domingo, outubro 07, 2007

Questões sobre escrita


O estudante, segundo Nietzsche, está ligado a Universidade pela orelha. O lugar do estudante, dentro da instituição acadêmica, é o lugar do ouvinte. Um ouvinte passivo frente ao saber do Mestre. O estudante ouve, anota, repete na prova, cita em seus trabalhos o saber autorizado pelos seus mestres. Um saber que, de maneira geral, é conformista e homogêneo. Um saber que o psicanalista francês - Jacques Lacan - denominou de saber-semblante. Ou seja, um saber que alimenta o conformismo identificatório. Quanto mais cito Jacques Lacan, quanto maior é o meu repertório de palavras e conceitos lacaniano, maior será a minha aprovação como pesquisadora deste teórico. Este conformismo identificatório com o saber do Mestre, o discurso universitário chama de rigor teórico.

Dentro do discurso universitário, não há espaço para o não-saber. Portanto, não há espaço para a criação, só para a repetição que advém da memorização. O bom estudante repete, não inventa.

Não estou, aqui, contestando o rigor teórico enquanto preocupação em “fundamentar”, “justificar” e “contextualizar” as afirmações que constituem o núcleo de cada tese. O que me interessa colocar em questão é o ato da escrita, a forma do texto, o estilo. Ou seja, as características fundamentais de um texto que me parecem quase sempre suprimidas, em nome de uma suposta objetividade teórica.

Na minha experiência de escrita dentro da academia, a falta do espaço de criação foi uma das maiores dificuldades, pois compreendo que para escrever é preciso uma certa quantidade de criação, de invenção. Para isso, é preciso autorizar-se no lugar do não-saber. Só escrevemos, conforme Deleuze, na extremidade do nosso próprio saber, nesta ponta extrema que separa nosso saber e nossa ignorância e que transforma um no outro. Suprir a ignorância é transferir a escrita para depois, ou antes, torná-la impossível.

Escrevemos impelidos por um ato de certeza antecipada. A precipitação do saber, que torna a escrita possível, confunde a certeza do sujeito com o sujeito da certeza. É no só depois que o sujeito verifica a justeza de alguma coisa que é atingida como verdade antes mesmo de poder ser verificada.
Na sua forma de operar com o saber, o discurso universitário apaga o sujeito do desejo, só é possível, dentro desta instituição, o sujeito da certeza. Pela via da certeza, somos sempre monológicos e dogmáticos. Os discursos dogmáticos apóiam-se num significado último, daí as relações bem conhecidas entre o discurso dogmático e o discurso teológico. Pela via da certeza toda linguagem é imperialista. Todos os textos se constroem com o objetivo de dar um sentido final ao que se diz. Por essa via, o texto é sem espírito. Lembrando-nos do aforismo célebre do Evangelho: a letra mata o espírito vivifica.

Mas ainda assim, acredito na letra com espírito. Uma questão de fé talvez, mas como a fé remove montanha, eis me aqui confessando a minha fé. Na contramão da fé a argumentação “epistemológica”. Para tanto, partimos da teoria psicanalista. Para a psicanálise, a letra é uma grande encruzilhada de símbolos, ponto de partida e ponto de reunião de inumeráveis metáforas. O espírito de uma letra, de uma palavra é simplesmente o seu direito a começar a significar. Aí, a literalidade é a recusa de se comprometer num processo de novas significações.

Então, por essa via, talvez devêssemos começar a pensar a escrita já no ato da leitura. Porque ler não é consumir passivamente textos que nos caíam de algum modo prontinho sob os olhos. Se partirmos da noção de leitura de Roland Barthes, “ler é reencontrar – no nível do corpo, e não no da consciência – como aquilo foi escrito: é colocar-se na produção, muito mais do que no produto”. Iniciamos esse movimento retirando de nós mesmos toda espécie de censura e deixando ir o texto em todos os seus transbordamentos semânticos e simbólicos. “Nesse ponto, ler é verdadeiramente escrever: escrevo – ou reescrevo – o texto que leio, melhor e mais adiante do que o seu autor o fez.” (Barthes, O grão da voz, p.269)

Ou ainda, a noção de leitura na linguagem merleau-pontyana. Para Merleau-Ponty “ler é deixar-se transformar pelo texto e dotar-se por ele de novos órgãos. Não se fará idéia do poder da linguagem enquanto não se tiver reconhecido essa linguagem operante ou constituinte que aparece quando a linguagem constituída, subitamente descentrada e privada de seu equilíbrio, ordena-se de novo para ensinar ao leitor – e mesmo ao autor – o que ele não sabia pensar nem dizer”. (Merleau-Ponty, A Ciência e a experiência da expressão, p.16).

O que me convoca, nestas duas noções de leitura, é que há um movimento de coincidência, de sobreposição entre a leitura e a escrita; e esse movimento toca o corpo. O que nos permite pensar o ato de ler e o de escrever, tanto pela via do sensível quanto da razão, ou do conhecimento.

Mais ainda, se colocamos o corpo no ato de ler e escrever, então podemos implicar a leitura e a escrita com o prazer e até mesmo com o erotismo, no sentido de sensualidade. Mas, como ler com prazer, um texto sem prazer? Um texto sem erotismo, sem sedução? Parece-me que os textos acadêmicos, em sua maioria, são textos que não se preocupam em seduzir o leitor. São os textos sem espírito: textos insípidos, pesados, obsessivos, tediosos. Textos que tem a função de superego, cuja primeira tarefa denegadora é, evidentemente, recusar toda e qualquer metáfora. Aquele que pratica este texto assassina a si próprio, pois assassina o seu próprio desejo.

Maria Holthausen

Texto apresentado no "Seminário - Olhares Sobre a Pesquisa em Educação"
UFSC - 2005.

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