quarta-feira, maio 16, 2007

Complexo de Édipo

QUARTA AULA
09/05/2007

Primeiro momento
: auto-erotismo – corpo despedaçado.
Segundo momento: eu Ideal.
Campo do Imaginário - Estádio do espelho – imagem especular.
(O eu está ligado à imagem do corpo próprio. A criança vê sua imagem total refletida pelo espelho, mas existe uma discordância entre essa visão global da forma de seu corpo, que precipita a formação do eu, e o estado de dependência e de impotência motora em que ela se encontra na realidade. Lacan enfatiza, nesse ponto, a prematuridade, a condição de impotência da criança, que seria a razão de tal alienação imaginária no espelho. Ele mostra como a criança antecipa, através dessa experiência, o domínio de seu corpo: enquanto, antes, vivenciava-se como um corpo despedaçado, agora ela se acha cativada, fascinada por essa imagem do espelho, e se rejubila. Mas trata-se de uma imagem ideal dela mesma, à qual ela jamais conseguirá unir-se. A criança se identifica com essa imagem e fixa-se então numa “estrutura”. Toma-se pela imagem e conclui; “a imagem sou eu”, embora essa imagem se situe do lado de fora, externa a ela. Aí está o que Lacan chama de identificação primordial com uma imagem ideal de si mesmo.) in: Os 7 conceitos cruciais da psicanálise, Juan David Nasio.
No Seminário XI Lacan volta à dialética do estádio do espelho e assinala que a visão da imagem no outro não basta, por si só, para constituir a imagem do corpo próprio. O importante, para que a imagem se mantenha, é a existência de um furo nessa imagem: posso ver minha imagem no espelho, mas o que não posso ver é meu próprio olhar.
Neste momento o infans procura o olhar da “mãe”: o olho que se olha no olho que o olha. Neste espaço virtual se constitui um intercâmbio libidinal, que, no fundo, nada mais é que um intercâmbio de fascinação recíproca.
Tal relação dual torna-se efetivamente impossível de viver, não havendo saída satisfatória nessa relação entre um eu e um eu ideal, pois não há subjetivação: o sujeito não se reconhece ali, porque está apenas capturado ali. De fato, é o ideal do eu – simbólico – que pode regular as relações entre um eu e um eu ideal.
Terceiro Momento: Ideal do eu
Campo Simbólico.
O ideal do eu corresponde a um conjunto de traços simbólicos implicados pela linguagem, pela sociedade e pelas leis. Esses traços são introjetados e fazem a mediação na relação dual imaginária. O sujeito encontra um lugar para si num ponto – o ideal do eu – de onde se vê como possível de ser amado, na medida em que satisfaça a certas exigências. O simbólico passa a prevalecer sobre o imaginário, o ideal do eu sobre o eu. Assim, o simbólico superpõe-se ao imaginário e o organiza. O ideal do eu representa uma introjeção simbólica (em oposição ao eu ideal, assimilado a uma projeção imaginária) que se constrói com o significante do pai como terceiro na ralação dual com a mãe.
Em 1955, no Seminário 2 sobre o eu, Lacan retorna à questão do narcisismo: para que se estabeleça uma relação com o objeto do desejo, é preciso que haja uma relação narcísica do eu com o outro. O narcisismo representa a condição necessária para que os desejos dos outros se inscrevam, ou para que os significantes se inscrevam. Uma definição possível do significante, entre outras, seria esta: um elemento de uma cadeia da linguagem onde o desejo do outro se inscreve. E a imagem do corpo fornece o quadro das inscrições significantes do desejo do outro. A imagem do corpo representa o primeiro ponto de engate dos significantes e, inicialmente, dos significantes da mãe. O modo como eles se inscrevem, sobretudo a sucessão das identificações, determina as modalidades segundo as quais se farão as flutuações libidinais.
De fato, a imagem do outro aparece então como fragmentada: são séries de imagens, um conjunto de traços que o sujeito investe.
Existe para cada sujeito uma séria de significantes privilegiados, uma série de elementos em que o desejo do outro se inscreve, e esses significantes se revelam para ele na relação imaginária com o semelhante. Ganham efeito, adquirem consistência na relação narcísica com o outro. Ilustremos essas proposições com o auxílio de uma seqüência clínica, comentada por Lacan no Seminário XVI – De um outro ao Outro.
Trata-se da história de uma fobia infantil narrada por um homem de vinte anos. Quando contava sete anos de idade, ele estava brincando com o seu irmão mais velho no quintal da granja onde fora criado. Estava agachado quando, bruscamente, o irmão pulou em cima dele, por trás, imobilizou-o nessa posição e disse: “Eu sou o galo e você é a galinha!” O menino recusou-se a ser a galinha e caiu em prantos, no auge da raiva. A partir desse momento, ficou com uma fobia às galinhas. Esse episódio com o irmão agiu como um revelador: fez saber ao sujeito o que ele era antes, sem que se apercebesse, em sua relação com a mãe. De fato, fazia muito tempo que o menino cuidava do galinheiro com a mãe, e os dois iam juntos ver se as galinhas estavam pondo ovos corretamente. O menino gostava da maneira como a mãe o tocava e lhe perguntava, à guisa de brincadeira, antes de lhe dar banho, se devia tocá-lo com o dedo para ver se ele ia pôr um ovo. Ele estava no lugar da galinha para a mãe, estava na situação de suprir a falta da mãe, encarnando a “galinha” dela e podendo fornecer-lhe ovos fecais. Assim, estava dedicado ao gozo da mãe, sem ver surgir a questão de seu desejo e de sua falta.
Essa seqüência mostra que foi realmente na relação narcísica com o semelhante, através da imagem remetida pelo semelhante, que o significante “galinha” revelou-se ao sujeito. Foi na relação imaginária com o outro que lhe foi revelado o que ele era, havia muito tempo, sem o saber.