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Mostrando postagens de Janeiro 22, 2012
“... É um belo texto de Freud. Não é à toa que nos devolve o soma e o germe. Ele intui, fareja que é aí que há alguma coisa a aprofundar. Sim, o que há por aprofundar é o quinto ponto que anunciei este ano, em meu Seminário, e que enuncia assim: não existe relação sexual.
Dito dessa maneira, parece meio esquisito, meio amalucado. Bastaria uma boa trepada para me revelar o contrário. Infelizmente, essa é uma coisa que não demonstra absolutamente nada parecido, porque a ideia de relação não coincide de modo algum com o uso metafórico que é feito dessa palavra pura e simples – relação, eles tiveram relações. Não é nada disso. Só podemos falar seriamente de relação quando não somente um discurso estabelece a relação, mas quando se enuncia a relação. O real existe antes que pensemos nele, mas a relação, essa é muito mais duvidosa. Não só é preciso pensá-la, como é preciso escrevê-la. Se vocês não são capazes de escrevê-la, não existe relação...”
Jacques Lacan, in: Estou falando com as Parede…

Da natureza e da cultura

“Como o jovem Marx dos Manuscritos econômicos e filosóficos, O rei Lear conjura uma política radical a partir de suas reflexões sobre o corpo. Mas esse não é bem o discurso sobre o corpo que está mais em voga nos dias de hoje. É o corpo mortal, não o masoquista, que está aqui em questão. Se Lear está bastante consciente da natureza como uma construção cultural, está também alerta para os limites dessa ideologia, a qual, em sua pressa de fugir das armadilhas do naturalismo, deixa de perceber aquilo que se refere ao corpo compartilhado, vulnerável, decadente, natural e tenazmente material que coloca uma interrogação sobre essa imodéstia culturalista. Mas a peça é igualmente cautelosa quanto a um naturalismo que crê poder haver uma inferência direta do fato ao valor, ou da natureza para a cultura. Ela sabe que “natureza” é sempre uma interpretação da natureza, desde o determinismo hobbesiano de Edmund até o rico pastoralismo de Cordélia, desde uma perspectiva de matéria sem sentido a uma…