sábado, maio 05, 2007

O estádio do espelho

TERCEIRA AULA
02/05/2007

O estádio do espelho
O estádio do espelho é, para a teoria lacaniana, o momento inaugural de constituição do eu. Por volta dos dezoitos meses o infans, aquele que ainda não fala, configura uma totalidade corporal por meio da percepção da própria imagem no espelho. Esta percepção precisa ser acompanhada do assentimento do outro que a reconhece como verdadeira.
Assim, o eu é descrito por Lacan como essencialmente imaginário, embora sua constituição não prescinda do reconhecimento simbólico do Outro (no caso, encarnado pela mãe). A vivência de unidade que o bebê tem nesse momento, com a obtenção de um contorno nítido e definido, estabelece a passagem da sensação de um corpo fragmentado, no qual há uma indiferenciação entre seu corpo e o de sua mãe, para a do corpo próprio.
Em uma dimensão contraria as pulsões, o eu é, desde sempre, a sede das resistências ao pulsional e ao desejo. A ilusão de totalidade que ele configura estará a partir daí em constante confronto com a parcialidade das pulsões.
Considerando o eu como sede do desconhecimento crônico do desejo do sujeito, Lacan empenhou-se em estabelecer a distinção entre o eu e o sujeito. Se o eu é da ordem do imaginário e do sentido, o sujeito é efeito dos significantes: registro simbólico. Isso equivale a dizer que a unidade obtida no eu não é jamais alcançada no nível do sujeito, pois este é sempre dividido, impossível de se identificar de modo absoluto.
É preciso salientar que o imaginário lacaniano não é da ordem da mera imaginação. Esse registro deve ser entendido como o da relação especular, dual, com seus logros e identificações, mas, sobretudo, segundo os desenvolvimentos finais de Lacan, com o advento do sentido. Já o simbólico é da ordem do duplo sentido, e o real, que não se confunde com a realidade, é o não-senso radical, ou como diz Lacan, o “sentido em branco”.

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