a angústia, de todos os sinais, é aquele que não engana. Isto está ligado à própria constituição subjetiva, na medida em que é o real - e seu lugar - aquele em relação ao qual, com o suporte do sinal ( significante), da barra, pode-se inscrever a operação de divisão. No processo de subjetivação algo resta de irredutível nesta operação de advento do sujeito no lugar do grande Outro. Esse resto é o a. Enquanto queda da operação subjetiva pode-se reconhecer nele o objeto perdido: é disto que se trata, de um lado no desejo e, de outro, na angústia. O que Lacan procurou mostrar foi isso: "penso ter-lhes mostrado o jogo de esconder pelo qual angústia e objeto, um e outro, são levados a passar a primeiro plano, um às expensas do outro, mas também ter mostrado o lugar radical da angústia nesse objeto, à medida que ele cai. Esta é a sua função essencial, função decisiva de resto do sujeito, do sujeito como real" (Lacan, Sem X).

Finalizando, gostaria de destacar a articulação feita por Lacan em que a angústia aparece como uma função mediana entre o gozo e o desejo.

Pode-se pensar, por um lado, em um sujeito mítico que seria o sujeito do gozo e, por outro, a poderia ser visto como metáfora do gozo. Mas isto só seria correto se a fosse assimilável a um significante. E é justamente isto que não acontece, pois o a é o que resiste a significantização, o objeto perdido, fundamento do sujeito desejante, não mais o sujeito do gozo. O sujeito desejante, na sua busca do gozo, procura fazer entrar esse gozo no lugar do Outro, como significante. É por esta via que o sujeito se precipita, se antecipa como desejante. É no sentido de que ele aborda, aquém de sua realização, esta hiância do desejo ao gozo, que surge a angústia. Portanto, a angústia não está ausente na constituição do desejo, mesmo se este tempo é elidido. É sobre o tempo da angústia que o desejo se constitui, o que nos indica a importância da dimensão temporal da angústia na experiência analítica.

By: Doris Rinaldi


Bibliografia:
COMARU, Marcos - "Notas sobre a concepção lacaniana da Angústia, Papéis no.1 , março de 1995.
FREUD, S. – Obras psicológicas completas, Edição Standard Brasileira Rio de Janeiro, Imago Ed. 1976.
__________. "Projeto para uma psicologia científica"(1895)
__________. "Inibição, Sintoma e Angústia" (1926)
LACAN, J. - Seminário VIII, A Transferência (1960-61), Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1992.
_________ - Seminário X - A Angústia (1962-63), documento de circulação interna do Centro de Estudos Freudianos de Recife, s/d (mimeo).



quarta-feira, abril 10, 2013

Sobre a Angústia


A Angústia.

Em princípio, gostaria de dizer que vou falar sobre a angústia. Peço licença de fazer essa modificação da palavra ansiedade, título neste Simpósio, pela palavra angústia, devido a uma discussão ocasionada pela tradução da palavra que Freud utilizou: angst traduzida para o português na coleção de suas obras completas como ansiedade. Não quero cansá-los com essa problemática, só quero precisar que prefiro utilizar o termo ‘angústia’ uma vez que minha abordagem tem a ver com a psicanálise e foi esse o termo referido por Lacan, autor junto com Freud, que me baseio no desenvolvimento do que aqui trago.

1. Angústia é um Sentimento

Diria simplesmente, retomando uma expressão de Freud: “Angústia é algo que se sente”.

Embora essa expressão possa parecer absolutamente óbvia para os que consideram que a psicanálise lida com os sentimentos, gostaria de privilegiar um fato: não há muitos sentimentos com os quais a psicanálise lida. Diria mesmo que existe um sentimento: angústia.

Melhor que dizê-la um sentimento falaria em estado, estado de angústia. Estado é algo que toca o ser. Sentimento é algo da ordem da representação; representação que em Freud recebe o nome de traços mnêmicos que podemos tentar uma aproximação com o que Lacan define como significante.

O trabalho de uma análise se divide entre essas duas vertentes: uma a que trabalha com esses significantes colocados em cadeia, pela regra fundamental - a associação livre - também chamada vertente do sintoma. Já desde ‘Interpretação dos Sonhos’, Freud se dava conta que os afetos não eram anteriores à palavra. Seria necessária a associação livre para daí surgir o afeto, como consequência das articulações significantes produzidas. Os afetos são assim: consequência do que é dito. Esse é um dos pontos que fez com que Lacan dissesse que “o inconsciente é estruturado como uma linguagem” que se antepõe às concepções do inconsciente visto como reservatório de fantasias primitivas e arcaicas e outra, - a vertente do fantasma - que faz trabalhar exatamente o que falta à representação - o objeto de desejo não representável. Aquilo que Freud denominou “a coisa”, o “isso”, mal traduzido na edição brasileira por “Id”, o inominável, o que escapa à representação, o que escapa ao significante.

Angústia está assim, do lado daquilo que escapa à representação, na vertente do fantasma.

Quando Lacan fala dessa diferença, nos auxilia a marcar que a psicanálise não é ortopedia psíquica, embora a difusão leiga favoreça que na clínica nos deparemos muito freqüentemente com pacientes que dizem ”... não tenho mais nada para falar, não estou sentindo nada de especial hoje”.
Enquanto através da palavra o sujeito tenta encontrar sua verdade que sempre lhe escapa, é através da angústia que mais podemos nos aproximar do Real do ser.
E dessa angústia, assim contextuada, que pretendo aqui tratar, dando importância à sua aparição na clínica.

2. Em Freud

É muito conhecida a expressão freudiana que “angústia é a angústia da castração”.

De imediato, ao inverter a frase, podemos dizer: a castração é a solução da angústia.

O texto de Freud de 1925 ‘Inibição, sintoma e angústia’ marca um ponto de virada no pensamento freudiano a respeito desse tema. Até então, o autor defendia a idéia que angústia era uma conseqüência do processo de recalcamento. A partir daí, é exatamente o inverso o que ele conclui, dizendo que a angústia é o precipitador do recalcamento.

Tomemos o exemplo clássico do complexo de Édipo. Ali se impõe a dolorosa escolha para o sujeito. Tem-se que optar entre a bolsa ou a vida, tem-se que optar, dada a intervenção da lei paterna, em conservar a mãe, objeto primordial de desejo, e perder o pênis, ou conservar o pênis e perder a mãe. Mas, sabemos, não há eleição, só sujeição à lei.

Dado o anedótico e o folclórico em que foi transformada a conceituação do complexo de Édipo, peço a vocês que o pensem enquanto uma estrutura que põe em jogo a escolha entre o gozo e o desejo.
Por isso não nos ser necessário inventarmos novos complexos, como por exemplo, de Electra, de inferioridade, de superioridade, de Cinderela, etc.

A intervenção paterna inscreve o sujeito na palavra, dando-lhe um instrumento de articulação do seu desejo. Sabemos no entanto, que sempre ao terminar uma frase, nos damos conta que ficou algo a dizer. A última palavra é corriqueiramente acompanhada de insatisfação, o que faz com que o humano sempre providencie ocasiões em que possa falar um pouco mais, como é o nosso caso de hoje, aqui.

Ao dizer que a castração é a solução da angústia, quero com isso lembrar que se ela é a solução é porque afasta do sujeito a presença do objeto de desejo.

Talvez seja paradoxal dizer isto e busco uma maneira de exemplificar mais claramente o que, através da intervenção paterna, é dado como possível a este ser, que por ela é transformado em um ser de fala. O que se torna possível é a expressão de um desejo para sempre insatisfeito pela total discordância entre o instrumento que se tem como ferramenta de busca, a palavra e a natureza da coisa a ser conquistada, um objeto que a ela não se adequa.
A proximidade ao objeto de desejo angustia e por isso chamarmos o orgasmo de “pequena morte”, dado que este momento utópico e imaginário de felicidade e complementação absoluta, entre o que se é e o que falta, ser um momento de ausência de palavras.
Popularmente, Ataulfo Alves cantou: “eu era feliz e não sabia, quando tinha a mulher de verdade”. Agora que sei, não sou mais. Outra vez, toco na discordância pela qual abri este trabalho, agora, via nossa canção popular: a discordância do estar, do ser, com o pensar. Por isso havia dito da angústia enquanto um estado.

É a falha sempre presente na inscrição simbólica do sujeito que pode defrontá-lo ao desejo do Outro. Aqui me refiro a uma conceituação muito precisa em Lacan de “Outro”, que prefiro abordar através de um exemplo comum.

A todo momento em que uma pessoa se defronta ao desejo do outro, outro esse colocado numa situação de importância para ele, numa ocasião de uma solicitação de emprego, por exemplo, conhecemos os ensaios que o sujeito faz para ali se apresentar: “com que roupa que eu vou... que eu vou dizer... será que vai aceitar minha proposta... chego na hora ou um pouco antes... mostro indiferença ou interesse... falo de um jeitão positivo e auto-suficiente ou vou numa de humilde... trato de senhor ou de você, etc, etc., etc.”.

Sabemos que só há uma solução: se apresentar no emprego e dizer o que deseja. O outro caminho, o que solicita a garantia do reconhecimento, é o caminho certo da angústia. É ao reconhecimento absoluto, absoluto pois nada escapa, nada falta, que damos o nome de gozo e, a sustentar o eventual do jogo das possibilidades: desejo.
3. Na Clínica

Abordarei a incidência da angústia na clínica desde dois lugares: o lugar do analista e o lugar do analisando.

3.1 Do analista

Se há algo especifico de que o analista priva seu analisando é, exatamente, a sua angústia. A concepção lacaniana, que um analista sustenta uma análise através do seu desejo, diz respeito à esse fato. Não se trabalha em análise com a divisão da angústia, mesmo porque, não querendo ir muito longe, quando dividimos angústia, ou quando dividimos um bolo, cada um fica com menos.

No trabalho da análise, ao não se dividir a angústia, ao não se participar analista e analisando da mesma angústia, o que se faz é pôr a angústia a trabalhar. Isso esclarece a definição lacaniana, que análise é o tratamento do Real pelo Simbólico.

Ao privar seu paciente de sua angústia, a do analista, este possibilita pela transferência, que a expressão dessa resposta, que é endereçada ao Outro e não ao analista, se transforma em um saber operável, livrando o analisante dos seus aspectos paralisantes.

A angústia pode ser pensada como um estado de uma presença insuportável que deve ser simbolizada. Em termos médicos, faríamos uma analogia com a asma, por exemplo, que aparece pela presença de um alergeno.

3.2 Do analisando

Do lado do analisando: podemos pensar numa repartição da clínica, à partir das estratégias que o sujeito executa no evitamento de se deparar frente ao enigma do desejo do Outro.

3.2.1 Tipos clínicos

Na histeria, o sujeito visa prever o desejo do Outro, suscitando-lhe um desejo, do qual tenta e se quer fazer objeto.
Na obsessão, o sujeito instaura um Outro, ao qual se liga enquanto escravo fazendo dessa relação, uma relação única e ignorando que exista um Outro desejante e, até mesmo, que existam outros.

Na fobia, a insuficiência da intervenção paterna, faz com que o sujeito busque na realidade exterior, um evitamento do encontro do objeto angustiante.
Nas perversões, o sujeito tem como estratégia produzir a angústia no Outro, apontar a sua falha, denunciar a sua divisão.
E, finalmente, nas psicoses, o delírio serve a inventar um Outro de desejo, que lhe possibilite um lugar de inscrição.

Conclusão

Em primeiro lugar a angústia sob esses pontos de vista, é um elemento própria da constituição do sujeito do Inconsciente. Isso basta para dizer que ela não é um obstáculo para análise, pois idealizar um tratamento analítico sem angústia seria tão difícil quanto sem o analisando.
Esquematicamente, poderíamos pensar três momentos do aparecimento da angústia numa análise; antes do tratamento, durante e ao final.

a) Antes

Habitualmente, é por um acontecimento qualquer na vida de um sujeito que lhe desestabiliza, que lhe coloca uma interrogação, que lhe obriga interpretações costumeiramente decepcionantes, ou, dito em termos mais precisos, um acontecimento que tem a propriedade de tocar o Real, ponto de angústia, é que se procura uma análise.

b) Durante

No decorrer de um tratamento, como por exemplo, no caso de um obsessivo, é a angústia um acontecimento bastante favorável ao questionamento do imperativo superegóico do gozo, que massacra o sujeito, possibilitando ao desprendimento do desejo, resolvedor dessa situação.

c) Ao final

Ao final de uma análise a angústia pode surgir em sua forma mais direta, naquilo que Freud chamou o rochedo da castração e que Lacan, por sua vez, denominou como o passe, travessia.

O atravessamento da ligação do sujeito com seu objeto, o toque no ser, o toque, sempre angustiante.

A perda consequente de toda certeza, própria e do Outro, a decepção de que exista a garantia de reconhecimento absoluto, faz, no fim de uma análise, transformação da angústia paralisante, que só se sustenta no totalitário, no pleno, no sem falha e no sem falta. A relativização desse absoluto, traz consequências de um talvez, consequências da ocasião.

Transforma-se, assim, uma estratégia alienante, numa possibilidade de um trabalho, num ir mais além, mesmo que não se saiba aonde.

by: Jorge Forbes

Palestra apresentada ao ‘Simpósio sobre Ansiedade e Benzodiazepínicos’, promovido pelo Departamento de Neuropsiquiatria da Faculdade de Medicina da universidade de São Paulo, em 12 de abril de 1985.