quinta-feira, fevereiro 02, 2012

A Casa dos Budas Ditosos: a Luxúria, a Mulher, o Gozo Fálico

Para os que ainda não leram o romance A Casa dos Budas Ditosos, de João Ubaldo Ribeiro, lembramos que esse romance faz parte da Série Plenos Pecados, uma sequência de narrativas sobre os sete pecados capitais, publicada pela Editora Objetiva.

Os autores convidados a fazer parte dessa Série tiveram que escolher um dos setes pecados como tema. O pecado sobre o qual João Ubaldo debruçou-se foi o da luxúria. A luxúria, nos diz o dicionário Houaiss, é o comportamento desregrado com relação aos prazeres do sexo, a superabundância, o excesso de ardor e a demasiada fogosidade.

O autor conseguiu, em nosso modo de ver, colocar todos esses traços em sua personagem. Esta senhora de 68 anos, que nos conta sobre a sua vida sexual, é exatamente assim: desregrada com relação aos prazeres do sexo, superabundante no número de parceiros, tem excesso de ardor e é demasiadamente fogosa.

O romance é dedicado às mulheres. Aí, acreditamos, o autor comete um pecado. O discurso dessa personagem não é conduzido dentro da lógica do gozo feminino, mas antes, pela lógica do gozo fálico. E a lógica fálica, de acordo com a psicanálise lacaniana, é a lógica masculina, ou melhor, é o lugar ocupado pelo discurso do masculino.

Mas, sejamos justos, se a lógica fálica constituí um lugar, uma função, ela pode ser ocupada tanto por homens quanto por mulheres. As boas histéricas nos comprovam essa possibilidade a todo instante. Comprovam, também, que a posição sexual de um sujeito nada tem a ver com o biológico. Que no inconsciente não há representação da diferença sexual e que a diferença sexual, para a psicanálise lacaniana, é dada por uma lógica discursiva.

João Ubaldo inicia seu romance fazendo um jogo com o leitor. Dissemos inicia, pois vemos suas primeiras palavras, endereçadas ao leitor, como o primeiro capítulo desse romance ficcional. No entanto, o jogo proposto pelo autor consiste em colocar o romance de ficção como um romance de memória. A partir desse momento, a ficção passa a ser narrada em primeira pessoa e nós, leitores, nos tornamos cúmplices das memórias eróticas dessa libidinosa senhora.

Esta cumplicidade nos provoca a pensar sobre a sexualidade feminina e para falar sobre o tema da sexualidade feminina, acreditamos que nada é mais ilustrativo, do que o mito de Tirésias. Lembremos que, na mitologia Grega - diz Junito de Souza Brandão -, Tirésias era cego e possuía o dom da adivinhação. Era um profeta, dotado do poder da predição. A cegueira e o dom da adivinhação de Tirésias eram consequência de um castigo e de uma compensação.

Vejamos como isso se deu. Conta-se que ao atingir a época das provas de caráter iniciático pela qual passavam todos os jovens, Tirésias se dispõe a fazer uma longa caminhada. Ao longo do percurso dessa caminhada, teve que escalar o monte Citerão, o mesmo monte, conforme sabemos, em que Édipo foi abandonado. Ao iniciar a subida, depara-se com duas serpentes que se acoplavam num ato de amor. O jovem Tirésias as separou, ou conforme outra versão desse mito: matou a serpente fêmea. O resultado dessa intervenção foi desastroso: o jovem se tornou mulher. Sete anos mais tarde, subiu o mesmo Citerão e, encontrando cena idêntica, repetiu a intervenção anterior: matou a serpente macho e recuperou seu sexo masculino. Desse modo, Tirésias era alguém que tinha a experiência dos dois sexos. Sua desventura o tornou célebre.

Um dia no Olimpo, Zeus discutia acaloradamente com sua esposa Hera. O objetivo de tal discussão girava em torno do amor. Quem teria maior prazer num ato de amor, o homem ou a mulher? Buscando dirimir tal dúvida, foi chamado aquele que tinha experiência de ambos os sexos. Tirésias, ao ser questionado, respondeu sem hesitar, que, se um ato de amor pudesse ser fracionado em dez parcelas, a mulher teria nove e o homem apenas uma. Hera, furiosa, o cegou, porque havia revelado o grande segredo feminino e sobretudo porque, no fundo, Tirésias estava decretando a superioridade do homem, causa eficiente dos nove décimos do prazer feminino. Hera compreendeu a resposta patrilinear do adivinho tebano: ao dar-lhe a vitória, nove décimos de prazer, estava, na realidade, traçando um perfil da superioridade masculina, da potência de Zeus, simbolizando todos os homens, únicos capazes de proporcionar tanto prazer à mulher. Para compensar-lhe a cegueira e por gratidão, Zeus concedeu-lhe o dom da adivinhação, da profecia, e o privilégio de viver sete gerações humanas.

O que nos interessa ressaltar nesse mito é a diferença entre o gozo da mulher e o gozo do homem apontado por Tirésias. A interpretação da resposta, dentro da lógica patrilinear, perde consistência a partir da constatação lacaniana de que “a relação sexual não existe”. Para a teoria lacaniana, há, para cada um dos parceiros, um gozo que está suspenso ao do outro, mas os gozo não se entrecruzam. Nenhuma relação, nenhuma medida comum pode inscreve-se entre o gozo masculino e o gozo feminino.

A teoria psicanalítica freudiana, que teve início nas últimas décadas do século XIX, limitou-se a mostrar a diferença da mulher através da diferença anatômica, considerando que ela estava marcada por um menos e que sua castração era efetiva, propondo como significação fundamental desse “não ter” o que denominou sob o termo alemão penisneid – inveja do pênis. Por isso, diz Jacques-Alain Miller, dirigiu a investigação analítica no sentido de encontrar os “bens” que poderiam preencher essa falta. A solução encontrada por Freud, para a mulher, foi a de que deveria tornar-se mãe, ter um filho. Ou seja, uma solução ainda do lado do ter, do gozo fálico.

Desse modo, em Freud, toda definição de feminilidade é a definição de um “ser relativo”, pois centrar a subjetividade feminina na inveja do pênis é inscrevê-la, já de início, como um ser que se refere ao outro. A referência é ter o do outro, e, no fundo, ser alguém que gostaria de ser outra pessoa.

No entanto, quando, no final de sua vida, Freud se perguntou o que quer a mulher?, essa questão, de certo modo, foi uma maneira de reconhecer que a sua tese anterior, na qual afirmava “ela quer o falo”, não era suficiente. Ao fazer essa indagação, Freud não recusou sua tese, mas mostrou que se tratava de uma tese parcial.

Lacan buscaria, a partir daí, uma resposta para a questão do gozo propriamente feminino, um gozo que não é regulado pelo falo, um gozo além do falo. Esta posição de gozo estaria do lado do ser e não do ter. Consiste em não preencher a falta, mas antes, em ser a falta. Ou seja, “fabricar-se um ser com o nada”.

Assim, a teoria psicanalítica lacaniana define a posição feminina, não mais em função da inveja do pênis, mas a partir do que podemos chamar seu ser sexuado, ou seja, as características de seu gozo. A mulher é ultrapassada pelo gozo. O gozo feminino varre o sujeito, ultrapassa-o, não o identifica, e, nesse sentido, redobra o esvaecimento do sujeito em face do objeto. Isso faz com que os nomes das posições subjetivas femininas girem em torno de uma relação especial com o gozo, um gozo que já não tem a medida fálica, caracterizado como “mais-além do falo”, suplementar e não complementar ao gozo masculino.

Eis porque as mulheres suportam melhor a frigidez do que os homens a impotência, elas não identificam sua feminilidade pelos seus orgasmos. Mesmo quando não é frígida, uma mulher pode, contudo, duvidar ser uma verdadeira mulher. O gozo feminino fica fora do campo do “ter fálico”, o que a leva mais além no caminho da devoção do amor.

Conforme Lacan, é porque o gozo a ultrapassa e não a identifica que a mulher se esforça para se identificar através do amor de um homem, esperando que o amor dele lhe dê um valor fálico, que se tornará identificatório, ou seja, que a identificará como “mulher de”, “amante de” e, talvez, “musa de”. A partir desse viés, Lacan deduz a função do amor para a mulher.

Por seu lado, o gozo fálico funciona no campo do narcisismo sexual, chegando a ser quase idêntico de si mesmo. É sobretudo do homem e no homem que há essa conjunção de gozo e satisfação narcísica, a ponto de ele quase não suportar a impotência sexual, a falha do gozo fálico no ato sexual. O gozo fálico identifica o sujeito, mostra o grau de seu valor para si próprio para seus parceiros.

Assim, podemos compreender que a divisão do sujeito face ao sexual, na teoria lacaniana, não é uma divisão entre dois sexos, mas entre dois gozos, um “todo-fálico”, outro “não-todo”, o primeiro fazendo surgir o outro como seu mais-além. Isto significa que no gozo feminino há uma parte que não pode fixar-se ou localizar-se com o significante, portanto, que não pode revelar-se. “Há um gozo dela sobre o qual talvez ela mesma não saiba nada a não ser que o experimenta – isto ela sabe”.

A lógica fálica constrói o discurso do “eu tenho” como modo de subjetivação do órgão genital masculino. “Eu tenho” pode ser compreendido, por um lado, como o sentimento que dá ao homem a superioridade de proprietário de um bem, mas, por outro lado, isso gera o medo que lhe roubem o seu bem, produzindo a covardia masculina, que contrasta com o “sem limite” feminino. Essa lógica discursiva permite também, aos homens, a construção da famosa lista de conquistas. A mais famosa delas, é claro, pertence a Dom Juan, um grande personagem construído dentro da lógica fálica, cuja lista de conquistas levaria um dia inteiro para ser anotada.

A partir do discorrido até aqui, voltemos, finalmente, nosso olhar para o discurso da ditosa personagem de João Ubaldo Ribeiro. Pois, nele encontramos um ótimo exemplo do que pode ser o discurso fálico feminino:

Ambivalências, sempre fui muito ambivalente. Não pareço, mas sou, é uma condição bastante interna, mas sou; ninguém diz, mas sou. Por exemplo, além de ter saudades do tempo das coxas... Ainda vou contar algumas aventuras do tempo das coxas, tenho material para duas guerra-e-pazes. Passagens espetaculares, uma vez com padre Misael em pleno colégio de freiras, outra vez com meu noivo Mauricio na porta do apartamento onde estavam dando uma festa, e eu gozando como vinte ambulâncias desgovernadas, outra vez com meu tio Afonso no banheiro, e minha tia Regina, mulher dele, querendo entrar, ah, e essas são somente algumas, são assim as que me vêm à cabeça, de momento.

Como vemos, nossa personagem também faz sua listinha, que na verdade não é tão pequena assim, já que daria para escrever duas “guerra-e-pazes”.

Divertido, irônico, pornográfico, cínico. Eis alguns dos adjetivos com os quais poderíamos classificar o romance de João Ubaldo. Um texto cuja forma discursiva nos remete a pensar sobre a questão da dessublimação da linguagem literária contemporânea. Mas aí, já estaríamos em um outro campo, que é o campo dos gêneros literários, sobre o qual este romance nos provoca.


Referências Bibliograficas:

LACAN, Jacques, Seminário, livro 20, Mais ainda, Editora Jorge Zahaar, Rio de Janeiro, RJ, 1982.
MILLER, Jacques-Alain, Del edipo a la sexuacioón, 1a. ed. Ed. Paidós, Buenos Aires, Argentina, 2001.
RIBEIRO, João Ubaldo, A casa dos Budas Ditosos, Ed. Objetiva, Rio de Janeiro,RJ, 1999.
SILVA, Maria A. Leite Holthause da, Cinismo - Forma de Vida, Modo de Gozo, Dissertação de Mestrado, UFSC, Florianópolis, 2001.


Maria Holthausen
Trabalho apresentado em 2002,  no Encontro Internacional
Fazendo Gênero V Feminismo como Política

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