segunda-feira, novembro 01, 2010

Psicanálise: pequeno percurso histórico




A psicanálise nasceu como uma clínica inovadora para o tratamento da histeria e dos distúrbios da sexualidade; tornou-se um fenômeno da cultura e encontra-se hoje em mais de 40 países, sob a forma de diferentes correntes teóricas embasadas no pensamento freudiano.

A psicanálise tem sua origem com a publicação de “A interpretação dos sonhos”, em 1900, quando Sigmund Freud (1856 – 1939) introduziu as bases teóricas de uma clínica que rompeu com as concepções clássicas da época. A obra já expressa também reflexões sobre a teoria da sexualidade humana a ser elaborada, em 1905, nos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”.

Em 1902, com a Primeira Tópica delineada, Freud funda a Sociedade Psicológica das Quartas – feiras. O grupo era constituído por vienenses, judeus, asquenazes, progressistas e eruditos. Eram principalmente médicos, mas também filósofos, artistas e educadores. Entre eles, Alfred Adler, Wilhelm Stekel, Paul Federn, Otto Rank, Fritz Wittels e Max Graff. Até 1904, apenas Freud praticava a psicanálise.

Em 1908 o grupo sofre uma transformação, contando com 21 membros ativos, passa-se a se chamar Sociedade Psicanalítica Vienense. Passando a contar com personalidades importantes do cenário médico e psiquiátrico internacional, como Eugen Bleuler (1857 – 1939), também Carl Gustav Jung (1875 – 1961) reconhecido como o principal herdeiro de Freud. Jung funda a Sociedade Sigmund Freud de Zurique, com Alfons Maeder e Ludwig Binswanger.

Outro pólo se localizou na Alemanha com dois assistentes de Bleuler, Max Eitingon (1881 – 1943) e Karl Abraham (1877 – 1925) fundando a Associação Psicanalítica de Berlim em 1908. Em 1913, por intermédio de Sánder Ferenczi (1873 – 1933) é fundada a Sociedade Psicanalítica de Budapeste.

Acompanhado por Ferenczi e Jung, Freud realiza as famosas Conferências na Clark University, de Worcester, nos Estados Unidos, em agosto de 1909. O freudismo se organiza como um movimento profissional e corporativo em torno de três instituições lideradas por médicos. Em 1911, Enert Jones (1879 – 1958) funda a Associação Psicanalítica Americana, enquanto Abrahanm Brill (1874 – 1948) cria a Sociedade Psicanalítica de Nova York. Em 1914, James Putman e Isador Coriat fundam a Sociedade Psicanalítica de Boston.

Com o propósito de unificar, acompanhar e controlar o movimento é criado em 1910 a Associação Psicanalítica Internacional (IPA). Ganhando novos adeptos, como Lou Andreas – Salomé (1861 – 1937). Com a expansão do movimento, emergem rivalidades narcisistas, assim como divergências teóricas e clinicas quanto à duração dos tratamentos, a questão da transferência e da contratransferência e ao lugar da sexualidade na teoria.

Toda reformulação teórica e clínica, que desemboca na Segunda Tópica, ocorre durante a Segunda Guerra Mundial. Este processo é marcado pelas primeiras desistências, a começar por Alfred Adler, Wilhelm Stekel e a mais importante ruptura dessa época foi a Jung. As desistências acrescentam inúmeros ataques ao freudismo, causando defesas intransigentes por parte dos seguidores da doutrina, como no caso de Jones. A reposta de Freud a tudo isso aparece em dois trabalhos: “O interesse científico da psicanálise” (1913) e “A história do movimento psicanalítico” (1914).

Jones propõe a Freud à criação de um “comitê secreto”, uma instancia paralela a IPA. Tal iniciativa, não impediu o aparecimento de novas querelas e a criação de pólos diferenciados, até mesmo no interior do próprio comitê, já refletindo a diversidade de interpretações e anunciando as futuras correntes psicanalíticas.

As correntes se materializaram no fim da guerra, quando o centro de referencia do freudismo se desloca para Berlim, criando o Instituto Psicanalítico de Berlim. Nesse processo surgiram analistas talentosos como Melanie Klein (1882 – 1960).

Freud se isola em Viena, mantendo-se afastado do debate e alheio aos rumos do movimento psicanalítico. Concomitantemente, ele elabora as três obras fundamentais que compõem a Segunda Tópica: “Além do principio do prazer” (1919 – 1920), “A psicologia de grupo e analise do ego” (1921) e “O ego e o id” (1923). Essa nova teorização refaz a teoria do inconsciente e fornece a tese do dualismo pulsional.

Sua filha caçula, Anna, analisada por ele, é admitida na Sociedade Psicanalítica de Berlim. Desde então, ela assume os cuidados do pai, tornando-se sua porta-voz, editando suas obras e assumindo a direção do movimento psicanalítico vienense.

Enquanto a psicanálise vive seu momento de esplendor, Freud observa as mudanças sociopolíticas que se processam na Europa. Publicando em 1927, “O futuro de uma ilusão” e, em 1930 “Mal-estar na civilização”.

A partir de 1933 com a aprovação do decreto da arianização das organizações médicas alemãs há a queima, em praça pública, das obras de escritores judeus.

Jones, presidente da IPA, adota uma política de “salvamento da psicanálise”. Um desastre que levou a demissão de todos os membros judeus da Sociedade berlinense e a transformação do Instituto de Berlim em Instituto Göring.

Nesse mesmo período, Jones envia Werner Kemper, ao Rio de Janeiro para implantar o movimento psicanalítico, em 1948.

No início dos anos 40, surge a Sociedade Britânica de Psicanálise em Londres. Sob responsabilidade de uma nova geração de analistas mulheres, surge uma nova especialidade: a psicanálise de crianças. Com visões divergentes, Anna Freud e Melanie Klein foram pioneiras nessa nova especialidade. Formando assim duas correntes teóricas profundamente divergentes. No início dos anos 40, todas essas correntes travam disputas fratricidas pela herança freudiana.

Em meio ao debate envolvendo klenianos e annafreudianos, um terceiro grupo se articula – os independentes – mais próximo dos primeiros, porém, recusando toda posição dogmática e tendo Donald W. Winnicott (1896 – 1971) entre seus principais expoentes.

Ao fim de quatro anos de discussões, a separação é evitada por pouco. Forçados pelos independentes, os lados optaram por conservar a unidade de fachada, a fim de preservar a participação de todos na IPA.


Com o fim da guerra, segue-se o tempo de reconstrução de movimento completamente destroçado. Surgiram outros grandes nomes que vieram representar a ortodoxia freudiana, como Heinz Hartmann, Rudolfh Loewenstein, Ernst Kris e Erik Erikson, fundando uma nova corrente, a ego – psychology, na qual entre outros conceitos desenvolve a noção de self.

Paralelamente as disputas entre Anna Freud e Melanie Klein pela herança freudiana, nos anos 30 o Frances Jacques Lacan (1901 – 1980) começa a dar os primeiros passos na formulação de uma nova escola de pensamento freudiano. Escrevendo O estádio de espelho como formador da função do eu, em 1936, e A família, em 1938.

Em seus seminários anuais, em que comenta textos freudianos, Lacan formula vários conceitos que compõem o corpo teórico e clínico do lacanismo, tais como a noção de sujeito; os registros do imaginário; simbólico e real; os conceitos de significante e metáfora do nome do pai...

A partir de 1964, expulso da IPA, mas no auge de sua celebridade, ele cria o próprio modelo institucional, a Escola Freudiana de Paris. Após sua morte, o movimento lacaniano se desdobra em diversas correntes e grupos com ramificações na Argentina e no Brasil.

Hoje a psicanálise está implantada em mais de 40 países, diversos grupos estão em fase de constituição como nos países da África do Sul, Rússia, Romênia, Croácia.

A implantação conta com freudianos de todas as tendências. Na geopolítica da psicanálise, a America do Sul ocupa um lugar de peso, em particular o Brasil, onde mais de uma centena de instituições, representando todas as correntes freudianas, estão implantadas nos principais centros urbanos do país.



PATRÍCIA PEREGO RAMOS
Estudante de Psicologia - UNIVESC

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