segunda-feira, março 12, 2012

Lançamento



Entrevista com Antonio Quinet

Por que decidiu pesquisar o outro na obra de Lacan e como foi esse percurso?
Tomei a liberdade de salientar a importância do conceito de alteridade na psicanálise, que foi tão desenvolvido por Lacan, concomitante ao conceito de sujeito. Não há sujeito sem o outro, em qualquer ponto que se tome na teoria lacaniana. Esse atrelamento do sujeito com a alteridade é o que constitui a dor a a delícia de cada um na sua relação com os outros - tão complexa e tão fundamental. Os outros não são apenas um inferno, como afirmou o personagem de Sarte em Huis clos, mas também o purgatório, o céu, a terra, o ar e a a água. Uso aqui essa metáfora, para acentuar a diversidade e a multiplicidade do que constitui a alteridade para o humano.
A ideia deste texto veio do convite que recebi para inaugurar as conferências preparatórias de Jacques Derrida no Brasil. Eu queria fazer dialogar os diferentes conceitos do outro em Lacan com o que Derrida propõe - a partir de sua leitura do texto de Freud "Porque a guerra?" - a respeito da "abertura para a chegança do outro, como um outro radicalmente outro em sua diferença absoluta". Ali estava o embrião deste livro.

Por que selecionou essas cinco modalidades de outro?
Porque são essas modalidades da alteridade que encontrei sistematizadas no ensino de Lacan. Ele começa com a diferença entre o pequeno outro, meu semelhante, e o grande outro, o lugar da alteridade com que se manifesta para cada um seu inconsciente. Esse grande Outro, é formado, para cada um, por todos os outros que ocuparam para você um lugar importante na sua infância: mãe, pai, avô, avó, um professor, uma babá etc... Ou melhor, esse outro, que é o lugar do inconsciente, é constituído pelas palavras marcantes desses outros. Ele vai determinar as escolhas, os sintomas, os desejos do sujeito. Ao longo do ensino de Lacan, ele vai mudando o enfoque: conceitualiza o objeto a, que é o que ele considerou "a sua grande contribuição à psicanálise". Trata-se do objeto que causa o desejo e que ao mesmo tempo pode provocar angústia. É o objeto pulsional que transforma o outro, seu semelhante, num ser desejável e que lhe faz querer olhá-lo, ouvir sua voz, tocá-lo, beijá-lo, enfim, satisfazer todas as sua pulsões sexuais com ele. Mas esse mesmo objeto, pode se destacar do outro e se tornar fonte de angústia, de perseguição, de vontade de pular fora, de se esconder, fugir etc.. O sujeito pode então se sentir olhado e criticado pelo que Freud chamou inicialmente de a voz da consciência e mais tarde de supereu (superego). Essa uma forma de alteridade dentro/fora do sujeito é a modalidade do objeto a - como olhar e voz - que provoca angústia pois o sujeito se sente vigiado, medido e pesado e o resultado é sempre negativo.

Aprender a lidar com o olhar desse outro é uma forma de trabalhar sua própria auto-imagem?
O que eu mostro no livro é que a dita "auto-imagem" não é tão "auto" assim. A imagem é hetero, vem do outro e o sujeito a toma para si. A auto-imagem é constituída pelos ideais paternos que vão moldando a criança conforme seu próprio narcisismo - para que os filhos sejam o que não conseguiram ser, o que sejam a cópia fiel deles mesmos. Esses ideais vão compor um eu-ideal com o qual o sujeito vai se comparar e tentar se igualar a vida toda. Quando vira adulto, o pais não estão mais presentes, mas seus ideais sim, pois foram incorporados. O olhar do supereu mede o sujeito e o compara com esse ideal. A saída é a análise: onde o indivíduo se dá conta que esses ideais que pensava serem seus, são, na verdade, do outro. E isso transforma sua relação com a imagem e o sujeito se distancia desses ideias e de sua obrigatoriedade.

O outro desejado, o outro odiado, o outro semelhante. Todos fazem parte de projeções do próprio sujeito?
Não são apenas projeções, pois os parceiros do sujeito não se reduzem a cópias de seus egos. Você pode odiar o outro justamente por ele não corresponder ao eu-ideal que você procura no outro para complementá-lo. O seu semelhante, por um lado, é rival e competidor, por outro lado, você estabelece laços sociais determinados com vários semelhantes com os quais faz determinadas atividades. Entramos aí na quarta modalidade da alteridade: o outro do laço social, que Lacan chama de discurso. Esse vínculo é fundamental para se poder viver em sociedade, e para tal é necessário, muitas vezes, abrir mão das paixões e dos afetos. Freud dizia que a civilização exige a renúncia pulsional. Com Lacan, percebemos que para que haja vínculos de qualquer instituição, ou de ensino, ou de funcionamento burocrático é necessário que o outro não se reduza a um objeto para seu gozo próprio. Lacan formaliza quatro laços sociais cujos paradigmas são: governar, ensinar, psicanalisar e fazer desejar. E mais além, já no final de seu ensino, ele traz mais uma alteridade: o Heteros, o Outro gozo, que ele identifica com o gozo feminino, sem bordas, não regido e não limitado pela norma fálica, para além do poder e do saber e que tampouco se reduz aos objetos pulsionais. Se o paradigma desse Outro é o feminino, podemos extrair daí uma lógica de Heteros, como radicalmente outro, o diferente por excelência, o que sai totalmente da mesmidade, o oposto do mesmo, e do conhecido - o totalmente estrangeiro. Poder receber esse outro que goza à sua maneira e que é totalmente diferente da minha eis a verdadeira abertura para o outro, que chega de repente sem lenço e sem documento.

Fonte: Site da Editora Zahar

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