HORAS AZUIS E O TEMPO DA AUSÊNCIA
Deméter e Perséfone e o luto sem perdas no romance Horas Azuis
Li poucos romances no ano passado. Foram muitas as leituras de teoria psicanalítica para os trabalhos de transmissão teórica com os colegas da área, e pouco tempo para a literatura. No entanto, no segundo semestre li um romance cujo tema me identifiquei imediatamente. O romance foi Horas Azuis, de Bruna Dantas Lobato; e o tema: o vinculo mãe e filha.
O livro pode até se apresentar, à primeira vista, como um texto sobre deslocamento, tempo, escrita ou solidão contemporânea, mas o seu eixo afetivo mais persistente é justamente esse vínculo, mãe filha, atravessado pela distância — uma distância geográfica, temporal e tecnológica.
Em Horas Azuis, a relação entre mãe e filha não é estruturada pela ruptura dramática nem pelo conflito aberto, tão comuns a essa temática. O que a organiza é algo mais sutil e, talvez por isso, mais doloroso: a convivência cotidiana com a ausência. A filha está viva, acessível, localizável — e, ainda assim, irremediavelmente distante. Trata-se de uma forma de perda sem luto clássico, um luto suspenso, que não encontra ritual nem fechamento. A mãe não perde a filha; perde o corpo da filha no cotidiano, o encontro casual, o tempo compartilhado sem mediação.
Os afetos que circulam nessa relação são ambivalentes. Há prazer, sim: o prazer da chamada que chega, da imagem que aparece na tela, da voz que atravessa oceanos em tempo real. A tecnologia produz uma ilusão de presença que, por instantes, funciona. Mas essa mesma ilusão é fonte de frustração. A tela devolve a imagem da filha ao mesmo tempo em que reafirma sua inacessibilidade. Cada conversa on-line contém, embutida, a experiência do corte: a ligação que termina, o fuso horário que não coincide, a vida da filha que acontece “fora do ninho materno”.
É um romance sobre a aspereza e a suavidade das relações afetivas em tempos digitais. Uma convivência diária confrontado com novos regimes de presença e ausência. A mãe não pode mais sustentar a fantasia de continuidade absoluta com a filha; tampouco consegue aceitar plenamente a separação. Ela habita esse entre-lugar: nem fusão, nem desligamento. A narrativa se desenvolve nesse intervalo. A distância introduz um descompasso temporal. A vida da filha avança em outro ritmo, em outro calendário afetivo e cultural. A mãe permanece ligada a um tempo mais lento, marcado pela repetição dos dias, pela observação minuciosa desse descompasso e pela coragem para sustentar a solidão. O romance constrói, assim, dois tempos que não se sincronizam completamente — e é dessa dessincronia que nasce tanto a melancolia quanto o desejo de sustentar o laço afetivo.
Há, nessa relação mãe e filha atravessada pela distância, algo que ressoa ao mito antigo de Deméter e Perséfone. Não no sentido de uma repetição literal, mas como estrutura simbólica que insiste. Também ali, a separação não é fruto de um rompimento violento, mas de uma passagem necessária. A filha precisa partir para viver sua própria vida; a mãe precisa aprender a sustentar a ausência sem transformar a perda em devastação. No mito, a ausência de Perséfone suspende o tempo da terra; em Horas Azuis, a ausência da filha suspende o tempo afetivo da mãe, instaurando um regime de espera, atenção e contenção.
Mas se no mito a separação é mediada pelos deuses e pelo destino, no romance de Bruna Lobato, a separação é mediada por telas, fusos horários e conexões instáveis. A mãe contemporânea não perde a filha para o submundo, mas para o mundo. A distância não é absoluta; ela pulsa diariamente, reaparece em imagens, vozes e mensagens — e é justamente isso que a torna mais complexa. Como Deméter, a mãe precisa aprender a viver entre presenças parciais, aceitando que a filha volte apenas em certos momentos, sob outras formas, em outros tempos.
O romance parece dizer que, hoje, amar uma filha é também aprender a negociar com esse retorno fragmentado, sem exigir a restauração impossível da fusão original. Há algo de muito contemporâneo — e ao mesmo tempo profundamente arcaico — nessa relação. Arcaico, porque remete à experiência inaugural da separação entre mãe e filha; contemporâneo, porque essa separação agora é mediada por dispositivos que prometem abolir a distância, mas apenas a reconfiguram. A narrativa lança a pergunta, sem ousar formular uma resposta apressada: o que acontece com o amor quando ele depende de conexões instáveis, wi-fi e fusos horários?
Horas Azuis trabalha a maternidade não como função cotidiana, mas como afeto que persiste mesmo quando o lugar da mãe já não é claro. A filha não precisa mais da mãe no plano prático, mas a mãe continua implicada, afetada, atravessada. O romance dá forma a essa assimetria: amar alguém que já não nos necessita do mesmo modo. Esse é o luto que toda “mãe raiz” precisa elaborar, para reconfigurar uma relação saudável com a filha. Perdeu-se a garotinha dependente e insegura, para ganhar uma mulher que vai a luta para realizar suas aspirações. A imagem da garotinha continua forte na memória afetiva e ainda sustenta o amor materno. Mas se a mãe não souber a diferença entre as suas memórias afetivas e a realidade da filha adulta, cria-se um laço de conflito que aos poucos pode engendrar uma distância muito mais profunda do que aquela causada pela geografia.
Talvez seja justamente por isso que o tom do livro seja contido, quase econômico. Não há excesso emocional; há uma escrita que se aproxima do afeto com cuidado, como quem sabe que qualquer gesto mais brusco poderia romper algo frágil. Parece saber que no mundo contemporâneo faz-se necessário inventar novos modos de relações. Novas maneiras de viver os afetos genuínos e profundos. Não há resposta fácil. Faz-se necessário inventar e ter coragem para sustentar esses novos modelos de laços afetivos.
Maria Holthausen
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