quarta-feira, janeiro 25, 2012

“... É um belo texto de Freud. Não é à toa que nos devolve o soma e o germe. Ele intui, fareja que é aí que há alguma coisa a aprofundar. Sim, o que há por aprofundar é o quinto ponto que anunciei este ano, em meu Seminário, e que enuncia assim: não existe relação sexual.

Dito dessa maneira, parece meio esquisito, meio amalucado. Bastaria uma boa trepada para me revelar o contrário. Infelizmente, essa é uma coisa que não demonstra absolutamente nada parecido, porque a ideia de relação não coincide de modo algum com o uso metafórico que é feito dessa palavra pura e simples – relação, eles tiveram relações. Não é nada disso. Só podemos falar seriamente de relação quando não somente um discurso estabelece a relação, mas quando se enuncia a relação. O real existe antes que pensemos nele, mas a relação, essa é muito mais duvidosa. Não só é preciso pensá-la, como é preciso escrevê-la. Se vocês não são capazes de escrevê-la, não existe relação...”

Jacques Lacan, in: Estou falando com as Paredes,

Cap. I – Saber, ignorância, verdade e gozo.

terça-feira, janeiro 24, 2012

Da natureza e da cultura


“Como o jovem Marx dos Manuscritos econômicos e filosóficos, O rei Lear conjura uma política radical a partir de suas reflexões sobre o corpo. Mas esse não é bem o discurso sobre o corpo que está mais em voga nos dias de hoje. É o corpo mortal, não o masoquista, que está aqui em questão. Se Lear está bastante consciente da natureza como uma construção cultural, está também alerta para os limites dessa ideologia, a qual, em sua pressa de fugir das armadilhas do naturalismo, deixa de perceber aquilo que se refere ao corpo compartilhado, vulnerável, decadente, natural e tenazmente material que coloca uma interrogação sobre essa imodéstia culturalista. Mas a peça é igualmente cautelosa quanto a um naturalismo que crê poder haver uma inferência direta do fato ao valor, ou da natureza para a cultura. Ela sabe que “natureza” é sempre uma interpretação da natureza, desde o determinismo hobbesiano de Edmund até o rico pastoralismo de Cordélia, desde uma perspectiva de matéria sem sentido a uma visão de harmonia cósmica. A passagem da natureza para a cultura não pode ser uma passagem do fato para o valor, uma vez que a natureza sempre já é um termo valorativo.”

 
Terry Eagleton, in: A ideia de cultura – Cap. 3 – “Guerras Culturais”

quarta-feira, janeiro 04, 2012


DIGITE-ME QUE TU ANDAS E TE DIREI QUEM ÉS

OU

O ESTATUTO DE DEUS, DA CLÍNICA E DA HUMANIDADE EM NOSSA COMTEMPORANEIDADE

Gustavo Capobianco Volaco


No princípio era o verbo.
                               São João.
No princípio era o ato.
            Goethe.

Acredito que vocês conheçam o célebre aforismo de Nietzsche
“Deus está morto (...) e quem o matou fomos nós”
Pois bem, eis o que me parece uma inverdade, uma falácia, um, para ser cortês e mais preciso, um sofisma. Vocês sabem o que é um sofisma, não é mesmo? Um sofisma é uma argumentação lógica que visa, em sua base, levar-nos ao erro, conduzir-nos ao equívoco, bagunçar a ordem do coreto. O exemplo clássico, de um sofisma, digo, é este produzido por Zenão de Eléia:
“Se se derrama um saco de trigo no chão, ele faz barulho; mas se jogamos um só grão, não se percebe ruído algum. Se um grão não produz, dois também não, nem dez, nem mil. Conclui-se portanto que um saco de trigo não produz som algum”.
 E porque, digo, que o aforismo de Nietzsche “Deus está morto” é um sofisma? Isso não lhes chama a atenção? Não estaríamos a ver, por quase todos os cantos a inexistência de Deus e por isso assistiríamos a essa avalanche de novas seitas que visariam ressuscitá-lo, recriá-lo, reinscrevê-lo?
Pois não me parece que Deus, de fato, esteja morto. De jeito nenhum! Para dizer de alguma forma, para me aproximar disso que quero trabalhar com vocês, digo que ele apenas mudou de roupa, ou melhor, mudou, essencialmente, de estatuto. Vou tentar me explicar a esse respeito relembrando-os do oráculo de Delfos, o famoso oráculo de Delfos que se dá a ler, por exemplo, da tragédia Édipo Rei, que já foi nosso tema na semana acadêmica anterior. O que o caracterizava? Alguém o procurava com uma pergunta, alguém queria saber do futuro, por exemplo, e se dirigia até este local, passava pelo batente que dizia em letras garrafais “conhece-te a ti mesmo” e o questionava. E o que recebia como resposta? Não uma resposta linear e unívoca, jamais uma certeza bem amarrada ou costurada. Recebia, sim, e muito pelo contrário, um outro enigma que pedia deciframento, que requeria uma interpretação. Insisto, quem se dirigia a esse lugar não encontrava clareza. Não encontrava paz. Não encontrava a calma. Encontrava, sim, frente ao ?, não !, mas outro ?.
E o que vemos na teologia judaico-cristã, para deixar os gregos descansar um pouco? Em outras palavras: o que recebemos pelo abandono do politeísmo? Certezas inabaláveis ou novamente dúvidas, charadas, enigmas? Por exemplo: como situar, de uma vez por todas o que Deus queria de Abraão? Que matasse seu filho? Que não o fizesse? O que quer o Outro de mim?, podemos ler nessa indecisão demiúrgica e isso não se dá apenas no Genesis. Isso se dará também com a passagem dessa feroz ignorância de Yaveh para esse Deus trinitário muito mais afeito ao amor. Situem, de uma vez por todas, quais são os desígnios de Deus diante da crucificação de seu filho? Não precisa, também isso, de um deciframento? Não caiam, por favor, no dogma. O dogma é apenas expressão de uma paixão do ser cara aos seres humanos, ou seja, a ignorância, e ela não deve ter lugar aqui, dentro deste curso que vocês escolheram. E estão aí todos os teólogos, os hermeneutas, a debater seriamente aquilo que um Deus quereria de nós, fora do dogma. A fé, a crença, fica do outro lado. Longe daqui!
Como estou, de certa forma a profanar o sacro, cito aqui um filme bem conhecido de todos vocês, O Advogado do Diabo. O que diz, lá, o diabo a respeito de Deus (cito de memória): prove, mas não goste...goste, mas não se delicie... se delicie, mas não goze... goze, mas não produza soberba...
O que quer Deus de nós? Não sabemos de forma unívoca. Não temos como definir de uma vez por todas. Mas isso não impediu que desde a Grécia passando pelo novo ou velho testamento nos reportássemos a esse lugar terceiro, a esse que tudo saberia e nos poria no bom caminho, na boa via, na sina certa. E isso, reabro as questões, ainda se dá nos dias de hoje ou esse lugar terceiro está, como disse Nietsche, vazio, destituído, morto? Dito de uma outra forma, vocês, que estão aí sentados escutando este trabalho, se dirigem a alguém, a uma alteridade para que de lá lhes venha algum tipo de resposta? Vejam, se vocês acham que não há mais esse direcionamento, essa vetorização para essa alteridade, o trabalho que vocês irão fazer daqui a um tempo, esse de receber pacientes, de escutá-los, cai por terra, torna-se desnecessário, impraticável. E contudo, não se assustem por enquanto com isso, os consultórios continuam cheios, lhe afirmo. Sempre há quem se questione a respeito de si mesmo e procure, em nossos consultórios, algum tipo de resposta. O ponto, contudo que perturba todo esse jogo, mudou, basculou, e isso não porque Deus esteja morto mas sim porque Deus, como eu afirmei antes, mudou de estatuto. Ele, hoje,ao contrário desses exemplos que lhes trouxe aqui hoje, não vacila, não claudica, não titubeia. Ele, esse Deus contemporâneo, é hoje de fato, onisciente, onipotente, onipresente e não mais enquanto tese, não mais enquanto teorema. Se algo nos acossa, se algo nos perturba, se alguma coisa nos produz enigma, basta consultá-lo para obtermos a resposta. E nem precisamos sair de casa para consultá-lo. Não precisamos ir a Igreja, ao templo, ao terreiro. Abrimos, de nossas casas, de nosso lar, essa máquina fabulosa que se chama computador, acessamos a rede mundial, escrevemos dentro de um retângulo seis letras G O O G L E e voilá, podemos fazer qualquer pergunta, em qualquer língua, em qualquer ordem que queiramos que lá estará a resposta, com o tempo que demorou para conseguí-la e, mais importante, o número de achados que essa ferramenta encontrou para nós. Insisto: antes tínhamos de percorrer léguas para encontrar ciframentos, sacrificar animais para encontrar ciframentos, ajoelhar-mo-nos para encontrar... ciframentos. E hoje, o que encontramos nessa nova instituição de Deus? Deciframentos, respostas, mil, duas mil, quinhentas mil respostas para qualquer questão. Digitem lá, qualquer ajuntamento de letras, ao acaso mesmo, que, rapidamente vocês irão encontrar links que lhes dizem a que isso se refere: uma comunidade que se nomeia assim, um povo que escreve dessa forma, uma língua que pretende inovadora...
Vejamos: antes estávamos com a precariedade das respostas. Tínhamos enigmas, nos dirigíamos a esse Outro e, no máximo, recebíamos de lá uma nova charada, uma até resposta mas que era não-toda, não-plena, jamais completa. Hoje, frente ao onisciente, ao onipotente, ao onipresente Deus chamado Google, encontramos não o que poderia parecer, o infinito, mas a totalidade. Encontramos aí, no Deus Google a totalidade das respostas. E porque isso nos concerne? Porque é importante destacar essa mutação de Deus? Por que, é claro, isso tem conseqüências em nossa organização, em nossa vida, em nossos atos. Como? Aí volto ao consultório, ao meu, especificamente, e a essas pessoas que vem me procurar – porque, como eu lhes disse, ainda há um afluxo de gente que vem consultar um analista – e o que se nota aí, o que se faz claro nessas pessoas? Que elas, em sua grande maioria, vêm me consultar como se consulta o Google e cada vez suportam menos o silêncio, a não resposta ou mesmo a sua implicação naquilo que elas mesmas causam em suas vidas. “Eu quero respostas, doutor. Não me venha com esse seu blá, blá, blá” me dizia uma senhora. “Procurei na internet dados a seu respeito, Gustavo, e descobri que és um especialista no que se refere a casos amorosos. Diga-me, o que devo fazer?” dizia-me um jovem rapaz. E, para encerrar essa série, o que tenho escutado quase unissonamente: “Se é para eu vir aqui e o senhor não me dizer nada, não me responder nada, ficar aí calado ou questionando aquilo que eu falo... disso, eu não preciso” e lá se vão depois de uma curta – às vezes curtíssima – temporada. E não precisam mesmo permancecer! Por que deveriam se, no Deus Google eles encontram Aproximadamente 18.800.000 resultados em 0,07 segundos. E não é só aí que essas respostas, em abundância, totalizantes se proferem. A televisão irradia essa sabedoria, esse Saber e, pasmem, os psicólogos estão, freqüentemente, nessa nau, nesse mesmo barco arrotando saberes e mais saberes sem perceber que com isso não fazem senão insuflar esse, digo sem papas na língua, sintoma social. Foi como eu lhes disse, Deus nem aqui nem na China está morto. Ele está mais presente do que nunca, vivo, onisciente, onipotente e onipresente como nunca se viu. Se não acreditam em mim, vão até o Google para verificar.
É isso. Muito obrigado por sua atenção.
Gustavo Capobianco Volaco
Psicanalista, Coordenador do Curso de Psicologia da FACVEST

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