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Mostrando postagens de junho, 2008

O bom uso da besteira

Longe de corresponder meramente a um estado de privação, a besteira consiste numa força positiva, estável e triunfante. O tolo é antes de tudo um opressor. Bata ligar a televisão para perceber o quanto o seu triunfo encontra-se solidamente assegurado na realidade. Pois a realidade, enquanto domínio das representações coesas, é de fato o que mais resiste, por estrutura, a todo efeito de dispersão. Por isso a besteira é inabalável, confessava a sua sobrinha um consternado Flaubert, ao comentar seu projeto de compor Bouvard e Pécuchet. Não há nenhum pensamento importante que a besteira não saiba usar, admitia o não menos desolado Ulrich, o homem sem qualidades de Robert Musil. Donde a constatação inevitável de que, para se comunicar, há que se ser um pouco besta. A razão, esclarece Jean-Claude Milner, é que todo discurso exige, da parte do sujeito, que ele fale em nome de algum laço coletivo, anestesiando-se com relação aos cortes que poderiam dissolvê-lo. Convém inclusive sabê-lo para ...

Nelson Rodrigues: Fragmento

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De fato, o futebol brasileiro tem tudo, menos o seu psicanalista. Cuida-se da integridade das canelas, mas ninguém se lembra de preservar a saúde interior, o delicadíssimo equilíbrio emocional do jogador. E, no entanto, vamos e venhamos: - já é tempo de atribuir-se ao craque uma alma, que talvez seja precária, talvez perecível, mas que é incontestável. (...) (...) E aqui pergunto: - que entende de alma um técnico de futebol? Não é psicólogo, não é psicanalista, não é nem mesmo um padre. Por exemplo: - no jogo Brasil x Uruguai entendo que um Freud seria muito mais eficaz na boca do túnel do que Flávio Costa, um Zezé Moreira, um Martim Francisco. Nos Estados Unidos, não há uma Bovary, uma Kerênina que não passe, antes do adultério, no psicanalista. Pois bem: - teríamos sido campeões do mundo, naquele momento, se o escrete houvesse freqüentado, previamente, por uns cinco anos, o seu psicanalista. Assim falou Nelson Rodrigues... em abril de 1956.

Dossiê Jacques Lacan - Cult

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"O Sofrimento na Contemporaneidade" O “Dossiê Jacques Lacan” elaborado pela revista Cult – junho/2008 – está de parabéns. São sete ótimos textos que transitam com delicadeza pela extensa e densa floresta conceitual desenvolvida por Lacan ao longo de seus muitos seminários e textos. Vlademir Safatle inicia o dossiê com uma declaração que, por certo, provocará algumas querelas. Segundo Safatle, talvez seja impossível entender o início do século 21 sem passar por Lacan. “Não apenas devido à maneira com que, atualmente, conceitos seus são mobilizados para dar conta de questões maiores no interior da política, da teoria social, da filosofia, da crítica da cultura; mas também devido à maneira com que autores fundamentais para a contemporaneidade, como Michel Foucault, Gilles Deleuze, Jacques Derrida e, mais recentemente, Alain Badiou, Judith Butler, Ernesto Laclau, Slavoj Zizek construíram suas questões em confrontação e diálogo com Lacan”. Já em “Revolução na Clíni...

O paradoxo do sexo

Francisco Bosco escreve muito bem sobre muitos temas. Acaba de defender um doutorado em semiologia, e desponta como um grande ensaísta. Vale a pena ler esse ensaio de Bosco publicado na última edição da revista Cult. O paradoxo do sexo Há, de fato, mais ou menos liberdade de acordo com as opções sexuais? Por Francisco Bosco Alguns acontecimentos recentes permitem apontarmos um paradoxo no modo como se pensa a sexualidade hoje, no Brasil, ou pelo menos nas suas cidades maiores e mais cosmopolitas. Vejamos os dois lados contraditórios da moeda. De um lado, têm se tornado freqüentes as declarações públicas de celebridades a respeito de sua sexualidade plenamente livre: gosto de homens, gosto de mulheres, sou bi, tri, penta, e o que mais tiver vontade de ser. Ora, do ponto de vista ético, isso está perfeito: cada um agindo de acordo com seu desejo, desde que esse desejo não interfira na liberdade do de outras pessoas. O problema, entretanto, está nessa concepção de sexualidade e,...

Aula: A Constituição do Sujeito em Lacan

11ª. Aula 03 de junho de 2008 A constituição do sujeito em Lacan Em Lacan (1979), a proposição de um Outro está intimamente ligada à discussão sobre as duas grandes operações de constituição do sujeito, tais como as podemos encontrar no seminário XI. Para dizê-las de modo sintético, são elas as operações de alienação e separação: em ambas trata-se de descrever o advento do sujeito enquanto duplo efeito de “falta” gerado pela sobreposição de dois campos distintos: o campo do ser (ou das pulsões parciais) e o campo do significante (em que propriamente encontramos a teoria lacaniana do grande Outro). Com a noção de alienação, Lacan se propõe descrever o processo de formação do sujeito visado pela psicanálise, processo esse que coincide com a descrição da entrada da criança no mundo da linguagem. Para um infante, que ainda não “sabe” nada de si, a fome, por exemplo, não tem sentido determinado. Ela não tem correspondência com um tipo específico de alimento ou demanda intersubjetiv...