quarta-feira, junho 11, 2008

Nelson Rodrigues: Fragmento




De fato, o futebol brasileiro tem tudo, menos o seu psicanalista. Cuida-se da integridade das canelas, mas ninguém se lembra de preservar a saúde interior, o delicadíssimo equilíbrio emocional do jogador. E, no entanto, vamos e venhamos: - já é tempo de atribuir-se ao craque uma alma, que talvez seja precária, talvez perecível, mas que é incontestável. (...)
(...) E aqui pergunto: - que entende de alma um técnico de futebol? Não é psicólogo, não é psicanalista, não é nem mesmo um padre. Por exemplo: - no jogo Brasil x Uruguai entendo que um Freud seria muito mais eficaz na boca do túnel do que Flávio Costa, um Zezé Moreira, um Martim Francisco. Nos Estados Unidos, não há uma Bovary, uma Kerênina que não passe, antes do adultério, no psicanalista. Pois bem: - teríamos sido campeões do mundo, naquele momento, se o escrete houvesse freqüentado, previamente, por uns cinco anos, o seu psicanalista.


Assim falou Nelson Rodrigues...
em abril de 1956.

domingo, junho 08, 2008

Dossiê Jacques Lacan - Cult






"O Sofrimento na Contemporaneidade"


O “Dossiê Jacques Lacan” elaborado pela revista Cult – junho/2008 – está de parabéns. São sete ótimos textos que transitam com delicadeza pela extensa e densa floresta conceitual desenvolvida por Lacan ao longo de seus muitos seminários e textos.


Vlademir Safatle inicia o dossiê com uma declaração que, por certo, provocará algumas querelas. Segundo Safatle, talvez seja impossível entender o início do século 21 sem passar por Lacan. “Não apenas devido à maneira com que, atualmente, conceitos seus são mobilizados para dar conta de questões maiores no interior da política, da teoria social, da filosofia, da crítica da cultura; mas também devido à maneira com que autores fundamentais para a contemporaneidade, como Michel Foucault, Gilles Deleuze, Jacques Derrida e, mais recentemente, Alain Badiou, Judith Butler, Ernesto Laclau, Slavoj Zizek construíram suas questões em confrontação e diálogo com Lacan”.

Já em “Revolução na Clínica”, Christian Ingo Lenz Dunker mostra porque a psicanálise não é uma terapia: quando a terapia termina, a análise começa.
No terceiro texto, Richard Theisen Simanke, provavelmente provocado por um dos últimos textos de Badiou, discute a antifilosofia na obra de Lacan.

Logo em seguida, Tânia River apresenta, em “Estética e descentramento do sujeito”, a influência da arte no pensamento lacaniano, e a influência do pensamento lacaniano no modo de pensar a estética contemporânea.

Em “Política, classe e singularidade”, Antônio Teixeira demonstra, com maestria, como a psicanálise pode articula a singularidade da clínica ao universal dos discursos.

O texto de Slavoj Zizek – Não existe grande Outro – fecha o dossiê em grande estilo. Para esse filósofo, com a releitura lacaniana da obra de Freud, a psicanálise continua sendo uma referência importante para nos orientar diante das inúmeras escolhas morais da atualidade.

Ao final da leitura do dossiê só nos resta gritar BRAVO, e pedir bis.