sexta-feira, julho 10, 2009

Inconsciente



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Algumas associações sobre o inconsciente, a partir das questões levantadas por Nasio.

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  • “o sonho é a epifania do outro”. Maria [23/06/09]

  • O sonho é a epifania do outro... 09 de julho e já não me lembro mais em que contexto foi me dado a frase. Leio-a aqui, como coisa do dia, e flutuam os vocábulos, cada um grávido de si, o sonho, a epifania, o outro.

  • O inconsciente, pois, redunda operativo, no tropeço, no impossível do inconsciente do outro. O que existe então é um inconsciente posto às claras no encontro. Onde a conversa, não é propriamente conversa, é uma fala que se dá às avessas.



  • Há tempos de uma captura colossal. Segundos, às vezes, e basta um segundo.
    Neste tempo não há cronologia, o deus se isenta, extinto da lógica, do logos numérico, retórico, discursivo.

  • Um entre-reinos, interregno, uma fenda, um furo, uma passagem, entre caos e cosmos.
    Caosmose, fala Guattari. Numa língua dura e deslizante.

  • O insconsciente feito usina, máquina desejante. O eu e outro no acaso do encontro. Posso acreditar que estamos todos, quem saberá?, falando do mesmo caos dos acontecimentos humanos? Pondo fim às histórias, posto que se ousa, enfim, contar a fundo ficções.

Clarissa

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Li, gostei e achei muito instigante a pergunta final do texto Inconsciente. Ele não existe fora da Psicanálise, por Lacan. Ele está falando da sessão no divã, exatamente? Porque em tantos momentos a Psicanálise, ou inúmeros, se aproxima se imbrica com o quadro, o poema. Faz lembrar que no Seminário XI, no capítulo o que é um quadro, Lacan parece deixar mais claro o que é o objeto a, a esquize do olhar. Não seria uma maneira de construção do Inconsciente esse olhar, do outro lado do divã? Fique mesmo pensando sobre isso, partilho com você para esclarecer minha dúvida lacaniana..

Marcia

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  • Inconscientes:
Clarissa:
Um entre-reinos, interregno, uma fenda, um furo, uma passagem,
entre caos e cosmos.
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Marcia:
Esse olhar do outro lado do divã.
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Maria:
Um gaio saber alicerçado no des-ser (o chiste, o esquecimento, o tropeço, o sonho, o ato falho).
Quando a normatividade do fantasma e a ditadura dos ideais param de sustentar a ilusão de consistência do ser, o gaio saber advém como virtude.
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quarta-feira, julho 08, 2009

Inconsciente:

Para começar, o inconsciente revela-se num ato que surpreende e ultrapassa a intenção do analisando que fala. O sujeito diz mais do que pretende e, ao dizer, revela sua vontade.


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Esse ato, mais do que revelar um inconsciente oculto e já presente, produz o inconsciente e faz com que ele exista.

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Ora, para que esse ato efetivamente dê existência ao inconsciente, é indispensável que um outro sujeito escute e reconheça a importância do inconsciente, sendo esse sujeito o psicanalista: “... o inconsciente implica que ele seja escutado? Em minha opinião, sim”, respondeu Lacan. (Televisão) De fato, para que o inconsciente exista, é ainda necessário que ele seja reconhecido.

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Mas esse reconhecimento não é um reconhecimento do pensar, é um reconhecimento do ser, ou seja, o psicanalista reconhece como ato, a partir de seu ser e de seu próprio inconsciente, o inconsciente do outro. Para reconhecer que o ato do analisando é um colocar em prática o inconsciente, é preciso, pois, um outro ato, o do analista. É claro que numerosas diferenças distinguem o ato do analisando do ato do analista, que um lapso do analisando é diferente da interpretação do psicanalista, mas, do ponto de vista em que nos situamos, ou seja, do ponto de vista que considera o inconsciente como uma estrutura, esses dois atos são formalmente idênticos, ou, se preferimos, significantes.

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Se o psicanalista está em condição de sancionar como ato a existência do inconsciente de seu analisando, é porque ele mesmo já percorreu, na condição de paciente, o caminho de uma análise.

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Essa conjunção de dois atos que, no campo da análise, põe em prática o inconsciente, permite-nos formular três hipóteses, que submeto a vocês:
. O inconsciente não é uma instância oculta, já presente, à espera de uma interpretação que venha revelá-lo, mas uma instância produzida quando a interpretação do analista, considerada como um ato de seu inconsciente, reconhece o ato do inconsciente do analisando.
· Assim produzido, o inconsciente é uma estrutura única, comum a ambos os parceiros analíticos. Por conseguinte, devemos corrigir a hipótese anterior e concluir que não existe um inconsciente pertencente ao analisando e, depois, um outro inconsciente pertencente ao psicanalista, mas há apenas um único inconsciente, o que é produzido e é singular no seio da transferência.
· Por fim, a terceira hipótese é a reafirmação de minha proposta inicial de pensar a existência do inconsciente exclusivamente dentro da análise, lembrando que o próprio Lacan também se deteve sobre esse mesmo problema, sem resolvê-lo. Em resposta à observação de um interlocutor que afirmou: “Eu disse que a psicanálise só pode ser válida dentro do campo de suas observações, que é a situação analítica”, Lacan replicou: “É exatamente isso o que digo. Não temos meios de saber se o inconsciente existe fora da psicanálise.”(Scilicet)
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Cinco Lições sobre a Teoria de Jacques Lacan
Juan-David Nasio