sexta-feira, agosto 04, 2017

Filosofia e Psicanálise









Curso do Professor Marcos
 neste Semestre - 2017/2











UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
CURSO DE PSICOLOGIA
FIL 5779 FILOSOFIA DA PSICANÁLISE (72h)

Segunda-feira – Das 14H00 ‘as 17H00
Prof. Marcos José Müller
Abordagens do conceito de inconsciente. O estatuto de cientificidade da psicanálise. Freud e seus seguidores.

PLANO DE ENSINO
Objetivos:

Ao término do curso o aluno deverá ser capaz de:
1. Identificar os principais conceitos relativos à teoria freudiana das pulsões.
2. Dissertar a maneira como a temática freudiana da pulsão é investigada no contexto do Seminário XI de Jacques Lacan
3. Caracterizar o modo como Lacan faz, no mesmo seminário, o comentário da obra O visível e o invisível de Merleau-Ponty
4. Identificar as possibilidades e limites no diálogo entre as obras lacaniana e merleau-pontyana relativamente à noção de pulsão


Sinopse:

No seminário XI (Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise), Jacques-Lacan interrompe a primeira sessão, dedicada a discutir a noção freudiana de pulsão, para tratar não mais dos conceitos fundamentais da psicanálise, mas do modo como Maurice Merleau-Ponty, na obra póstuma "O visível e o invisível", estabelece aquilo que Lacan denominou de uma diferença entre o olho e o olhar : mais além da visibilidade do mundo, no seio daquilo que emerge como horizonte de invisibilidade, um olhar vem me surpreender, denunciando minha própria vidência. Lacan – agora interessado em delimitar a gênese do sujeito da psicanálise (o sujeito do desejo) - reconheceu, na noção merleau-pontyana de olhar, uma possível indicação daquilo que Freud denominou de pulsão de morte, como se, para Merleau-Ponty, a divisão (Esquize) do Outro (como Invisível) vem denunciar minha própria castração e, por conseguinte, a causa do desejo (objeto a). Mas Lacan não tem certeza se, com a noção de “vidência”, Merleau-Ponty não recai novamente no imaginário platônico de um ultra-olhar, do qual cada corpo seria uma versão. Ora, como Lacan “leria” as mesmas passagens de Merleau-Ponty, agora do ponto de vista do sujeito do gozo, para quem a divisão do Outro já não importa mais? A dúvida se sustentaria? Ou ela seria letal para a nova mirada lacaniana? Para dar conta de cada uma destas questões, vamos recorrer aos textos em que Merleau-Ponty gesta seus conceitos, precisamente, os textos que tratam de construir uma ontologia a partir da obra de arte.

Fundamentação:

“O que há então, não são coisas idênticas a elas mesmas que, em seguida, se ofereceriam ao vidente, e não é um vidente vazio antes de tudo que, em seguida, se ofereceria a elas, mas alguma coisa de que não poderíamos estar mais perto senão lhe apalpando com o olhar, porque o olhar mesmo as envolve, as veste com sua carne. De onde vem que, fazendo isto, ele as deixa em seu lugar, que a visão que nós as tornamos nos parecer vir delas” (M. Ponty, 1964, p.173)

Mas não é entre o visível e o invisível que nós temos que passar. A esquize que nos interessa não é a distância que se mantem entre o que existe de formas impostas pelo mundo e aquilo contara o que a intencionalidade da experiência fenomenológica nos dirige (...). O olhar só se apresente a nós sob a forma (...) da nossa experiência, a saber, a falta constitutiva da agonia da castração. O olho e o olhar, tal é para nós a esquize na qual se manifesta a pulsão no nível do campo escópico (Lacan, 1964, 69-70/72-73)

“De sorte que o vidente, estando preso no que vê, continua a ver-se a si mesmo: há um narcisismo fundamental de toda visão, daí por que, também ele sofre, por parte das coisas, a visão por ele exercida sobre elas; daí, como disseram muitos pintores, o sentir-me olhado pelas coisas, daí, minha atividade ser identicamente passividade – o que constitui o sentido segundo e mais profundo do narcisismo: não ver de fora, como os outros vêem, o contorno de um corpo habitado, mas sobretudo ser visto por ele, existir nele, emigrar para ele, ser seduzido, captado, alienado pelo fantasma, de sorte que vidente e visível se mutuem reciprocamente, e não mais se saiba quem vê e quem é visto. É a essa Visibilidade, a essa generalidade do Sensível em si, a esse anonimato inato do Eu=-mesmo que há pouco chamávamos de carne, e sabemos que não há outro nome na filosofia ocidental para designá-lo“(Merleau-Ponty, 1964, 135.)

“Uma vez que vemos outros videntes, não temos apenas diante de nós o olhar sem pupila, espelho sem estanho das cosias, este pálido reflexo, fantasma de nós mesmos, que elas evocam ao designar um lugar entre elas de onde as vemos: doravante somos plenamente visíveis para nós mesmos, graças a outros olhos. Essa lacuna onde se encontram nossos olhos, nosso dorso, é de fato preenchido, mas preenchido por um visível de que não somos titulares; por certo, para acreditarmos numa visão que não é a nossa, para a levarmos em conta, é sempre, inevitável e unicamente, ao tesoura da nossa visão que recorremos e, portanto, tudo quanto a experiência nos pode ensinar já está, nela previamente esboçado. Mas é próprio do visível, dizíamos, ser a superfície de uma profundidade inesgotável; é o que torna possível sua abertura a outras visões além da minha. (Merleau-Ponty, 19054, p. 139)

Programa

1. O discurso da pulsão em Freud: os três ensaios sobre a sexualidade.
2. A cura pelo desejo e o lugar da pulsão no primeiro ensino de Lacan
3. Em torno do “objeto a”: o retorno a Freud
4. Constituição do sujeito do inconsciente no Campo do Outro e a “separação” como resposta à “alienação”
5. Do olhar como “OBJETO a MINÚSCULO”
6. Mais além da fenomenologia: o quiasma vidente-visível em Merleau-Ponty
7. O invisível: chora ou pulsão?
8. A esquize no invisível: outrem como Gestalt
9. (Des)psicologização da Gestalt em Merleau-Ponty: a carne e seus poros
10. Porosidade carnal e o falasser lacaniano
11. Psicanálise da Carne: Merleau-Ponty leitor de Freud
12. A Análise Gestáltica

Referências bibliográficas

FREUD, Sigmund. (1976) “Três ensaios sobre a sexualidade: _____. Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Trad. Jayme Salomão, RJ: Imago. (Vol. XXII)
LACAN, Jacques. (1986) O seminário – livro 7. A ética da psicanálise. Versão de M. D. Magno – 2.ed. – RJ: Zahar.
_____. 1964. O seminário. Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da
psicanálise. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Trad. M. D. Magno.
2.ed.Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
_____. 1969-70. O seminário. Livro 17. O avesso da psicanálise. Texto estabelecido por
Jacques-Alain Miller. Trad. M.D. Magno. Rio de Janeiro, Zahar.1998
_____. 1972. O seminário. Livro 20: mais, ainda. Texto estabelecido por Jacques-Alain
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MILLER, Jacques-Alain (1994-5). Silet – Os paradoxos da pulsão, de Freud a Lacan. Trad. Celso Rennó Lima: texto estabelecido por Angelina Harari e Jésus Santiago – RJ: Jorge Zahar, 2005.
MERLEAU-PONTY, Maurice(1964a) . Le visible et l'invisible. - Paris: Gallimard.
_____. (1992) O visible e o invisível. Trad. J. A. Gianotti. SP: Perspectiva
_____ (1964b) . L'oeil et l’esprit. - Paris: Gallimard.
_____. (2004) O olho e o espírito. Trad. Paulo Neves e Maria Ermantina Galvão Gomes Pereira. SP: Cosac & Naify.
_____ (1969) . La Prose du monde. - Paris: Gallimard.
MÜLLER-GRANZOTTO, Marcos José. Outrem em Husserl e em Merleau-Ponty. In: BATTISTI, César (org). Às voltas com a questão do sujeito. Posições e perspectivas. Toledo, Unioeste, 2010.
SARTRE, Jean-Paul. (1943) Entre quatro paredes. SP: Abril Cultural e Industrial.
SHEPHERDSON, Charles. Uma libra de carne. Discurso, (36), 2006, pp.95-125.
SAFATLE, Vladimir. A teoria das pulsões como ontologia negativa. Discurso, (36), 2006, Pp.151-191.
SOLLER, Colette. (1977). O sujeito e o Outro I e II, in: FELDSTEIN, Richard, FINK, Bruce, JAANUS, Maire (orgs). Para Ler o Seminário 11. Trad. Dulce Duque Estrada. RJ: Jorge Zahar, 1977.
ZIZEK, Slavoj; DALY, Glyn.. Arriscar o impossível: Conversas com Zizek. Trad. Vera Ribeiro. SP: Martins Fontes, 2006.


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