quinta-feira, novembro 16, 2017

O inconsciente e o Tempo em Psicanálise



                           

                  O sujeito, o inconsciente e o tempo.


Entrevista com COLETTE SOLER
realizada por Dominique Fingermann e Maria Rita Kehl. 


Colette Soler, psicanalista lacaniana de grande projeção na França e em outros paí­ses, esteve em São Paulo em julho de 2008, por ocasião do V Encontro Internacional dos Fóruns do Campo Lacaniano, que teve como tema “Os tempos do sujeito do inconsciente”. Formada em psicologia, doutora em filosofia a com tese sobre Rousseau, que lhe valeu a docência na École Normale Supérieure e nas Universidades de Paris VII e VIII, Colette Soler optou pela psicanálise depois de seu encontro com o ensino de Jacques Lacan, na década de 1970, quando também fez sua análise com ele. Esteve junto com Lacan, primeiro como membro da lendária École Freudienne de Paris e, depois de sua dissolução, na Escola da Causa Freudiana. É idealizadora e mem­bro fundador da Internacional dos Fóruns e da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, onde leciona. É autora de diversos livros sobre psicanálise, muitos dos quais traduzidos no Brasil, nos quais não se furta a contribuir para a compreensão da subjetividade contemporânea. Entre eles, cabe citar: A psicanálise na civilização (1998), Variáveis do m da análise (1995), O que Lacan dizia das mulheres (2005) e o mais recente, O inconsciente a céu aberto da psicose (2007). 
MARIA RITA KEHL (MRK): Devemos a sua vinda ao Brasil ao Encontro Internacional dos Fóruns do Campo Lacaniano “Os tempos do sujeito do inconsciente”. Como e por que esse tema foi escolhido? Em sua opinião, os tempos do sujeito sofrem, de uma maneira ou de outra, os efeitos da aceleração contemporânea do tempo social? 
COLETTE SOLER (CS): No fundo, você me pergunta se o inconsciente do sujeito apressado da civilização de hoje é também um inconsciente apressado. Bem, não, eu lhe diria que o inconsciente nunca está apressado. Freud dizia mesmo que ele, o inconsciente, não conhece o tempo. Seria melhor dizermos que ele tem todo o tempo, porque ele não pára nunca, não importa o que aconteça, de fabricar o lapso e os sintomas que comandam o gozo dos sujeitos, a despeito deles próprios. Trabalhador ideal, nunca em greve, dizia Lacan. 
O impaciente nunca é o inconsciente, mas o sujeito que gostaria de resolver suas dificuldades às pressas, para se encontrar pronto para o ataque no regime daquilo a que chamei de a competição “narcínica” de hoje. 
DOMINIQUE FINGERMANN (DF): Como podemos entender o que Lacan disse quando ele ressalta que a psicanálise deve alcançar a subjetividade de sua época? 
CS: Quando esse sujeito entra no consultório do psicanalista, com ele entra tam­bém aquilo a que Freud chamou de mal­-estar na civilização e, Lacan, de “a subjetivi­dade da época”. Ela quer, hoje, que se ande rápido, sem muito custo e, sobretudo, que se seja rentável. Nada contra isso! Mesmo porque essa subjetividade da época gostaria também de todo o contrário: ser liberada das normas de mercado e imperativos com­petitivos que alienam o sujeito. 
Inclusive, será que a demanda é mais impaciente hoje do que ontem? Divirto­-me ao constatar que as queixas sobre a análise excessivamente longa datam dos passos iniciais de Freud, quando as análises duravam alguns meses, quiçá algumas semanas. Essas queixas não pararam desde então. De fato, nunca houve sujeito pré­-adaptado ao discurso analítico. Entretanto, está a cargo do analista introduzir nesse discurso aqueles que ele encontra, seja em seu consultório ou fora dele, em instituições. 
Isso não pode ser feito sem levar em conta as formas atuais do superego social que, entre outras coisas, comanda uma gestão do tempo desconhecida pelas sociedades clássicas.

DF: Quando se diz “sujeito do inconsciente”, o que se quer dizer? Haveria uma relação diferente do tempo para o sujeito do inconsciente e para o sujeito do pensamento consciente (que sofre desde sempre), do tempo que passa, inapreensível e irreversível, numa sucessão de antes e depois do nascimento até a morte? 
CS: O tempo real, inexorável e que arrasta todas as coisas, certamente não depende nem da linguagem, nem do discurso, mas não sofremos disso a não ser a partir do discurso e de seus valores. Um exemplo simples nos faz compreende­-lo: é o envelheci­mento. Ele é organicamente inexorável, mas na atualidade ele se converteu em motivo de grande sofrimento, por causa do discurso atual que faz da juventude um trunfo. Ao contrário, nas sociedades tradicionais das quais podemos ter conhecimento, não se sofria da mesma forma de envelhecimento, pois, pelo contrário, ele aproximava o homem de seu mais alto valor social. 
MRK: Concordo, o tempo real é a dimensão real do tempo. O tempo social, regulado segundo a regulação do trabalho e da vida social é, na minha opinião, o tempo simbólico, o tempo do Outro. Eu diria que o tempo da memória é o tempo imaginário. Como você pensa que a sociedade contemporânea faz o nó entre essas três dimensões do tempo? 
CS: Eu não diria totalmente dessa forma. Toda sociedade, com os indivíduos que ela agrupa, é comandada pelos “semblantes” imaginários e simbólicos, a memória aí inclusa. “Não há discurso que não seja do semblante”, diz Lacan e por “discurso” ele designa precisamente o laço social. A sociedade atual não faz exceção, seu poder de irrealização é até mesmo muito excepcional. Certamente, os semblantes atuais não são os da época clássica, pois hoje são os semblantes ligados ao do mercado que fazem sucesso; mas a própria mercadoria é tecida pelos semblantes ao ponto que, na maior parte das vezes, seu valor de uso, uso de gozo, confunde­-se com seu valor de troca. 
DF: Diz-se que o Discurso da Ciência foraclui o sujeito; como podemos explicar isso ao leitor que, via de regra, aproveita bem aquilo que a ciência permite produzir como bem-estar generalizado em nome da globalização da produção e dos mercados? Em que o progresso dos tempos pode prejudicar a subjetividade? 
CS: Isso quer dizer que a ciência visa um saber no real, do qual a fórmula de Newton é a façanha originária, e um saber no real é um saber que não leva em conta as diversidades subjetivas. Pode-­se igualmente dizer que ele foraclui a verdade, na me­dida em que a verdade não é a exatidão, mas que ela é própria a cada um. E o mesmo é válido para as ciências que são ditas humanas: por suas estatísticas, elas visam àquilo que há de transindividual e que curtocircuita as singularidades. 
Pense na oposição bem banal entre aquilo que chamamos de objetivo e subjetivo. O objetivo, acredita-­se, é aquilo que vale para todos, sem consideração das singula­ridades individuais. Nós o identificamos facilmente à razão, ao passo que o subjetivo não valeria porque ele não vale para todos. 
A psicanálise visa às subjetividades. Ela não é a única, como é o caso também das religiões, da literatura, das artes, etc. O inconsciente que preside tanto as fantasias quanto os sintomas é individual, próprio a cada um. 
Mas a grande descoberta de Freud, relançada e exaltada por Lacan, é que o mais subjetivo não é o irracional, que a verdade singular não é nem insondável, nem anár­quica e que ela engaja também um real. A ciência foraclui o subjetivo, mas a psicaná­lise não foraclui o real, que lhe é próprio. 
DF: Como você diferenciaria para nossos leitores este “saber no real” que a ciência visa, e esse real implicado pela verdade subjetiva singular? 
CS: O real em jogo na psicanálise diz respeito ao sexo. Freud descobriu que se podia dar um sentido sexual a qualquer sonho, assim como a qualquer palavra, ação, enfim, mais ou menos para qualquer coisa. Mas isso não faz um pansexualismo, como se acreditou, pois se o sentido sexual está em todo lugar, o sexo em si, não está em lugar algum. 
A ciência se assegura do real pelo intermédio daquilo que escreve. Na psicanálise, é o inverso: a impossibilidade de escrever a relação sexual constitui “o real próprio” do inconsciente. É sobre essa foraclusão daquilo que faria relação de gozo, sobre essa falta central, que o inconsciente constrói aquilo que supre para assegurar a relação com o parceiro, fantasia e sintoma. 
MRK: Em seu último livro publicado no Brasil O inconsciente a céu aberto da psi­cose (2007), você retoma Lacan para referir-se à necessidade de uma certa restauração do imaginário na psicose. Gostaria que você desenvolvesse um pouco essa proposta, de maneira que o leitor interessado pela psicanálise, mas não necessariamente psicanalista, pudesse compreender de que se trata. 
CS: A questão é um pouco técnica. Creio que seja preciso primeiro lembrar que do começo ao fim de seu ensino Lacan utilizou três categorias: Imaginário, Simbólico e Real. 
O imaginário inclui o registro da imagem, das imagens, no coração das quais a imagem narcísica do corpo tem uma importância específica. E eis um fator que mudou ao longo do tempo: o lugar, a função da imagem narcísica, nuca foi tão cultivado quanto se faz hoje em nossa civilização cosmética, se assim posso dizer, “assessorada” pelas técnicas cirúrgicas. Entretanto, o imaginário não se reduz à imagem. Ele inclui igualmente o conjunto de significações que produzem o discurso e, nesse sentido, um discurso é um aparelho que produz significações partilhadas. 
Concretamente, o que é que um delírio paranóico, senão uma série de significações  que a psiquiatria pôde qualificar como “pessoais”, isto é, próprias ao delirante, que o subtrai às significações partilhadas e da qual o sujeito não se desprende? Admite­-se sem dificuldades que se trata de uma produção imaginária singular. 
Mas nem todas as psicoses são desse tipo. Com o sujeito esquizofrênico é o con­trário. Ele trata as palavras como se fossem coisas. É a expressão de Freud, o que, em termos lacanianos, quer dizer que para esse sujeito “todo o simbólico é real”; fora de sentido, portanto. A deriva esquizofrênica nas línguas, que já produziu tanta literatura, é uma deriva gozosa que curtocircuita o imaginário comum sem passar pelo delírio. Evidentemente, ela é sem consideração para os semelhantes e, às vezes, mesmo para a segurança do sujeito. Daí um eventual chamado a uma restauração de uma base de significações comuns. 
MRK: Você sugere, num artigo publicado numa coletânea de textos sobre as melancolias, que as condições do mal-estar na civilização não são mais as mesmas que na época de Freud. No lugar desse excesso de renúncia pulsional que caracterizava o início do século XX, hoje, a sociedade é comandada por uma abundância de “oferta de gozo”: o consumo (oral), a acumulação (anal), o olhar onipresente, a voz por toda parte. Mas a essa nova abundância correspondem “novos males”. Entre eles: as depressões. Gostaria que você abordasse, a partir da psicanálise, a diferença entre as depressões, que me parecem figurar entre os sintomas sociais do século XXI, e o conceito freudiano de melancolia. 
CS: Você resume bem o que eu diria. De fato, a noção de depressão, tão em voga hoje, é mal constituída: muito vaga, um saco de gatos no qual são colocadas coisas bem heterogêneas; e considerada, além disso, como uma doença. 
Para um sujeito afligido ou desencorajado por um fracasso, abatido por um luto ou que se sente à margem da competição mercantil, da corrida pelo sucesso – aquele na qual a solidão tinge­-se de tristeza, que se deixa abalar pelo golpe do tempo que passa, etc –, anuncia­-se desde então que ele está... doente! Vejam imagem do humano que se perfila por trás desse diagnóstico, montado, além disso, pelos laboratórios farma­cêuticos: é o homem­-robô que os avatares da vida deixariam impávido. Melhor dizer: indiferente a tudo, todo ocupado com sua ascensão promocional e com sua marcha adiante. 
Você tem razão, são sintomas, isto é, respostas dos sujeitos aos males que se mul­tiplicam no novo século. Tratá-los como doenças é subtrair­-lhes todo o valor de ver­dade e operar uma segregação implícita entre aquilo que seria são e o que não seria. A psicanálise não pode ser simpática a essa noção e uso ideológico que dela é feita. 
Existe, por outro lado, aquilo que eu poderia chamar de um toque melancólico normal do ser falante; e ele se deve ao fato de que a linguagem lhe permite se pensar mortal e finito. 
As melancolias são outra coisa, que se deve distinguir do toque melancólico do qual acabo de falar. Essas psicoses melancólicas, que Freud qualificava de neuroses narcísicas, são um tipo de delírio da perda, da culpa e da dor de viver que representam como que a face inversa daquilo que chamei de “a inocência paranóica”. Pode­-se reler, com muito interesse ainda hoje, os textos em que Freud se esforça para distinguir aquilo que separa a melancolia dos outros lutos que a vida traz, necessariamente. 
Estamos aí na questão de saber o que condiciona, no ser humano, a “junção ao sentimento da vida”, aquilo que Freud chamava de pulsão de vida, termo que não é perfeito, mas ainda assim significativo. 
MRK: Qual a diferença entre “o gozo comandado pelo sintoma” que você evocou, e do qual a depressão e a melancolia podem ser uma das formas, e a abundância de gozos oferecidos pela sociedade atual? 
CS: Todo discurso é uma ordem que regula os gozos a partir de semblantes. Suas normas, seus ideais, suas proibições delimitam o campo dos gozos recebíveis e preser­vam a possibilidade daquilo que chamamos agora de “viver junto”. 
O sintoma que atrapalha e faz sofrer é sempre o resultado, a manifestação de um gozo dissidente, singular. Nesse sentido, o sintoma tem sempre um alcance político: ele objeta as “auto­estradas” do gozo. É por isso que falo de seu valor de verdade. 
DF: Voltemos à questão do tempo na psicanálise: questão polêmica tanto no interior quanto no exterior do campo psicanalítico. Por que as análises são tão longas? Dez, vinte anos de análise – até mais, às vezes – é normal? O que você pensa sobre isso? Isso não é transformar a psicanálise em uma espécie de acompanhamento terapêutico permanente? A análise é infinita? 
CS: Como eu disse anteriormente, as psicanálises, mesmo as mais curtas, sempre pareceram longas. Isso mereceria mais reflexão do que parece. Entretanto, é fato que uma espécie de medida latente e implícita da duração das análises se instaurou nos espíritos, medida que fixa o cursor à cifra que você evoca: dez anos, nem muito mais, nem muito menos. 
Você faz duas questões distintas. A do fim e a da duração. A análise é um processo infinito, mas ainda assim é um processo que pode ser longo; talvez seja necessário dizer que só possa ser longo. É a mesma posição que afirma que a análise não é infinita, mas que um tempo é necessário. É sempre uma das grandes questões da teoria analítica atual. 
Fala-­se hoje de psicanálises breves, alguns meses, como no tempo de Freud. É certo que, para obter efeitos analíticos, fazer desaparecer uma conversão, elimi­nar uma fobia, atenuar uma angústia, etc. não são necessários tantos anos. Os efeitos terapêuticos, indissociáveis da psicanálise, entendendo por isso os efeitos obtidos pelo processo analítico, são mesmo, freqüentemente, produzidos em todo começo de per­curso. Isso não faz nem uma psicanálise curta, nem uma psicanálise infinita, porque esta última visa outra coisa. 
Visa o que, portanto? Diz­-se, às vezes, uma revelação, revelação do inconsciente. A expressão produz mal­-entendido se dela se conclui que se trata de descobrir aquilo que já estava lá, como o faz crer o empirismo espontâneo que habita cada um. Digamos de preferência que uma psicanálise lacaniana visa o real. A ciência nos preparou para isso, ela que não descubra, mas construa seu saber que está, entretanto, suficientemen­te no real para nele ser operatório. Na psicanálise, trata­-se de saber o que pode ser alcançado pelo real num discurso que use apenas o verbo. 
DF: Lacan é freqüentemente conhecido, primeiramente e sobretudo, por causa de sua prática das sessões curtas. É um folclore do próprio Lacan ou isso é fundamental no ensino dele? Alguns lacanianos praticam de antemão as sessões de duração variável, o que continua a chocar muitas pessoas: é a mesma coisa? 
CS: No que diz respeito à duração das sessões, a questão se insere num problema maior. Freud colocou em questão aquilo que bem podemos chamar de hábitos prá­ticos. Ele mesmo os situa como tais: número e duração das sessões, ritmo das férias, divã, pagamento e algumas outras que os pós-freudianos acrescentaram neles para fixar o que chamamos de setting
Nada disso define o procedimento analítico, que está inteiramente no nível do dizer, entre o falar sem autocensura do analisante e o dizer da interpretação. Daí a questão: o que se pode subtrair do setting sem sair do discurso analítico? A recíproca implícita é que suspeitamos que podemos manter o setting traindo o discurso ana­lítico. Lacan começou a tocar no tempo da sessão, é um ponto crucial. Mas, mais geralmente, vimos emergir muitas outras desregulações do setting, como o analista sem divã, face à face, o manejo das sessões por unidade de tempo e mesmo a questão do dinheiro, que é colocada. Acredito que o que não podemos subtrair é o analista. Ou, de preferência, o ato analítico; mas ele supõe o analista. Entendo por isso um sujeito transformado, que está em seu tempo certamente, mas que não é o sujeito do capitalismo conformado pelos objetos do gozar; e sim aquele que um outro desejo anima, com uma outra ética. 
No que diz respeito à duração da sessão, Lacan é o único a ter demonstrado que é uma das variáveis que contribuem para a elaboração do analisante sob transferência; ao passo que a sessão de duração fixa faz dela um dado inerte, desde então difícil de justificar, pois supondo que seja preciso tempo para que o inconsciente se diga, por que haveria de ser meia-­hora, uma hora ou duas, quiçá dias? Aí se mede o quanto repetir pequenos hábitos práticos não é pensar a psicanálise. 
De fato, o inconsciente não tem hora, ele trabalha sem descanso e seu tempo não pode, em nenhum caso, ser isomorfo ao tempo da sessão. Em contrapartida, a relação de transferência, sem a qual não há análise possível, está intrinsecamente ligada ao tempo. É do lado analisante que se situa o tempo de espera de uma demanda ende­reçada ao sujeito suposto saber, que é um dos nomes do inconsciente. O tempo da sessão deve ser pensado em função daquilo que responde a essa espera. É o analista, sem dúvida, mas o que ele faz responder com suas intervenções? Será a linguagem inconsciente, o gozo que ele veicula ou o real contra o qual esbarra? A duração da sessão lacaniana sempre foi definida em função dos avanços na concepção do que é o inconsciente. A sessão curta é aquela que se ajusta ao real em jogo nessa experiência de fala que é uma análise. 
DF: Em um livro publicado na França de testemunhos sobre a prática clínica de Lacan, você assinou um artigo intitulado “Une pratique sans bavardage” (Uma prática sem tagarelice) no qual você evoca sua experiência do tempo com o analista Lacan. Você poderia falar um pouco sobre isso para nossos leitores? 
CS: Escrevi dois textos falando sobre minha análise com Lacan. O primeiro, em 1991, pelos dez anos de sua morte, intitulado “L’e et Jacques Lacan” (O efeito Jacques Lacan), publicado pela Seuil em Connaissez-vous Lacan (1991). Não o fiz sem certa hesitação, pois acredito que falar em público de sua análise comporta sempre alguma coisa de enganador e não gosto de contribuir para a transformação de Lacan em lenda, ele, que passou por uma vida de trabalho obstinado para tentar provar que a análise não é um romance. O segundo texto que você citou, que data de 2005, não era para testemunhar, mas para tentar apreender os fundamentos da sessão lacaniana. É um tema que vamos tratar em nosso Encontro. Espero que os leitores possam ter acesso a ele, pois a única forma de poder falar legitimamente de sua análise é o dis­positivo do passe que não é público, e não se fala dele publicamente, como vocês me convidaram a fazer. E se alguém falar em fazer seu passe em público, eu diria que é um passe de falsário. 
IN: A Peste: Revista de Psicanálise e Sociedade e Filosofia
2009

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