sábado, junho 28, 2008

O bom uso da besteira


Longe de corresponder meramente a um estado de privação, a besteira consiste numa força positiva, estável e triunfante. O tolo é antes de tudo um opressor. Bata ligar a televisão para perceber o quanto o seu triunfo encontra-se solidamente assegurado na realidade. Pois a realidade, enquanto domínio das representações coesas, é de fato o que mais resiste, por estrutura, a todo efeito de dispersão. Por isso a besteira é inabalável, confessava a sua sobrinha um consternado Flaubert, ao comentar seu projeto de compor Bouvard e Pécuchet. Não há nenhum pensamento importante que a besteira não saiba usar, admitia o não menos desolado Ulrich, o homem sem qualidades de Robert Musil. Donde a constatação inevitável de que, para se comunicar, há que se ser um pouco besta. A razão, esclarece Jean-Claude Milner, é que todo discurso exige, da parte do sujeito, que ele fale em nome de algum laço coletivo, anestesiando-se com relação aos cortes que poderiam dissolvê-lo. Convém inclusive sabê-lo para não resistir à besteira além da medida, ao ponto de sucumbir nas manias da anacorese intelectual: "Não se deve chegar ao ponto de não suportar que haja demanda e semblant: ingenuidade cujo salário é a honra estéril e o preço, o isolamento".

"Do bom uso da besteira"
Antônio Teixeira, in: A Soberania do inútil
e outros ensaios de psicanálise e cultura,
São Paulo: Annablume,2007

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