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Mostrando postagens de dezembro, 2019

CONTARDO CALLIGARIS

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A língua que habito. O psicanalista e escritor italiano Contardo Calligaris fala (ao Jornal Rascunho) sobre sua relação com a escrita e a literatura — e como essas atividades o ajudam a explorar a complexidade humana. Manter as complicações sem que isso seja um obstáculo para a clareza. Essa é uma maneira de dar forma às impressões de leitura de Cartas a um jovem terapeuta — livro de 2004 que teve uma versão ampliada lançada neste ano pela Planeta — e da conversa de aproximadamente uma hora e meia no consultório, em São Paulo, do psicanalista e escritor Contardo Calligaris, numa tarde fria de agosto. ...  . Por que ampliar Cartas a um jovem terapeuta? Parecia que eu devia alguma coisa de novo. Até porque essa correspondência que, em tese as cartas relatam, é fictícia. Mas fictícia até a página dois, porque, na verdade, as perguntas que eu finjo que me sejam colocadas por cartas, por alguns interlocutores, são perguntas que recebi mil vezes. Então, de fato, t...

OUTRO(S) NUM CASAMENTO

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Uma conversa com Marcos José Müller, autor do recém lançado Outro(s) num Casamento. MARIA: Gostaria em primeiro lugar que você falasse sobre a diferença deste livro em relação aos seus outros livros, já publicados. Parece-me que “Outro(s) num casamento” traz a marca de uma nova linguagem. MARCOS: Obrigado pela oportunidade de mostrar aos leitores do blog minha mais recente produção. Ela marca, sim, uma  diferença em relação aos meus trabalhos anteriores, os quais são fortemente marcados pela escrita acadêmica, voltados ao público especializado em filosofia fenomenológica, psicanálise e psicologia clínica. Dessa vez, não obstante eu continuar a me servir dos resultados  e fontes de minhas pesquisas acadêmicas, o texto foi escrito em um formato ensaístico,  com forte apelo literário, em que encarrego 11 personagens de transmitirem, em função dos contextos narrativos em que se encontram, as diferentes maneiras pelas quais se pode pensar a experiência com...

A INGÊNUA LIBERTINA

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Como acompanhar a narrativa da jovem Minne sem lembrar de outras personagens que retrataram a figura da mulher burguesa bem casada, mas insatisfeita e descontente com o papel de esposa? Como não lembrar, por exemplo, das duas mais famosas personagens do século XIX: Madame Bovary, Anna Karenina?  Contudo, apesar das semelhanças entre essas três personagens, uma dessemelhança fundamental se apresenta entre elas: Minne não é levada a um final trágico, como os de Emma e Anna. Certamente não podemos deixar de nos interrogar sobre, ao menos, dois fatores que poderiam esclarecer essa significativa diferença.  Em primeiro lugar, a mudanças de valores morais do século XIX para o século XX. Lembremos que o século XIX foi marcado pela inflexível moral vitoriana que, conforme Freud, produziu uma rígida repressão sexual na sociedade civilizada. Em segundo lugar, arriscamos sugerir a questão de gênero na narrativa ficcional: Emma e Anna foram construídas por mãos masculinas, ...