quarta-feira, abril 11, 2007

CURSO - 2007
O que é o insustentável da co-existência?

O que nos impele a viver junto, a fazer par, a amar? A tradição filosófica apela para o reencontro da unidade perdida. Amar é aspirar a ser um só.
Por sua vez, na tradição da teoria psicanalítica – a obra de Freud - o amor reina entre as águas do narcisismo e da idealização. Amar implica em querer ser amado e dar consistência à vaidade do amor que se dirige ao próprio eu. É, por isso mesmo, a via do amor-paixão que coloca em cena o objeto amoroso na vertente da idealização. O registro do impossível – do objeto para sempre perdido – é negado e substituído pela promessa de felicidade. Nega-se a castração para sustentar a ilusão de que o amado tem o que falta ao amante.
Seguindo a trilha freudiana, Lacan, primeiramente, localizou o amor no campo do Imaginário. É a versão do amor que engana e é enganador: dois semelhantes se ligam num engodo de aprisionamento em que se perdem transitando do amor à agressividade. Trata-se do equivoco de persuadir o outro de que ele tem o objeto que nos falta.
Num segundo momento, atravessado pela teoria da transferência - a partir do Seminário VIII -, Lacan continua a problematizar as questões relativas ao amor pela via dos dois outros registros: Simbólico e Real.
No campo do Simbólico, no nível do ser falante, o que o amor vem demonstrar é a não inscrição no Real de um saber que diga respeito à sexualidade. Não há entre os seres falantes o que chamamos de instinto. A relação com o Outro dentro do campo Simbólico não é estabelecida por qualquer instinto. O desejo não pode absolutamente servir-se disso uma vez que o desejo é uma questão.
A partir desta perspectiva, Lacan pode definir o amor como o encontro, no parceiro, dos sintomas, dos afetos, de tudo o que em cada um marca o rastro de seu exílio da relação sexual. Isto é, se o amor é da ordem da contingência, é porque algo não está inscrito.
É, notadamente, no Seminário XX onde se pode ler um elogio do amor pela função de suplência à inexistência da relação sexual que ele comporta. Segundo Lacan, no plano do gozo, não há como ter acesso ao Outro sexo: não há relação sexual porque o gozo do Outro, tomado como corpo é sempre inadequado – perverso de um lado, no que o Outro se reduz ao objeto a – e de outro, eu direi louco, enigmático.
Assim, se no real do sexo a relação sexual não se inscreve, se no corpo a corpo nenhum dos parceiros goza do corpo do outro, a suplência do amor consiste no laço que se estabelece entre um casal situado aqui não no eixo imaginário, mas, segundo Lacan, entre dois sujeitos do saber inconsciente.
È, então, por esta via, a via do inconsciente, que Lacan vai deduzir a relação intrínseca entre amor e verdade. Afirmando que ambos têm estrutura de ficção e, como tais, são artifícios com a função de criar uma tela protetora diante dos enigmas sem decifrações.
Objetivos:
Partindo do trabalho de leitura das formulações de Jacques Lacan e Maurice Merleau-Ponty, pretendemos problematizar as relações: Sujeito-Objeto, e Sujeito-Outro sobre a perspectiva da psicanálise e da fenomenologia.
A quem se dirige:
A todos aqueles interessados pela teoria e clínica da psicanálise lacaniana e da fenomenologia merleaupontyana. Profissionais e estudantes de qualquer área; praticantes e não praticantes da psicanálise.
Estrutura do curso
O Curso será estruturado a partir de quatro eixos temáticos:
1. O campo do Sujeito
· Alienação/Separação: as duas operações de causação do Sujeito.
· Sujeito: falta-a-ser
·Falasser
· O sintoma

2. O campo do Amor
               . Narcisismo
· Objeto amoroso: érastès/érôménos.
·Freud e o amor: o mal-estar na civilização
· O Parceiro sintoma

3. O campo do Desejo e a Sexualidade
·O desejo e a lei.
· O desejo: o que não cessa de não se escrever.
· A necessidade: o que não cessa de se escrever.
· O objeto causa de desejo: a Coisa.

4. O Campo do Outro
·A metáfora amorosa
· O insustentável da relação: “a relação sexual não existe”.
· A Coisa.
· O Outro.
· O Invisível.


Carga Horária:
20 horas (dez semanas)

Horário:

Dia: Quarta Feira
Horas: Das 16:30 às 18:20.

Início:
18 de abril de 2007.
Local:
CFH – sala 310 – UFSC – Trindade-SC

Inscrições:
Departamento de Filosofia - UFSC
BIBLIOGRAFIA
FREUD, Sigmund, O mal-estar na Civilização, in: Obras Completas, livro 24.
LACAN, Jacques, O aturdito, in: Outros Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.
-------------------, O Seminário, livro 20, mais, ainda, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1982.
MERLEAU-PONTY, Maurice, O Visível e o Invisível, São Paulo: Editor Perspectiva S.A., 2003.
Zizek, Slavoj, e Daly Glyn, Arriscar o impossível – Conversas com Zizek, São Paulo: Martins, 2006.