sexta-feira, maio 02, 2008

O Inconsciente: Fragmentos


O inconsciente é o capítulo de minha história que é marcado por um branco ou ocupado por uma mentira: é o capítulo censurado. Mas a verdade pode ser resgatada; na maioria das vezes, já está escrita em outro lugar. Qual seja:
- nos monumentos: e esse é meu corpo, isto é, o núcleo histérico da neurose em que o sintoma histérico mostra a estrutura de uma linguagem e se decifra como uma inscrição que, uma vez recolhida, pode ser destruída sem perda grave;
- nos documentos de arquivo, igualmente: e esses são as lembranças de minha infância, tão impenetráveis quanto eles, quando não lhes conheço a procedência;
- na evolução semântica: e isso corresponde ao estoque e às acepções do vocabulário que me é particular, bem como ao estilo de minha vida e a meu caráter;
- nas tradições também, ou seja, nas lendas que sob forma heroicizada veiculam minha história;
- nos vestígios, enfim, que conservam inevitavelmente as distorções exigidas pela reinserção do capítulo adulterado nos capítulos que o enquadram, e cujo sentido minha exegese restabelecerá.
(p.260, Escritos)Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise
Relatório de Roma
1953

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... Trata-se, pois, de definir a tópica desse inconsciente. Digo que é justamente ela que se define pelo algoritmo (p.518, Escritos)
........................................S
........................................s

... O inconsciente não é o primordial nem o instintivo e, de elementar, conhece apenas os elementos do significante. (p.526, Escritos)
... Se eu disse que o inconsciente é o discurso do Outro com maiúsculo, foi para apontar o para-além em que se ata o reconhecimento do desejo ao desejo de reconhecimento. (p.529, Escritos)
A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud
1957

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O inconsciente, a partir de Freud, é uma cadeia de significantes que em algum lugar (numa outra cena, escreve ele) se repete e insiste, para interferir nos cortes que lhe oferece o discurso efetivo e na cogitação a que ele dá forma.
Nessa fórmula, que só é nossa por ser conforme tanto ao texto freudiano quanto à experiência que ele inaugurou, o termo crucial é o significante, ressuscitado da retórica antiga pela lingüística moderna,...(p.813, Escritos)
Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano
1960
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... O inconsciente é um conceito forjado no rastro daquilo que opera para constituir o sujeito. (p.844, Escritos).... O efeito de linguagem é a causa introduzida no sujeito. Por esse efeito, ele não é causa dele mesmo, mas traz em si o germe da causa que o cinde. Pois sua causa é o significante sem o qual não haveria nenhum sujeito no real. Mas esse sujeito é o que o significante representa, e este não pode representar nada senão para um outro significante: ao que se reduz, por conseguinte, o sujeito que escuta.Com o sujeito, portanto, não se fala. Isso fala dele, e é aí que ele se apreende, e tão mais forçosamente quanto, antes de – pelo simples fato de isso se dirigir a ele – desaparecer como sujeito sob o significante em que se transforma, ele não é absolutamente nada. Mas esse nada se sustenta por seu advento, produzido agora pelo apelo, feito no Outro, ao segundo significante. (p.849, Escritos)... O registro do significante institui-se pelo fato de um significante representar um sujeito para outro significante. Essa é a estrutura, sonho, lapso e chiste, de todas as formações do inconsciente. E é também a que explica a divisão originária do sujeito. (p.854, Escritos)
Posição do inconsciente
1960-1964

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Tropeço, desfalecimento, rachadura. Numa frase pronunciada, escrita, alguma coisa se estatela. Freud fica siderado por esses fenômenos, e é neles que vai procurar o inconsciente. Ali, alguma outra coisa quer se realizar – algo que aparece como intencional, certamente, mas de uma estranha temporalidade. O que se produz nessa hiância, no sentido pelo do termo produzir-se, se apresenta como um achado. É assim, de começo, que a exploração freudiana encontra o que se passa no inconsciente.
... Ora, esse achado, uma vez que ele se apresenta, é um reachado, e mais ainda, sempre está prestes a escapar de novo, instaurando a dimensão da perda.
Para me deixar levar por uma metáfora. Eurídice duas vezes perdida, esta a imagem mais sensível que poderíamos dar, no mito, do que é a realidade de Orfeu analista com o inconsciente. (p.30)

O que, com efeito, se mostrou de começo a Freud, aos descobridores, aos que deram os primeiros passos, o que se mostra ainda a quem quer na análise acomode por um momento seu olhar ao que é propriamente da ordem do inconsciente – é que ele não é nem ser nem não-ser, mas é algo de não-realizado. ( p.34)
Se formulo que o estatuto do inconsciente é ético, e não ôntico, é precisamente porque o próprio Freud não adianta isto quando dá seu estatuto ao inconsciente. (p.37)
Seminário – livro 11 – os quatro conceitos fundamentais da psicanálise
1964

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