segunda-feira, abril 28, 2008

Merleau-Ponty e Psicanálise


Marcado pela herança filosófica de Husserl e procurando se deslocar dos impasses teóricos colocados pela filosofia da consciência, Merleau-Ponty indicou desde o início de seu percurso a necessidade de tematizar a abertura originária da consciência para o mundo e para o outro. Nesse contexto, o estudo da percepção ocupou um lugar central em sua pesquisa. Apesar de a categoria de consciência implicar a idéia de intenção da fenomenologia de Husserl, isto é, a consciência ser sempre consciência de algo que a transcende e estar inserida num corpo, a consciência ainda é o campo da referência fundamental da fenomenologia de Merleau-Ponty. Vale dizer, mesmo sendo consciência perceptiva, ainda é no campo da consciência que se realizam as indagações teóricas de Merleau-Ponty. A categoria de inconsciente não poderia ter lugar nesta concepção filosófica, de maneira que, no momento inaugural deste discurso, o pensamento freudiano foi criticado em seu fundamento, sendo considerado um modelo mecanicista de psicologia.

Entretanto, no desenvolvimento de seu percurso, Merleau-Ponty realizou uma aproximação efetiva com o discurso freudiano, conferindo um lugar consistente ao conceito de inconsciente. Passou, então, a tematizar o corpo como “carne”, de forma que o registro do inconsciente passou a ser identificado ao “sentir” mesmo da coisa, pelo corpo do sujeito. O que implicou a transformação fundamental do cogito cartesiano no pensamento de Merleau-Ponty, que do “eu penso” de Descartes se transformou no “eu quero”, nessa ontologia do corpo. Enfim, o inconsciente foi tematizado no registro do desejo, na apropriação sensível e erótica, pelo corpo, das coisas constitutivas do mundo.



Joel Birman, in: Psicanálise, Ciência e Cultura.

segunda-feira, abril 14, 2008

O Inconsciente Freudiano

3ª. Aula

O inconsciente freudiano


Ao criar a noção do inconsciente, Freud delimitou desde 1895 – Projeto para uma Psicologia Científica – a idéia de uma tópica psíquica estruturada segundo um modo plurissistêmico, com articulações e interferências intra e intersistêmicas de uma sutileza que ele não cessará de precisar no prolongamento de sua obra.
Processos psíquicos do ponto de vista Sistemático

Concepção Tópica: Supõe uma diferenciação do aparelho psíquico num certo número de sistemas dotados de características ou funções diferentes e dispostos numa certa ordem uns relativamente aos outros, o que permite considerar metaforicamente como lugares psíquicos de que podemos fornecer uma representação figurada espacialmente.
Dimensão Dinâmica: Considera os fenômenos psíquicos como resultantes do conflito e de composição de forças.
O inconsciente exerce uma ação permanente, exigindo uma força contrária, igualmente de forma permanente, para lhe interditar o acesso à consciência.
O caráter dinâmico pode ser ilustrado pela noção de “formações de compromisso”, que devem a sua consistência ao fato de ser mantidas ao mesmo tempo dos dois lados. (Sintomas, Sonhos)
Função Econômica: Hipótese segundo a qual os processos psíquicos consistem na circulação e repartição de uma energia quantificável, isto é, susceptível de aumento, de diminuição e de equivalências.

Estimulos (int/ext) Percepção↗/___/_/_/_______/↘ Motilidade

Percepção→→→Traços de percepção→→→inconscinte
→→→
pré-consciência→→→Consciência

Toda a nossa atividade psíquica inicia-se a partir de estímulos (interno ou externo) e termina em enervações. Por conseguinte, atribuímos uma extremidade sensória e uma extremidade motora ao aparelho.
O sistema perceptivo recebe os estímulos sensórios, mas não os registra nem os associa, isso porque ele necessita ficar permanentemente aberto aos novos estímulos.
As funções de armazenamento e de associação ficam reservadas aos vários sistemas mnêmicos que recebem as excitações do sistema perceptivo e as transforma em traços “permanentes”.


A experiência de satisfação produz um traço mnêmico que é a imagem (sensorial) do objeto que proporciona a satisfação.

imagens mnêmicas/imagens sensoriais
traços de memória/traços mnêmicos


Sistema Inconsciente
Processo primário – energia livre – princípio do prazer.
Comparado ao Pcs/Cs, o Inconsciente se caracteriza por uma grande mobilidade das intensidades de investimento, e que, do ponto de vista econômico, corresponde à livre circulação de energia de uma representação para outra. Essa circulação não se faz de forma anárquica, mas segundo as leis da condensação e do deslocamento. Pelo deslocamento, uma representação pode receber de uma outra toda a sua carga de investimento, e pela condensação ela pode receber o investimento de várias outras representações.
Portanto, condensação e deslocamento correspondem ao modo de funcionamento do processo primário, característico do sistema Ics.


Sistema Pré-Consciente/Consciente.
Processo secundário – energia ligada – princípio da realidade.
O sistema Pcs/Cs, funciona segundo o processo secundário, cuja característica é um investimento mais estável das representações, acompanhado do investimento do eu e por uma inibição dos processos primários.
Ou seja, enquanto os processos Ics procuram satisfação pelo caminho mais curto e direto, os processos Pcs/Cs, regulados pelo princípio de realidade, são obrigados a desvios e adiamentos na busca de satisfação.

Vorstellung = representação = imagem/traço
Affekt = afeto = intensidade/investimento.
Triebrepräsentanz = representante pulsional:
Instituído pela ação do recalcamento, o inconsciente é, de fato, constituído por representações da pulsão que querem descarregar seu investimento, portanto por moções de desejo. Essas moções pulsionais são corrdenadas umas às outras, persistem umas ao lado das outras sem se influenciar reciprocamente e não se contradizem entre si.
A representação-objeto não é a representação de um objeto externo existente no mundo, não é a coisa (Ding) do mundo que fornece à representação-objeto sua unidade e seu conceito (cadeira, mesa, pessoa, etc); o que a coisa externa fornece são “associações de objeto”, isto é, imagens elementares visuais, acústicas, táteis etc, que, a partir da relação com as representações-palavra, irão formar o objeto.
Vorstellungsrepräsentanz = representante da representação
Representante + afeto = traço + investimento
.

Freud não é um gestaltista; a percepção não capta estruturas, algo já organizado, mas sim elementos sensoriais dispersos que serão posteriormente organizados. Como o aparelho recebe impressões elementares, atomísticas, ao invés de receber gestalten, formas, e como os traços mnêmicos são traços de impressões, os primeiros sistemas são constituídos apenas por imagens elementares, exatamente as que serão reativadas quando do funcionamento regressivo do aparelho. (trabalho onírico)
Se todo traço é traço de uma impressão, quando houver simultaneidade ou semelhança de impressões perceptivas, haverá conexão dos traços. É o que Freud chama de associação, ou cadeia associativa.

O inconsciente não conhece nem o tempo (as diferenças passado/presente/futuro estão abolidas), nem a contradição, nem a exclusão induzida pela negação, nem a alternativa, nem a dúvida, nem a diferença dos sexos. Substitui a realidade externa pela realidade psíquica. Obedece a regras próprias que desconhecem as relações lógicas conscientes de não-contradição e de causa e efeito, que nos são habituais. Uma inscrição inconsciente pode persistir e se mostrar sempre ativa, ressurgindo sob uma forma travestida.
Só tomamos conhecimento do inconsciente por suas “formações” (Lacan), ou seja, o não dito significativo do branco do esquecimento, um dizer surgido dos sonhos, chistes, atos falhos, uma escrita: tudo aquilo que constitui sintoma no modo do compromisso surpreendente e que constitui “alíngua” (Lacan), e em que, sob forma da matáfora/metonímia, a verdade do desejo insiste e se repete em múltiplas demandas.

RecalqueFreud concebe o recalque como um mecanismo que opera na linha divisória entre os sistemas Ics e Pcs/Cs e, mais ainda, ele o concebe inicialmente como uma atividade do segundo sistema sobre o primeiro. Sendo assim, antes da clivagem da subjetividade em dois sistemas distintos, não podemos falar em recalque.

A passagem do conteúdo inconsciente para a consciência não é da ordem da transcrição, mas da tradução. O pensamento consciente na sua secundariedade é original e irredutível.

A pulsãoA pulsão é uma força (drang) que necessita ser submetida a um trabalho de ligação e simbolização para que possa se inscrever no psiquismo propriamente dito.

1900 – A Interpretação de Sonhos - Cap. 7 – Freud utiliza a noção de apoio. As pulsões se apóiam no instinto não para confundir-se com ele, mas para desviar-se dele. Ou seja, a pulsão é, fundamentalmente, a perversão do instinto.
O instinto é um padrão fixo de conduta.
A pulsão é um impulso anárquico.



segunda-feira, abril 07, 2008

Professor Denilson Lopes convida:
O Núcleo de Cultura e Tecnologia da Imagem (N-Imagem) da Universidade Federal do Rio de Janeiro e a MP2 Produções estarão lançando, no dia 11 de abril de 2008, no Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Salão Moniz Aragão, Av. Pasteur 250, Praia Vermelha) o DVD contendo toda a obra em vídeo da artista Letícia Parente.
Letícia Parente nasceu em Salvador, em 1930, e faleceu no Rio de Janeiro, em 1991. Doutora em química, professora titular da Universidade Federal do Ceará e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, foi uma das pioneiras das novas mídias no Brasil (xérox, arte postal, vídeo arte). Entre 1975 e 2008, participou das mais importantes manifestações de vídeo arte no Brasil e no exterior. Seu vídeo Marca Registrada (1975) tornou-se um emblema da vídeo arte no país.
Depois de um longo trabalho de pesquisa e restauração, patrocinado pela Petrobras por meio do seu programa Petrobrás Cultural - Memória das artes (2006), 11 DVDs de Letícia serão exibidos e distribuídos para centros culturais, museus, escolas de cinema, comunicação e arte, bem como bibliotecas de referência no Brasil.
O evento de lançamento se dividirá em dois momentos. A partir das 13 horas haverá um ciclo de palestras: às 13 horas teremos a palestra da professora Kátia Maciel(Pesquisadora e artista de novas mídias, ECO-UFRJ) intitulada "A Casa", que discorrerá sobre da importância, para a obra da artista, do espaço de uma espécie de casa relacional constituída de espaços e objetos, de gestos e subjetividades múltiplas; às 15 horas, o professor André Parente (Pesquisador e artista de novas mídias UFRJ - idealizador do projeto do DVD) fará uma palestra intitulada "Vídeo e memória", na qual destacará o papel de Letícia como uma das pioneiras das novas mídias no Brasil; às 17 horas, Cláudio da Costa(Professor de Estética e Teoria da Arte do Instituto de Artes - UERJ) realizará uma palestra intitulada "Letícia Parente: a vídeo arte como prática da divergência", na qual situará o trabalho de Letícia face a questão do corpo, uma das questões seminais da arte contemporânea.
Após as palestras, haverá o lançamento do DVD com projeção dos vídeos de Letícia Parente.
PARA MAIS INFORMAÇÕES, SEGUE ABAIXO BIOGRAFIA, SINOPSES DOS VÍDEOS E CRÉDITOS DO DVD
Biografia
Letícia Parente nasceu em Salvador, em 1930, e faleceu no Rio de Janeiro, em 1991. Doutora em química, professora titular da Universidade Federal do Ceará e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, foi uma das pioneiras da videoarte brasileira, tendo participado, entre 1975 e 1991, das mais importantes mostras de videoarte no Brasil e no exterior. Seu vídeo Marca Registrada (1975) tornou-se um emblema da videoarte no país. Entre 1970 e 1991, realizou pinturas, gravuras, objetos, fotografias, audiovisuais, arte postal e xerox, vídeos e instalações, nos quais predominam a dimensão experimental e conceitual. Em 1973, fez sua primeira exposição individual, com pinturas e gravuras, no Museu de Arte Contemporânea de Fortaleza. Em 1976, realizou a primeira exposição de arte e ciência no Brasil com a instalação Medidas, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Em 1981, participou da 16ª Bienal Internacional de São Paulo com um trabalho de arte postal e vídeo. Publicou vários livros, entre eles, um livro de filosofia da ciência, Bachelard e a Química (1990).
Sinopses dos vídeos:
PREPARAÇÃO I (1975, 3 min 30 seg, Porta-pack)
A artista chega diante do espelho para se preparar para sair. Cola esparadrapo sobre a boca e os olhos. Desenha sobre eles olhos e boca. Em seguida, ajeita o cabelo, pega a bolsa e sai.
MARCA REGISTRADA (1975, 10 min 30 seg, Porta-pack)
A autora costura, sobre a sola do pé, com agulha e linha preta, a inscrição "MADE IN BRASIL".
IN (1975, 1 min 20 seg, Porta-pack)
A artista entra no seu próprio armário vazio e se pendura, pelos ombros, no cabide. Em seguida, fecha a porta do armário.
PREPARAÇÃO II (1976, 7 min 40 seg, Porta-pack)
A artista aplica em si mesma quatro injeções. Após cada aplicação, são escritos dizeres em uma ficha de controle sanitário internacional para a saída do país: "anticolonialismo cultural"; "anti-racismo"; "anti-mistificação política"; e "anti-mistificação da arte".
QUEM PISCOU PRIMEIRO (1978, 1 min 10 seg, Porta-pack)
Duas pessoas (André e Angela Parente) sentadas, diante da câmera, se observam para ver quem pisca primeiro. Em um determinado momento dão o jogo por encerrado... Mas quem piscou primeiro?
ESPECULAR (1978, 1 min 50 seg, Porta-pack)
Duas pessoas, sentadas no chão, uma defronte da outra, estão ligadas por uma espécie de estetoscópio duplo, de modo que os tubos que saem dos ouvidos de cada uma se ligam no meio por meio de um tubo comum. Elas estabelecem um diálogo especular.
O HOMEM DO BRAÇO E O BRAÇO DO HOMEM (em co-autoria com André Parente - 1978, 6 min, Porta-pack)
Vê-se a imagem de um anúncio de uma academia de ginástica, em neon, de um corpo de homem da cintura para cima, exercitando o braço. Em seguida, vê-se um homem de torso nu, da cintura para cima, movimentando o braço da mesma forma. À medida que o gesto se repete, o homem demonstra fadiga e não sustenta o ritmo do movimento.
DE AFLICTI - ORA PRO NOBIS (1979, 3 min 50 seg, minutos, Porta-pack)
Aparecem, sucessivamente, em imagens fixas, gestos de mãos e pés entrelaçados, contraídos e contorcidos. Cada imagem surge do escuro e depois se dissolve no escuro. Uma voz reza uma litania: ORA PRO NOBIS. O ritmo é como o fechar e abrir de um olho, convocado pela invocação.
NORDESTE (1981, 1 min 50 sec, Betamax)
Uma mala de couro rústica é arrastada pela autora até o centro do campo visual. A mala é aberta e vê-se dentro dela duas cobras vivas sobre um lençol branco. A artista procura retirar o lençol sem ser atingida pelas cobras. Ao retirá-lo, fecha a mala e abraça-se com o mesmo.
TAREFA I (1982, 2 min, Betamax)
A artista deita-se sobre uma tábua de passar e alguém passa roupa a ferro (com a artista dentro da roupa).
TELEFONE-SEM-FIO (em co-autoria com o grupo - 1976, 13 min, Porta-pack) O grupo de artistas, autores do vídeo (Ana Vitória Mussi, Anna Bella Geiger, Fernando Cocchiarale, Ivens Machado, Letícia Parente, Miriam Danowski, Paulo Herkenhoff, Sônia Andrade), brinca de telefone-sem-fio, fazendo a mensagem passar de ouvido a ouvido e observando a deformação que ela sofre.
MARCA REGISTRADA – Versão Colorida (1980, 10 min 30 seg, Betamax)
A autora costura, sobre a sola do pé, com agulha e linha preta, a inscrição "MADE IN BRASIL".
Créditos:
Conceito e Direção: André Parente
Assistente: Natalia Klein
Edição de Vídeos e Autoração: Swami Guimarães
Projeto Gráfico: Estúdio Márcia Cabral
Prensagem DVD: Sonopress
Impressão: Zen
Serigrafia Produção: MP2 Produções
Realização: N-Imagem (Núcleo de Tecnologia da Imagem da Escola de Comunicação da UFRJ)
Apoio: Allternativa Filme X, Estúdios Márcia Cabral, Itaú Cultural, Canal Contemporâneo, Forum de Ciência e Cultura.
Agradecimentos: Nilton Cacheado, Aída Marques, Márcia Cabral, Chaim Litewski, Roberto Moreira Cruz, Katia Maciel, Anna Bella Geiger, Sonia Andrade, Ivens Machado, Fernando Cocchiarale, Paulo Herkenhoff, Miriam Danowski, Ana Vitória Mussi, Lia Parente, Cristiana Parente, Pedro Parente, Angela Parente, Lucas Parente, Júlio Parente, Daniela Bousso, Angela Santos, Swami Guimarães.
Patrocínio: Petrobrás

quinta-feira, abril 03, 2008

Aula: Introdução ao estudo de Lacan

Segunda Aula
01 de abril de 2008
Jacques Lacan:

Os pais:
Émilie Philippine Marie Baudry e
Charles Marie Alfred Lacan.
(Descendentes de prósperos comerciantes e católicos fervorosos.)

Os irmãos
O casal, Émile e Charles, teve quatro filhos:
1º. Jacques-Marie Émile Lacan (13 de abril de 1901 - 9 de setembro de 1981)
2º. Raymond (faleceu aos dois anos)
3º. Madeleine (casada, em 1925, foi viver na Indochina)
4º. Marc-Marie (Marc-François) – monge beneditino (ordenado em maio de 1935)

A medicina:
Entre 1927 e 1931, estudou a clínica das doenças mentais e do encéfalo no hospital Sainte-Anne, e estagiou na enfermaria especial da Chefatura de Política, para onde eram levados com urgência os indivíduos “perigosos”.
“Ele participava, na cantina da sala de plantão, junto com alguns colegas, da aristocracia dos candidatos à chefia da clínica. Fazia suas refeições à ‘mesinha’ animada por Henri Ey, onde se empregava o vocabulário elegante da fenomenologia e se via com desprezo o velho organicismo de Édouard Toulouse.”

Os mestres da psiquiatria:
Durante sua formação psiquiátrica, três mestres muito diferentes deixaram em Lacan uma marca importante:
Georges Dumas: Titular da cadeira de psicopatologia da Sorbonne, foi um terrível adversário da psicanálise.
Henri Claude: Grande rival de G. Dumas, de quem rejeitava o antifreudismo, Henri Claude foi Chefe da clínica de doenças mentais no Hospital Saint-Anne.
Gaëtan Gatian de Clérambault: Médico-chefe da enfermaria especial dos alienados da Chefatura de Polícia até 1934, ano em que se suicidou. Clérambault é lembrado pela paixão pelos tecidos, pelos debruns e as pregas e por sua teoria da erotomania.


A tese: O caso Aimée
Aimée = Marguerite Pantaine
Desde 1931, Lacan começa a efetuar uma síntese, a partir da paranóia, de três domínios do saber: a clínica psiquiátrica, a doutrina freudiana e o segundo surrealismo. Essa síntese, que se apoiava sobre um notável conhecimento de filosofia – Spinoza, Jaspers, Nietzsche, Husserl e Bergson -, lhe permitirá elaborar a tese de medicina, que será sua grande obra da juventude.
Seu trabalho representava uma ruptura com os trabalhos dos psiquiatras franceses da época, que viam na psicose paranóica um agravamento dos traços que definiam o caráter paranóico.
Da descrição fenomenológica exaustiva de um caso, sua tese, dirá Lacan, levou-o à psicanálise; o único meio de determinar as condições subjetivas da prevalência do duplo na constituição do eu.
Numa grande síntese de todas as aspirações freudianas e anti-organicistas da nova geração psiquiátrica francesa dos anos 1920, esse trabalho foi imediatamente considerado uma obra-prima por René Crevel, Salvador Dali e Paul Nizan. Que apreciaram, principalmente, a utilização feita por Lacan dos textos romanescos da paciente e da força doutrinária de sua posição quanto à loucura feminina.
- Em 1933, Lacan defende sua tese: “Da Psicose Paranóica em suas relações com a Personalidade”.

O primeiro casamento:
Em 1934, casou-se com Marie-Louise Blondin (1906-1983), irmã de seu amigo Sylvain Blondin, apelidada Malou. Desde o início, o casamento foi desastroso. Malou acredita ter-se casado com um homem perfeito, cuja fidelidade conjugal estaria à altura de seus sonhos de felicidade. Ora, Lacan não era esse homem, nem nunca seria. Três filhos nasceram: Caroline, Thibaut, Sibylle.


O amor por Sylvia:
Em 1937, apaixonou-se por Sylvia Maklès-Bataille (1908-1993). Separada nessa época de Georges Bataille, mas continuando a ser sua esposa. Sylvia era mãe de uma menina, Laurence Bataille (1930-1986), que se tornaria uma notável psicanalista.
Quando a segunda guerra começou, Sylvia Bataille se refugiou na chamada “zona livre”. A cada quinze dias, Lacan a visitava. Em Paris, ele interrompeu toda sua atividade pública, recebendo apenas sua clientela particular. Sem pertencer à Resistência, manifestou claramente hostilidade a todas as formas de anti-semitismo. Entretanto, era principalmente com sua vida privada que ele se preocupava durante os dois primeiros anos de guerra. Em setembro de 1940, Lacan encontrou-se em uma situação insustentável. Anunciou à sua mulher legítima, que estava grávida de oito meses, que Sylvia, sua companheira, também esperava um filho. Malou pediu o divórcio imediatamente e foi em plena crise de depressão que deu à luz, a 26 de novembro, uma menina à qual deu o nome de Sibylle.
Oito meses depois, em 3 de julho de 1941, Sylvia deu à luz a quarta filha de Lacan, Judith. Judith foi registrada com o sobrenome de Bataille.
No início do ano de 1941, Lacan instalou-se na rue de Lille nº5. Ficaria ali até a morte. Em 1943 Sylvia se instalou no nº3 da mesma rua com suas duas filhas, Laurence e Judith. Em julho de 1953, divorciada de Georges Bataille desde agosto de 1946, casou-se com Lacan.



A Instituição Psicanalítica: o percurso de Lacan.
- Em 1910, Freud patrocinou a criação de uma Associação Internacional de Psicanálise - International Psychoanalytical Association (IPA) -, para congregar as sociedades psicanalíticas existentes, normatizar a formação dos psicanalistas e evitar distorções e descaminhos na psicanálise, com a expansão de sua prática.
Atualmente sediada em Londres, a IPA é o organismo que coordena todo o movimento psicanalítico mundial.

- Em 1926 foi criada a Sociedade Psicanalítica de Paris – SPP (uma sociedade filiada a IPA).

- Em 1934, aos 33 anos, Lacan pede sua filiação a Sociedade Psicanalista de Paris:

- De 1932 a 1938. Lacan faz analise com Rudolf Loewenstein.

Na SPP, Lacan atraiu muitos alunos, fascinados pelo seu ensino e desejosos de romper com o freudismo acadêmico da primeira geração francesa. Começou então a ser reconhecido ao mesmo tempo como didata e como clínico.
A partir de 1936, Lacan iniciou-se na filosofia hegeliana, através dos seminários que Alexandre Kojève (1902-1968) dedicou à “Fenomenologia do espírito”. E na filosofia de Husserl, através dos seminários de Alexandre Koyré (1892-1964).

- 1953 – primeira cisão.
O motivo do rompimento foi à decisão tomada pela Sociedade Parisiense de fundar um Instituto de Psicanálise, encarregado de ministrar um ensino regulado e diplomável, tendo como modelo o da faculdade de Medicina. Para Lacan, com a criação do Instituto, o ensino da psicanálise ficava confinada a um isolamento doutrinal.
Neste mesmo ano, Lacan pede sua demissão da SPP e perde sua qualificação de membro da Associação Internacional.

Ainda neste ano, funda com Daniel Lagache a Sociedade Francesa de Psicanálise – SFP, para onde se transferiu a maior parte dos alunos da antiga Escola.
A SFP solicita o seu reconhecimento a IPA. No ano seguinte – 1954 – o pedido é rejeitado.
Em 1959 há uma nova solicitação de filiação. A IPA impõe, para o reconhecimento da SFP, que Lacan e Françoise Dolto não fossem reconhecidos como analistas didatas.

- A segunda cisão (“excomunhão”, como diria Lacan) do movimento psicanalítico ocorreu durante o inverno de 1963. A SFP se divide em dois grupos e foi dissolvida. Um grupo ratifica o ultimato da IPA e cria a Associação Psicanalítica Francesa – AFP. Lacan não figura mais na lista dos membros efetivos habilitados à análise didática e à supervisão.

Em 1964, Lacan fundou a Escola Freudiana de Paris EFP, enquanto a maioria de seus melhores alunos se posicionou ao lado de Lagache, na Associação Psicanalítica da França (AFP), reconhecida pela IPA. Na reunião de abertura da Escola, Lacan lê sua proposição - Ato de Fundação - que inicia com a famosa frase: “Fundo - tão sozinho quanto sempre estive em minha relação à causa psicanalítica – a Escola Francesa de Psicanálise.”

Obrigado a deslocar seu seminário, Lacan foi acolhido, graças à intervenção de Louis Althusser, em uma sala da École Normale Supérieure (ENS), onde pôde prosseguir seu ensino.
Na ENS, Lacan conquistou um novo auditório, uma parte da juventude filosófica francesa, à qual Althusse confiou o cuidado de trabalhar seus textos. Entre eles, encontrava-se Jacques Alain Miller, que se casou com Judith Lacan em 1966. Tornou-se redator dos seminários do sogro, seu executor testamentário e o iniciador, a partir de 1975, de uma corrente neolacaniana no próprio interior da EFP.Em 1965, com o estímulo da François Wahl, Lacan fundou a coleção “Champ Freudien” nas Éditions du Seuil e, no ano seguinte, em 15 de dezembro de 1966, publicou os Escritos.
Confrontado com as dificuldades de uma instituição gigantesca, Lacan tentou resolver os problemas de formação com a introdução do passe, novo procedimento de acesso à análise didática. Aplicado a partir de 1969, provocou a partida de um grupo de analistas oponentes, que formaram uma nova escola: a Organização Psicanalítica de Língua Francesa (OPLF) ou Quarto Grupo. Essa cisão, a terceira da história do movimento francês, marcou a entrada da EFP em uma crise institucional que resultou em sua dissolução a 5 de janeiro de 1980, e depois na dispersão do movimento lacaniano em cerca de vinte associações.
Neste mesmo ano – 1980 -, funda a Escola da causa Freudiana.

O ensino
Pré-ensino: 1936 a 1952
Em seus textos, desse período, Lacan se ocupa em redefinir o narcisismo freudiano a partir da sua formulação do estádio do espelho, de definir o sujeito como sujeito articulado com o sentido, e de algumas de suas formulações que introduzem a lingüística como ciência-piloto de seu trabalho.
Neste primeiro momento, seus escritos estão ligados à teoria freudiana, mas carecem da radicalidade do retorno a Freud; terão antecipado “a inserção do inconsciente como linguagem, mas carecem da lingüística de Saussure, que permite ao Lacan de 1953 dar estrutura de linguagem ao inconsciente; e conseguem um grande desenvolvimento do registro imaginário, mas fracassam em definir os registros simbólico e real.
1951: Intervenção sobre a Transferência. “A psicanálise é uma experiência dialética”. Com este texto, inicia a primeira dobra do Ensino de Lacan.

Primeiro movimento do Ensino de Lacan 1953 – 1970
Em seu escrito Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise (1953) e no seminário 1 Os escritos técnicos de Freud (1953-54), Lacan deixa de balbuciar noções estruturalistas e assume o conceito de estrutura que encontra nos primeiros textos de seu amigo Claude Lévi-Strauss. Juntamente com o conceito de estrutura, Lacan assume também as conseqüências teóricas implicadas neste conceito – ou seja, a lingüística de Ferdinand de Saussure como ciência-piloto e a oposição binária da fonologia de Roman Jakobson como modelo estrutural.


Segundo movimento: 1970 - 1980
O segundo período, que se anuncia no Seminário livro XVIII – D’um discours quin e serait pas du semblant, adquire sua força argumentativa a partir do Seminário livro XX – Mais, ainda. Neste segundo período Lacan se afasta do estruturalismo, porque rompe com o seu passado saussuriano. A lingüística deixa de ser o saber referencial, a estrutura deixa de ser uma ordem transcendente que captura o vivente impondo-lhe a sua legalidade. O que estará em jogo, neste segundo tempo do seu ensino, não é mais o binarismo diferencial que toda teoria estrutural implica, mas antes, a radicalização do unário como único. No começo não há dois, não há a estrutura como sistema diferencial, não há deriva. No começo há um, é o que afirma Lacan no Seminário XX. Por isso, o problema que apresenta este segundo período é como do um, do único, do diferencial, surge à estrutura como semblante, como aquilo que faz crer que há dois quando, na realidade, há um.

JUDITH BUTLER E PSICANÁLISE

Conversando sobre psicanálise: entrevista com Judith Butler Patrícia Porchat Pereira da Silva Knudsen Univer...