quinta-feira, junho 28, 2007

Convite

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
CENTRO DE COMUNICAÇÃO E EXPRESSÃO

CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LITERATURA

Doutoranda
Mara Lúcia Masutti
Tese
“Tradução Cultural: Desconstruções Logofonocêntricas em Zonas de Contato entre Surdos e Ouvintes”
Local: Auditório Henrique da Silva Fontes Prédio B CCE

Horário: 14 horas

Data: 29/06/2007

Banca Examinadora
Dra. Claudia de Lima Costa(UFSC Orientadora e presidente),

Dra. Lodenir Karnopp (UFRGS)
Dra. Lais de Toledo Krücken Pereira (UNISUL)
Dra. Maria Aparecida Leite (Núcleo de Investigação Metafísica UFSC)
Dr. Rafael Camorlinga Alcaraz (UFSC)
Dra. Ronice Müller de Quadros (UFSC)
Dra. Tânia Regina Oliveira Ramos (UFSC suplente)

segunda-feira, junho 25, 2007

Livro







Para os versados e/ou apaixonados por Maurice Blanchot, acaba de sair o segundo volume de Conversa Infinita – A experiência limite. Nesse volume Blanchot aponta sua “clara mirada” para os textos de: Heráclito, Pascal, Simone Weil, Nietzsche, Albert Camus, Georges Bataille e Freud.
Recomendo, claro, o belíssimo texto sobre “A Fala Analítica”.

quarta-feira, junho 20, 2007

Oitava Aula: Sujeito

· O sujeito na teoria psicanalítica não o indivíduo nem o eu.
· Freud, ao criar o conceito de inconsciente, subverte a noção do sujeito cartesiano enquanto sujeito da razão.
· Em Freud, pensar não equivale a ser, pois sou também onde não penso, e o fato de pensar não me assegura que eu seja. “O sujeito não é um dado, mas uma descontinuidade nos dados”.
· O sujeito freudiano não só não é idêntico a si, como se torna sempre outro, na medida em que, para Freud, a representação não é mais o espelho do mundo e o lugar da verdade.
  • Diferentemente de Descartes, a representação em psicanálise não pode ser definida como imagem especular do mundo, como instrumento de acesso à verdade das coisas, na medida em que a dimensão de uma ordem natural não faz parte do campo psicanalítico. Em Freud, a representação deve ser entendida como uma construção que dá ao mundo e ao próprio sujeito um sentido, colorindo-os com significações diversas sem que nenhuma possa ser apontada como verdadeira.
· Na intenção de sublinhar que o ser do sujeito não é constituído como uma identidade de consistência significante, Lacan caracteriza o discurso sobre o sujeito com o termo “pré-ontológico”. Vai buscar na teoria da linguagem de Saussure uma nova perspectiva para pensar a noção de inconsciente. Para Saussure nós não somos em nenhum sentido, os autores das afirmações que fazemos ou dos significados que expressamos na língua. Nós podemos utilizar a língua para produzir significados apenas nos posicionando no interior das regras da língua e dos sistemas de significado de nossa cultura. A língua é um sistema social e não um sistema individual. Ela preexiste a nós. Falar uma língua não significa apenas expressar nossos pensamentos mais interiores e originais; significa também ativar a imensa gama de significados que já estão embutidos em nossa língua e em nossos sistemas culturais.
  • Tudo o que dizemos tem um antes e um depois, uma margem na qual outras pessoas podem escrever. O significado é inerentemente instável: ele procura o fechamento (a identidade), mas é constantemente perturbado pela diferença. Existem sempre significados suplementares sobre os quais não temos qualquer controle, que surgirão e subverterão nossas tentativas para criar mundos fixos e estáveis.
  • Partindo das noções da lingüística Lacan vai apontar para a lógica que separa o sujeito do enunciado e o sujeito da enunciação. O “eu” num enunciado qualquer, apenas representa o sujeito que o enuncia, mas esta representação não reflete aquele que fala, antes é sua produção. Entre o eu do enunciado e o sujeito da enunciação a distância é grande e até, mesmo, intransponível, pois nenhum enunciado pode esgotar o ato da enunciação.
  • Desse modo, S1 – S2 é a escritura elementar da cadeia significante, o mínimo admissível. Mas estes dois significantes não são equivalentes, não são idênticos e nem podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo.
  • Mesmo representado por um significante, o sujeito não se confunde com ele: o sujeito não é o significante que o representa, pois este significante apenas reenvia a outros significantes. Ou seja, dizer que o sujeito é efeito do significante não implica que este significante revele algo sobre o que o sujeito é; ele apenas o representa na cadeia. Desse modo, o sujeito é dividido, pois onde é representado, ele não é, e onde é não é representado.
  • O sujeito aparece na cadeia significante quando nela se produzem dissimetrias, descontinuidades. O tropeço, a fenda, a descontinuidade. Foi com eles que Freud se deparou no discurso de seus analisantes: através dos sonhos, dos atos falhos, dos chistes e dos sintomas.
  • A entrada da criança na ordem simbólica produz o sujeito, mas, ao mesmo tempo, opera uma propriedade fundamental da subjetividade que é a alienação do sujeito na e pela linguagem. Por isso, ao definir a operação de alienação Lacan aponta para a necessidade dos conceitos do sujeito e do Outro. Define, então, o Outro como “o lugar em que se situa a cadeia significante que comanda tudo o que vai poder presentificar-se do sujeito”.
  • Assim, liga o Outro e o sujeito de um modo que “constitui, claramente, uma alienação: o sujeito como tal só pode ser conhecido no lugar ou locus do Outro. Não há meio de se definir um sujeito como consciência de si”.
  • Isso significa que é no campo do Outro que o sujeito se constitui, efeito da ação da linguagem sobre o infante. O sujeito nasce, portanto, numa relação de dependência significante com o lugar do Outro. Sempre que um significante representa um sujeito para outro significante, a alienação se produz.
  • Constrói-se nessa operação a primeira falta constituinte do sujeito. Ela se relaciona com o fato de que o sujeito não pode ser inteiramente representado no Outro; sempre há um resto. “A relação do sujeito com o seu próprio discurso sustenta-se, portanto, em um efeito singular: o sujeito só está ali presentificado ao preço de mostrar-se ausente em seu ser”. A divisão do sujeito operada pela ordem significante instaura a alienação do sujeito na e pela linguagem. É nesta relação que o sujeito experimenta o seu caráter radicalmente “inessencial”.
  • O sujeito petrificado pelo significante – e não presentificado – é um sujeito que não faz qualquer pergunta. É o sujeito do cogito, o sujeito da certeza, na medida em que o sujeito do pensamento significa autoconsciência e mestria.
  • No entanto, segundo Lacan, é necessária uma segunda operação, a separação, para que se consuma a causação do sujeito. A separação responde à inscrição do desejo do Outro na falta que há no intervalo significante. Portanto, uma falta que está tanto dentro do campo do sujeito quanto dentro do campo do Outro. O sujeito irá operar com sua própria falta, resultante da primeira operação – a alienação -, para responder à falta no Outro. É nessa operação que Lacan introduzirá o objeto pequeno a, através do qual o sujeito poderá fazer-se objeto do desejo do Outro.
  • Na interseção entre o sujeito e o Outro há uma falta, uma lacuna. Essa falta no Outro, Lacan denomina-a desejo. O desejo aparece na falta devido a uma impossibilidade: a impossibilidade de dizer o que se quer. A presença do desejo em si é a presença de algo que falta na fala: o inapreensível, o invisível, o impossível de se escrever.

quinta-feira, junho 07, 2007

sétima aula

Adorável ...Foram precisos muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas procuras), para que eu encontre a Imagem que, entre mil, convém ao meu desejo. Eis um grande enigma do qual nunca terei a solução: por que desejo Esse? Por que o desejo por tanto tempo, languidamente? É ele inteiro que desejo (uma silhueta, uma forma, uma aparência)? Ou é apenas uma parte desse corpo? E nesse caso, o que, nesse corpo amado, tem tendência de fetiche em mim? Que porção, talvez incrivelmente pequena, que acidente? O corte de uma unha, um dente um pouquinho quebrado obliquamente, uma mecha, uma maneira de fumar afastando os dedos para falar? De todos esses relevos do corpo tenho vontade de dizer que são adoráveis. Adorável que dizer: este é meu desejo, tanto que único: “É isso! É exatamente isso (que amo)! No entanto, quanto mais experimento a especialidade do meu desejo, menos posso nomeá-la; à precisão do alvo corresponde um estremecimento do nome; o próprio do desejo não pode produzir senão um impróprio do enunciado: Deste fracasso da linguagem, só resta um vestígio: a palavra ‘adorável’ (a boa tradução de ‘adorável’ seria o ipse latino: é ele, ele mesmo em pessoa).”
Alteração ... O discurso amoroso, ordinariamente, é um invólucro liso que adere à Imagem, uma luva suave envolvendo o ser amado. É um discurso devoto, bem-pensante. Quando a imagem se altera, o invólucro da devoção se rasga; um tremor revira minha própria linguagem. Ferido por uma frase que ele surpreende, Werther vê de repente Charlotte como uma fofoqueira, ele a inclui no grupo das amiguinhas com quem ela bate-papo (ela não é mais o outro, mas um outro entre outros), e diz então desdenhosamente “minhas mulherezinhas”. Uma blasfêmia vem bruscamente aos lábios do sujeito e quebra desrespeitosamente a bênção do anamoramento; ele é possuído por um demônio que fala por sua boca, de onde saem, como nos contos de fadas, não flores, mas rãs. Horrível refluxo da Imagem.
(O horror de estragar é ainda mais forte que a angústia de perder.)

Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoros
.
Eu - Libido - falo
Freud apresenta o eu como o lugar próprio, primeiro, de investimento da libido. Para Freud o interesse erótico pelo corpo próprio se transforma no interesse erótico pelo eu.
Em Lacan há uma diferença essencial entre o sujeito e o eu. E essa diferença comporta uma lógica cujas conseqüências são perceptíveis no conjunto do ensino de Lacan. O sujeito da fala é, essencialmente, um sujeito vazio de libido.
Entre essas duas instâncias, entre essas duas versões da instância do si, do que se refere ao si-mesmo, a diferença é que uma, o eu, inclui o gozo, ao passo que a outra, o sujeito, o exclui.
Imagem fálica
Sujeito: $
eu
libido / falo

Assim, Lacan vai relacionar o sujeito do significante com um outro termo, susceptível de suportar a libido do eu. O termo essencial que vem, então, para inscrever essa libido, é o termo “falo”, que escreve com a letra phi. Para dar conta das propriedades do eu freudiano, é preciso acoplar, ao sujeito barrado, esse termo fálico como representante da libido.
Ou seja, a conseqüência da introdução do simbólico é a promoção do falo que vem representar o valor da libido.
Em seu texto "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose" - 1955/56, Lacan introduz o falo no simbólico não como significante, mas como significação produzida pela metáfora paterna. Quando a metáfora paterna falha e a significação do falo como castração não emerge, é que encontramos evocada a presença de um gozo, em estado livre, não falicizado, que Lacan traduziu como gozo imaginário. A psicose ilustra o que se produz quando a significação do falo não chega a capturar a libido. E Lacan diz “gozo narcísico da imagem”, trazendo, como prova o interesse de Schreber pela própria imagem no espelho, vestido de mulher.

Em “A significação do falo” – 1958, Lacan enuncia o primado do falo em dois tempos:
1º. O primado do falo é a modificação lacaniana do narcisismo. Assim como Freud mostra que a libido, presente nas pulsões, está, todavia centrada no eu, e que é da libido do eu que procede a libido do objeto, Lacan mostra que o falo concentra a libido. O falo em Lacan é um analogon do eu em Freud.
2º. A vantagem dessa operação de deslocamento do eu para o falo é que o falo é um significante e, ao tratar do falo pela sua promoção a um significante maior, Lacan mostra que a libido pode ser abordada a partir do significante.
Com essa concepção Lacan dá conta do privilégio do significante do falo como uma espécie de significante dos significantes. Tudo o que é objeto ou necessidade é substituído pelo significante, devido à demanda: quando há necessidade, demanda-se.

Significante falo
Necessidade

O falo equivale à barra significante que anula o concreto, o objeto, e, em particular, o objeto da necessidade, para convertê-lo em significante.
No texto “A significação do falo”, o próprio falo é marcado pela barra. Ele é equivalente a essa barra, o significante da barra e, como significante, ele próprio a carrega. Surge assim, a sigla menos phi.
Neste sentido, o falo tem uma significação de gozo castrado. Lacan pôde, então, evocar o recalque do falo: longe de se confessar claramente no discurso, esse gozo é para ser encontrado sob a barra, no recalque.
Dessa forma, em “A significação do falo”, Lacan dá conta do que é o investimento de objeto na vida libidinal. No fundo, trata-se de dar conta de como o objeto é investido na vida amorosa. Para Freud, há um investimento de libido, com o eu se empobrecendo em benefício do objeto, o que justifica o termo “transfusão” usado por Lacan. Pode-se dizer que, em Lacan, isso é transposto para outros termos: o que era denominado como investimento de objeto, ele considera como o objeto assumindo a significação do falo.
Isso traduz o deslocamento do narcisismo para o falicismo, ou seja, as considerações de Freud concernentes à libido são traduzidas, por Lacan, em termos de significação do falo. Nesses termos, essa significação é dupla: há uma significação em termos de phi positivo , e uma outra em termos de menos phi.
O menos phi de Lacan, escritura de um gozo castrado, apenas faz repercutir o vazio do sujeito do significante. Lacan, substituindo o eu pelo sujeito, encontra o sujeito em déficit de gozo. Produz, então, o conceito de falo.
Todavia, esse conceito de falo, a partir do momento em que se torna um significante, também é tomado pela negatividade. Por fim, o menos phi impõe-se como falo significante.
Portanto, é necessário a Lacan reinventar um termo positivo. De início, ele é logicamente levado a reinventar o phi maiúsculo, em oposição ao menos phi, como sendo o significante do gozo impossível de negativizar.
Depois, em face das contradições que esse significante impossível de negativizar apresenta, no lugar do phi Lacan inscreverá o a, afirmando não se tratar de um significante, mas sim do positivo do gozo. É o que resta de positivo do gozo, visto que o gozo foi castrado como gozo fálico.



sábado, junho 02, 2007

5a. e 6a. aulas

Auto erotismo: O prazer torna-se independente da necessidade (por exemplo a função de nutrição), e exerce-se de forma auto-erótica; o objeto passa a ser uma parte do próprio corpo.
Narcisismo Primário:
Imaginário – fascinação frente à imagem especular - eu Ideal.
Narcisismo Secundário:
Simbólico – os significantes constroem o Ideal do eu e organizam o imaginário.

Em seu texto - Sobre o Narcisismo: Uma introdução (1914) – Freud distingue dois tipos de escolha de objeto: o tipo anaclítico (anáclise = apoio) e o tipo narcísico.
Segundo Freud, ama-se:
1)
Segundo o tipo narcísico
· O que se é (a si mesmo)
· O que se foi
· O que se quereria ser
· Alguém que foi parte do seu próprio eu.
(necessidade de amar)
2) Segundo o tipo anaclítico
· A mulher que alimenta
· O homem que protege
(necessidade de ser amado)
O nome-do-pai:
A posição do pai como simbólico não depende do fato de as pessoas haverem mais ou menos reconhecido a necessidade de uma certa seqüência de acontecimentos tão diferentes quanto um coito e um parto. A posição do Nome-do-Pai como tal, a qualidade do pai como procriador, é uma questão que se situa no nível simbólico. Pode materializar-se sob as diversas formas culturais, mas não depende como tal da forma cultural, é uma necessidade da cadeia significante. Pelo simples fato de vocês instituírem uma ordem simbólica, alguma coisa correspondente ou não à função definida pelo Nome-do-Pai, e no interior dessa função vocês colocam significações que podem ser diferentes conforme os casos, mas que de modo algum dependem de outra necessidade que não a necessidade da função paterna, à qual corresponde o Nome-do-Pai na cadeia significante.
....Ora, trata-se menos das relações pessoais entre o pai e a mãe, ou de saber se ambos estão ou não à altura, do que de um momento que tem que ser vivido como tal, e que concerne às relações não apenas da pessoa da mãe com a pessoa do pai, mas da mãe com a palavra do pai – com o pai na medida em que o que ele diz não é, de modo algum, igual a zero.
O que importa é a função na qual intervêm, primeiro, o Nome-do-Pai, o único significante do pai, segundo, a fala articulada do pai, e terceiro, a lei, considerando que o pai está numa relação mais ou menos íntima com ela. O essencial é que a mãe funde o pai como mediador daquilo que está para além da lei dela e de seu capricho, ou seja, pura e simplesmente, a lei como tal. Trata-se do pai, portanto, como Nome-do-Pai, estreitamente ligado à enunciação da lei, como todo o desenvolvimento da doutrina freudiana no-lo anuncia e promove. E é nisso que ele é ou não aceito pela criança como aquele que priva ou não priva a mãe do objeto de seu desejo.
Jacques Lacan – Seminário V
Complexo de Édipo
Três tempos de Édipo
1º. Tempo: O que a criança busca, como desejo de desejo, é poder satisfazer o desejo da mãe, isto é, ser o não ser o objeto de desejo da mãe... O sujeito se identifica especularmente com aquilo que é objeto do desejo de sua mãe. Essa é a etapa fálica primitiva, aquela em que a metáfora paterna age por si, uma vez que a primazia do falo já está instaurada no mundo pela existência do simbólico do discurso e da lei. Para agradar a mãe, ....é necessário e suficiente ser o falo. Nessa etapa, muitas coisas se detêm e se fixam num certo sentido. ...dentre elas as identificações que qualificamos de perversas.
Segundo tempo: Eu lhes disse que, no plano imaginário, o pai intervém efetivamente como privador da mãe, o que significa que a demanda endereçada ao Outro, caso transmitida como convém, será encaminhada a um tribunal superior, se assim posso me expressar.
Com efeito, aquilo sobre o qual o sujeito interroga o Outro, na medida em que ele o percorre por inteiro, sempre encontra dentro dele, sob certos aspectos, o Outro do Outro, ou seja, sua própria lei. É nesse nível que se produz o que faz com que aquilo que retorna à criança seja, pura e simplesmente, a lei do pai, tal imaginariamente concebida pelo sujeito como privador da mãe. Este é o estádio, digamos, nodal e negativo, pelo qual aquilo que desvincula o sujeito de sua identificação liga-o, ao mesmo tempo, ao primeiro aparecimento da lei, sob a forma desse fato de que a mãe é dependente de um objeto, que já não é simplesmente o objeto de seu desejo, mas um objeto que o Outro tem ou não tem.
Terceiro Tempo:
A terceira etapa é tão importante quanto a segunda, pois é dela que depende a saída do complexo de Édipo. O falo, o pai atestou dá-lo em sua condição e apenas em sua condição de portador ou de suporte, diria eu, da lei. É dele que depende a posse ou não desse falo pelo sujeito materno. Na medida em que a etapa do segundo tempo é atravessada, é preciso então, no terceiro tempo, que aquilo que o pai prometeu seja mantido. Ele pode dar ou recusar, posto que o tem, mas o fato de que ele, o pai, tem o falo, disso ele tem que dar provas. É por intervir no terceiro tempo como aquele que tem o falo, e não que o é, que se pode produzir a báscula que reinstaura a instância do falo como objeto de desejado da mãe, e não mais apenas como objeto do qual o pai pode privar.
O pai onipotente é aquele que priva. Esse é o segundo tempo. Era nesse estágio que se detinham as análises do complexo de Édipo, na época em que se achava que todas as devastações do complexo decorriam da onipotência paterna. Pensava-se apenas nesse segundo tempo, só que não se frisava que a castração exercida aí era a privação da mãe, e não do filho.
O terceiro tempo é este: o pai pode dar à mãe o que ela deseja, e pode dar porque o possui. Aqui intervém, portanto, a existência da potência no sentido genital da palavra – digamos que o pai é um pai potente. Por causa disso, a relação da mãe com o pai torna a passar para o plano real.
O terceiro lugar, o pai se revela como aquele que tem. É a saída do complexo de Édipo. Essa saída é favorável na medida em que a identificação com o pai é feita nesse terceiro tempo, no qual ele intervém como aquele que tem o falo. Essa identificação chama-se Ideal do eu.
In: Jacques Lacan, Seminário livro 5, as formações do inconsciente.
Capítulo X “Os três tempos de Édipo”.

O inconsciente e o Tempo em Psicanálise

                                              O sujeito, o inconsciente e o tempo. Entrevista com COLETTE SOLER ,  realizada por...