quinta-feira, junho 07, 2007

sétima aula

Adorável ...Foram precisos muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas procuras), para que eu encontre a Imagem que, entre mil, convém ao meu desejo. Eis um grande enigma do qual nunca terei a solução: por que desejo Esse? Por que o desejo por tanto tempo, languidamente? É ele inteiro que desejo (uma silhueta, uma forma, uma aparência)? Ou é apenas uma parte desse corpo? E nesse caso, o que, nesse corpo amado, tem tendência de fetiche em mim? Que porção, talvez incrivelmente pequena, que acidente? O corte de uma unha, um dente um pouquinho quebrado obliquamente, uma mecha, uma maneira de fumar afastando os dedos para falar? De todos esses relevos do corpo tenho vontade de dizer que são adoráveis. Adorável que dizer: este é meu desejo, tanto que único: “É isso! É exatamente isso (que amo)! No entanto, quanto mais experimento a especialidade do meu desejo, menos posso nomeá-la; à precisão do alvo corresponde um estremecimento do nome; o próprio do desejo não pode produzir senão um impróprio do enunciado: Deste fracasso da linguagem, só resta um vestígio: a palavra ‘adorável’ (a boa tradução de ‘adorável’ seria o ipse latino: é ele, ele mesmo em pessoa).”
Alteração ... O discurso amoroso, ordinariamente, é um invólucro liso que adere à Imagem, uma luva suave envolvendo o ser amado. É um discurso devoto, bem-pensante. Quando a imagem se altera, o invólucro da devoção se rasga; um tremor revira minha própria linguagem. Ferido por uma frase que ele surpreende, Werther vê de repente Charlotte como uma fofoqueira, ele a inclui no grupo das amiguinhas com quem ela bate-papo (ela não é mais o outro, mas um outro entre outros), e diz então desdenhosamente “minhas mulherezinhas”. Uma blasfêmia vem bruscamente aos lábios do sujeito e quebra desrespeitosamente a bênção do anamoramento; ele é possuído por um demônio que fala por sua boca, de onde saem, como nos contos de fadas, não flores, mas rãs. Horrível refluxo da Imagem.
(O horror de estragar é ainda mais forte que a angústia de perder.)

Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoros
.
Eu - Libido - falo
Freud apresenta o eu como o lugar próprio, primeiro, de investimento da libido. Para Freud o interesse erótico pelo corpo próprio se transforma no interesse erótico pelo eu.
Em Lacan há uma diferença essencial entre o sujeito e o eu. E essa diferença comporta uma lógica cujas conseqüências são perceptíveis no conjunto do ensino de Lacan. O sujeito da fala é, essencialmente, um sujeito vazio de libido.
Entre essas duas instâncias, entre essas duas versões da instância do si, do que se refere ao si-mesmo, a diferença é que uma, o eu, inclui o gozo, ao passo que a outra, o sujeito, o exclui.
Imagem fálica
Sujeito: $
eu
libido / falo

Assim, Lacan vai relacionar o sujeito do significante com um outro termo, susceptível de suportar a libido do eu. O termo essencial que vem, então, para inscrever essa libido, é o termo “falo”, que escreve com a letra phi. Para dar conta das propriedades do eu freudiano, é preciso acoplar, ao sujeito barrado, esse termo fálico como representante da libido.
Ou seja, a conseqüência da introdução do simbólico é a promoção do falo que vem representar o valor da libido.
Em seu texto "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose" - 1955/56, Lacan introduz o falo no simbólico não como significante, mas como significação produzida pela metáfora paterna. Quando a metáfora paterna falha e a significação do falo como castração não emerge, é que encontramos evocada a presença de um gozo, em estado livre, não falicizado, que Lacan traduziu como gozo imaginário. A psicose ilustra o que se produz quando a significação do falo não chega a capturar a libido. E Lacan diz “gozo narcísico da imagem”, trazendo, como prova o interesse de Schreber pela própria imagem no espelho, vestido de mulher.

Em “A significação do falo” – 1958, Lacan enuncia o primado do falo em dois tempos:
1º. O primado do falo é a modificação lacaniana do narcisismo. Assim como Freud mostra que a libido, presente nas pulsões, está, todavia centrada no eu, e que é da libido do eu que procede a libido do objeto, Lacan mostra que o falo concentra a libido. O falo em Lacan é um analogon do eu em Freud.
2º. A vantagem dessa operação de deslocamento do eu para o falo é que o falo é um significante e, ao tratar do falo pela sua promoção a um significante maior, Lacan mostra que a libido pode ser abordada a partir do significante.
Com essa concepção Lacan dá conta do privilégio do significante do falo como uma espécie de significante dos significantes. Tudo o que é objeto ou necessidade é substituído pelo significante, devido à demanda: quando há necessidade, demanda-se.

Significante falo
Necessidade

O falo equivale à barra significante que anula o concreto, o objeto, e, em particular, o objeto da necessidade, para convertê-lo em significante.
No texto “A significação do falo”, o próprio falo é marcado pela barra. Ele é equivalente a essa barra, o significante da barra e, como significante, ele próprio a carrega. Surge assim, a sigla menos phi.
Neste sentido, o falo tem uma significação de gozo castrado. Lacan pôde, então, evocar o recalque do falo: longe de se confessar claramente no discurso, esse gozo é para ser encontrado sob a barra, no recalque.
Dessa forma, em “A significação do falo”, Lacan dá conta do que é o investimento de objeto na vida libidinal. No fundo, trata-se de dar conta de como o objeto é investido na vida amorosa. Para Freud, há um investimento de libido, com o eu se empobrecendo em benefício do objeto, o que justifica o termo “transfusão” usado por Lacan. Pode-se dizer que, em Lacan, isso é transposto para outros termos: o que era denominado como investimento de objeto, ele considera como o objeto assumindo a significação do falo.
Isso traduz o deslocamento do narcisismo para o falicismo, ou seja, as considerações de Freud concernentes à libido são traduzidas, por Lacan, em termos de significação do falo. Nesses termos, essa significação é dupla: há uma significação em termos de phi positivo , e uma outra em termos de menos phi.
O menos phi de Lacan, escritura de um gozo castrado, apenas faz repercutir o vazio do sujeito do significante. Lacan, substituindo o eu pelo sujeito, encontra o sujeito em déficit de gozo. Produz, então, o conceito de falo.
Todavia, esse conceito de falo, a partir do momento em que se torna um significante, também é tomado pela negatividade. Por fim, o menos phi impõe-se como falo significante.
Portanto, é necessário a Lacan reinventar um termo positivo. De início, ele é logicamente levado a reinventar o phi maiúsculo, em oposição ao menos phi, como sendo o significante do gozo impossível de negativizar.
Depois, em face das contradições que esse significante impossível de negativizar apresenta, no lugar do phi Lacan inscreverá o a, afirmando não se tratar de um significante, mas sim do positivo do gozo. É o que resta de positivo do gozo, visto que o gozo foi castrado como gozo fálico.