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Mostrando postagens de junho, 2013

A mulher, de Lacan, que não existe

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Desde o início da civilização até hoje, vemos uma impropriedade comum no tratamento da mulher O que Lacan sabia das mulheres? É a pergunta, em título, do Colóquio de Miami, em junho de 2013. Nós todos conhecemos a resposta, Lacan a deu inúmeras vezes nos últimos anos de seu ensino. Ele a sintetizou em quatro palavras. Lacan sabia das mulheres que: A MULHER NÃO EXISTE. O que está condensado nessa oração aforismática é uma radical revolução no laço social, pois aponta a uma mudança de paradigma com implicações fundamentais na clínica e na vida em geral da pós-modernidade. É a isso que vou me dedicar a analisar nesse breve artigo: a. como a mulher era vista; b. o que há de novo quando a mulher não existe; c. a possibilidade de um novo amor: a ressonância; d. a segunda clínica: a consequência; e. “a mulher de Lacan e a mulher de hoje”, tema dessa mesa. Como a mulher sempre foi habitualmente vista? (*) Começou como sempre, no começo. No Gênesis, quando Deus diz...

CONVITE

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Movimentos Populares: Mais uma análise

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O psicanalista Contardo Calligaris aproxima as relações amorosas das relações políticas, na tentativa de analisar os movimentos populares no Brasil. Sonhos de calor humano Na sexta-feira passada, estreou o último filme de Richard Linklater, "Antes da Meia-Noite", que eu estava aguardando. Mas, enquanto as ruas pegam fogo, é difícil escrever sobre o amor. As manifestações que se espalharam (e seguem se espalhando) por São Paulo e por outras cidades do país me impressionaram pela rapidez com a qual o protesto, supostamente motivado pelo aumento das passagens de ônibus, tornou-se expressão de outras insatisfações, profundas e cruciais --contra a má qualidade e a má gestão do que é público, contra a insegurança de nossas ruas, contra a corrupção, contra o mistério nacional que resulta em produtos caros e salários baixos, contra os políticos com sua falta de competência e seu excesso de promessas, contra o desperdício da Copa que vem aí, contra a lentidão e a inef...

"A democracia não está realizada"

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A democracia que não veio  Vladimir Safatle Normalmente, aqueles que mais têm a palavra “democracia” na boca são os que, no fundo, menos acreditam nela. Eles se portam como defensores dos valores democráticos apenas para conservar desesperadamente as imperfeições que a versão atual da democracia é incapaz de superar. Na verdade, quando repetem que “a democracia é o pior sistema, mas o único possível”, é porque amam suas distorções. Pois a única posição realmente fiel ao conteúdo de verdade da democracia consistiria em dizer: a democracia não está realizada, ela é uma ideia por vir. Isto não significa que a realização imperfeita de uma ideia seja completamente falsa. A democracia por vir não é a negação simples, a recusa absoluta da democracia que temos atualmente. Mas ela é a mudança qualitativa de seus dispositivos e construção de novas dinâmicas de poder. Podemos mesmo dar três razões que nos permitem compreender por que esta democracia por vir ainda não ve...

Lacan: Um percurso

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Jacques Lacan – por Gilles Lapouge  publicado no Caderno Cultura do jornal O ESTADO DE SÃO PAULO,  em 18/10/1981 Em seus últimos dias de vida, Jacques Lacan era um homem triste, frágil e cansado. Era um velho. Mas a morte jogou-o novamente no primeiro plano, obrigando a uma reapreciação do uso que fez da linguística para a decifração de Freud. Gilles Lapouge refaz a trajetória desse intelectual e recorda a curta, porém marcante, convivência que teve com LACAN. Ele não realizava mais seminários. Depois de tanto barulho, tudo em torno dele era silêncio. Não era mais visto nas ruas de Sant Germain des Près. Ou, quando se aventurava fora de casa, nestes últimos meses, não mais era aque¬le personagem suntuoso, o "magnífico", envolvido em peles, mas sim um homem triste, frágil, cansado, que caminhava lentamente arrastando os pés. Um velho. Em torno dele os rumores ferviam: discípulos, inimigos e aduladores davam as notícias mais desencontradas sobre ...

Questões sobre o tempo

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O rio e a flecha do tempo. O futuro é sempre diferente ou sempre o mesmo? by: Francis Wolff Em certo sentido, ele não para de mudar. Já não somos tão jovens quanto éramos ontem ou há dez anos: por isso não vemos o nosso futuro como o víamos ontem ou como pensávamos que seria, há dez anos atrás. O mundo não é mais o mesmo. As promessas de anteontem quanto ao fim da exploração do homem pelo homem, ou as de ontem, quanto ao desenvolvimento sustentável não foram cumpridas. É verdade que todos os dias abrem-se outras esperanças, outras expectativas, outras aspirações. Estamos sempre reinventando o futuro, o nosso ou o do mundo, em função da maneira como nos pensamos no presente e imaginamos o mundo de hoje. Portanto, o futuro não é mais o que era e o que nunca foi. No fundo, o mesmo se dá com o passado. À medida que nos distanciamos dele, recriamos os seus encantos e seus tormentos. De fato, a memória não é melhor guardiã do passado que a imaginação, do futuro. Assim, a visão ...