segunda-feira, outubro 22, 2007

Sobre a construção do eu: as identificações, os ideais.


Sem dúvida amo a mim mesmo, e com todo o furor viscoso em que a bolha vital ferve sobre si mesma e se infla em uma palpitação ao mesmo tempo voraz e precária, não sem fomentar em seu seio o ponto vivo de onde sua unidade voltará a brotar, disseminada de sua própria explosão. Em outras palavras, sou ligado a meu corpo pela energia psíquica, o Eros que faz os corpos vivos se conjugarem para se reproduzir, que ele chama de libido.

Mas o que amo, na medida em que existe um eu a que me vinculo por uma concupiscência mental, não é esse corpo cujo batimento e pulsação escapam mais evidentemente ao meu controle, mas uma imagem que me engana ao me mostrar meu corpo em sua Gestalt, sua forma. Ele é belo, é grande, é forte, o é mais ainda por ser feio, pequeno e miserável. Só me amo na medida em que me desconheço essencialmente, amo apenas um outro, um outro com um pequeno a inicial, daí o costume de meus alunos de chamar de "o pequeno outro".

Nada de surpreendente no fato de ser nada mais que eu mesmo que amo em meu semelhante. Não apenas na devoção neurótica, se indico o que a experiência nos ensina, mas igualmente na forma extensiva e utilizada do altruísmo, seja ele educativo ou familiar, filantrópico, totalitário ou liberal, à qual freqüentemente almejaríamos ver corresponder algo como a vibração da garupa magnífica do animal desafortunado, o homem só faz passar seu amor-próprio. Provavelmente esse amor já foi há muito tempo detectado em suas extravagâncias, mesmo gloriosas, pela investigação moralista de suas pretensas virtudes. Mas a investigação analítica do eu permite identificá-lo com a forma do odre [outre], com o excesso [outrance] da sombra cuja vítima será o caçador, com a vaidade de uma forma visual. Eis a face ética do que articulei, para ser compreendido, sob a expressõ "estádio do espelho".

O eu é feito, Freud nos ensina, das identificações superpostas à maneira de casca, espécie de armário cujas peças trazem a marca do tudo-pronto, embora a combinação não raro seja bizarra. Nas identificações com suas formas imaginárias, o homem julga reconhecer o princípio de sua unidade sob a aparência de um domínio de si mesmo da qual ele é o tolo necessário, seja ou não ela ilusória, pois essa imagem de si mesmo não o contém em nada. Embora seja imóvel, apenas seu esgar, sua flexibilidade, sua desarticulação, seu desmembramento, sua dispersão aos quatro ventos esboçam indicar qual é seu lugar no mundo. Ser-lhe-á necessário ainda muito tempo para que abandone a idéia de que o mundo foi fabricado à sua imagem e para que reconheça que o que ele encontrava, dessa imagem, sob a forma dos significantes que sua indústria começara a espalhar pelo mundo, era, desse mundo, a essência...


Jacques Lacan
Discurso aos católicos

domingo, outubro 07, 2007

Questões sobre escrita


O estudante, segundo Nietzsche, está ligado a Universidade pela orelha. O lugar do estudante, dentro da instituição acadêmica, é o lugar do ouvinte. Um ouvinte passivo frente ao saber do Mestre. O estudante ouve, anota, repete na prova, cita em seus trabalhos o saber autorizado pelos seus mestres. Um saber que, de maneira geral, é conformista e homogêneo. Um saber que o psicanalista francês - Jacques Lacan - denominou de saber-semblante. Ou seja, um saber que alimenta o conformismo identificatório. Quanto mais cito Jacques Lacan, quanto maior é o meu repertório de palavras e conceitos lacaniano, maior será a minha aprovação como pesquisadora deste teórico. Este conformismo identificatório com o saber do Mestre, o discurso universitário chama de rigor teórico.

Dentro do discurso universitário, não há espaço para o não-saber. Portanto, não há espaço para a criação, só para a repetição que advém da memorização. O bom estudante repete, não inventa.

Não estou, aqui, contestando o rigor teórico enquanto preocupação em “fundamentar”, “justificar” e “contextualizar” as afirmações que constituem o núcleo de cada tese. O que me interessa colocar em questão é o ato da escrita, a forma do texto, o estilo. Ou seja, as características fundamentais de um texto que me parecem quase sempre suprimidas, em nome de uma suposta objetividade teórica.

Na minha experiência de escrita dentro da academia, a falta do espaço de criação foi uma das maiores dificuldades, pois compreendo que para escrever é preciso uma certa quantidade de criação, de invenção. Para isso, é preciso autorizar-se no lugar do não-saber. Só escrevemos, conforme Deleuze, na extremidade do nosso próprio saber, nesta ponta extrema que separa nosso saber e nossa ignorância e que transforma um no outro. Suprir a ignorância é transferir a escrita para depois, ou antes, torná-la impossível.

Escrevemos impelidos por um ato de certeza antecipada. A precipitação do saber, que torna a escrita possível, confunde a certeza do sujeito com o sujeito da certeza. É no só depois que o sujeito verifica a justeza de alguma coisa que é atingida como verdade antes mesmo de poder ser verificada.
Na sua forma de operar com o saber, o discurso universitário apaga o sujeito do desejo, só é possível, dentro desta instituição, o sujeito da certeza. Pela via da certeza, somos sempre monológicos e dogmáticos. Os discursos dogmáticos apóiam-se num significado último, daí as relações bem conhecidas entre o discurso dogmático e o discurso teológico. Pela via da certeza toda linguagem é imperialista. Todos os textos se constroem com o objetivo de dar um sentido final ao que se diz. Por essa via, o texto é sem espírito. Lembrando-nos do aforismo célebre do Evangelho: a letra mata o espírito vivifica.

Mas ainda assim, acredito na letra com espírito. Uma questão de fé talvez, mas como a fé remove montanha, eis me aqui confessando a minha fé. Na contramão da fé a argumentação “epistemológica”. Para tanto, partimos da teoria psicanalista. Para a psicanálise, a letra é uma grande encruzilhada de símbolos, ponto de partida e ponto de reunião de inumeráveis metáforas. O espírito de uma letra, de uma palavra é simplesmente o seu direito a começar a significar. Aí, a literalidade é a recusa de se comprometer num processo de novas significações.

Então, por essa via, talvez devêssemos começar a pensar a escrita já no ato da leitura. Porque ler não é consumir passivamente textos que nos caíam de algum modo prontinho sob os olhos. Se partirmos da noção de leitura de Roland Barthes, “ler é reencontrar – no nível do corpo, e não no da consciência – como aquilo foi escrito: é colocar-se na produção, muito mais do que no produto”. Iniciamos esse movimento retirando de nós mesmos toda espécie de censura e deixando ir o texto em todos os seus transbordamentos semânticos e simbólicos. “Nesse ponto, ler é verdadeiramente escrever: escrevo – ou reescrevo – o texto que leio, melhor e mais adiante do que o seu autor o fez.” (Barthes, O grão da voz, p.269)

Ou ainda, a noção de leitura na linguagem merleau-pontyana. Para Merleau-Ponty “ler é deixar-se transformar pelo texto e dotar-se por ele de novos órgãos. Não se fará idéia do poder da linguagem enquanto não se tiver reconhecido essa linguagem operante ou constituinte que aparece quando a linguagem constituída, subitamente descentrada e privada de seu equilíbrio, ordena-se de novo para ensinar ao leitor – e mesmo ao autor – o que ele não sabia pensar nem dizer”. (Merleau-Ponty, A Ciência e a experiência da expressão, p.16).

O que me convoca, nestas duas noções de leitura, é que há um movimento de coincidência, de sobreposição entre a leitura e a escrita; e esse movimento toca o corpo. O que nos permite pensar o ato de ler e o de escrever, tanto pela via do sensível quanto da razão, ou do conhecimento.

Mais ainda, se colocamos o corpo no ato de ler e escrever, então podemos implicar a leitura e a escrita com o prazer e até mesmo com o erotismo, no sentido de sensualidade. Mas, como ler com prazer, um texto sem prazer? Um texto sem erotismo, sem sedução? Parece-me que os textos acadêmicos, em sua maioria, são textos que não se preocupam em seduzir o leitor. São os textos sem espírito: textos insípidos, pesados, obsessivos, tediosos. Textos que tem a função de superego, cuja primeira tarefa denegadora é, evidentemente, recusar toda e qualquer metáfora. Aquele que pratica este texto assassina a si próprio, pois assassina o seu próprio desejo.

Maria Holthausen

Texto apresentado no "Seminário - Olhares Sobre a Pesquisa em Educação"
UFSC - 2005.

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