quarta-feira, abril 29, 2020

ADORÁVEIS MULHERES






MULHERZINHAS

Louisa May Alcott








             LOUISA MAY ALCOTT

Nasc: 29 de novembro de 1832 em Germantown, hoje parte da Filadélfia-USA;
Filha de Amos Bronson Alcott (transcedentalista) e Abby May (assistente social);
Iniciou a sua educação em casa e as suas lições eram dadas principalmente pelo seu pai, mas ela também teve lições com professores renomados e conviveu com grandes nomes das artes de sua época;
O Livro Little Woman, baseado na via da autora, foi uma encomenda com a recomendação que deveria ser para meninas e deveria finalizar com casamentos. Teve sucesso instantâneo e no ano seguinte foi editado a sequência chamada de Good Wives, editados juntos em 1880;

Resumo:

Com o pai na guerra e uma mãe ocupada, as jovens Meg, Jo, Beth e Amy (16, 15, 13 e 12 anos) crescem juntas. De diferentes personalidades, nem sempre o convívio entre as quatro irmãs é dos mais amigáveis, mas o amor é mais forte que qualquer adversidade. Mesmo enquanto crescem, não deixam de ser as adoráveis mulheres. O enredo sobre o cotidiano de quatro adolescentes pode não parecer empolgante para o público atual, mas engana-se quem não o julga interessante. A história é protagonizada por mulheres e detalhadamente descreve a vida de mulheres em uma época em que o casamento e a maternidade eram as únicas propostas de vida para elas. A história foi ousada em sua época de sua publicação, em 1868, apesar de hoje parecer ultrapassada. Mas para o leitor mais atendo é possível identificar pensamentos muito modernos para a época como a educação e o lugar das mulheres na sociedade, que em diversos trechos do livro são apresentados de forma inrônica pela autora ou com afirmativas de autonomia e emancipação pela personagem Jo, a segunda filha.

NO CINEMA           

1933 - A terceira adaptação do livro ao cinema, sendo que as duas primeiras foram da época do cinema mudo. No elenco as estrelas da época: Katharine Hepburn, Joan Bennett, Frances Dee e Jean Parker. O sucesso do filme se deu pelo foco dado à sobrevivência em tempos de dificuldade e os valores da família acima de tudo, no pós-Crise de 1929.

1949 - A quarta versão: as irmãs Jo, Amy, Beth e Meg são interpretadas respectivamente por June Allyson, Elizabeth Taylor, Margaret O’Brien e Janet Leigh. Há algumas diferenças marcantes nessas versões, como a ideia de trazer Beth como a irmã mais nova das quatro, enquanto no livro e nas outras versões ela é um ano mais velha que a caçula Amy. 

1994 - A quinta versão: com elenco estelar e uma química de dar inveja, Adoráveis Mulheres tem  Winona Ryder como Jo, Christian Bale como Laurie (para alguns, o melhor Laurie de todas as adaptações), Kirsten Dunst como a versão jovem de Amy March, Claire Danes como Beth e Gabriel Byrne como Friedrich Bhaer. 

2019 – Na sexta versão Saoirse Ronan é Jo, Emma Watson é Meg, Florence Pugh é  Amy e Eliza Scanlen é Beth. Uma adaptação que supera o livro, dizem os especialistas.


AS MULHERES MARCH

Sra. March
Marmee é uma mulher de acordo com os preceitos morais e religiosos da época, porém como é uma mulher inteligente e esclarecida tem uma postura diferenciada sobre a educação de suas filhas, seja em relação à disciplina, seja em relação às escolhas de vida das mulheres sobre trabalho ou casamento;
Muito próxima das filhas, as orienta amorosamente, sempre fundamentando tudo o que diz com muito bom senso e a favor da escolha das filhas para suas vidas;

Meg: 
A filha mais velha, delicada e sensível é a responsável pela casa e pelas irmãs na ausência da mãe;
Obediente e adaptada aos preceitos morais e religiosos da família e sociedade;
Sonha com um casamento ideal, constrói sua vida dentro dos modêlos pré estabelecidos da época;
Ao contrário de Jo, Meg se adequa muito bem aos bailes e às regras de etiqueta, embora queira seguir carreira de atriz, constituir uma família que para ela é o mais importante.

Jo:
Grande paixão pelo mundo das artes, particularmente a literatura e o teatro;
Voluntariosa, decidida, independente, espontânea, com comportamento pouco feminino;
Possui idéias feministas de independência e emancipação não tendo o casamento como objetivo de vida;
Destemida e teimosa, é uma jovem aspirante a escritora que, diferentemente do que se espera das mulheres da época, não sonha em casar ou viver uma grande paixão. Tem outras ambições, por isso, não é incomum que ela passe noites em claro, trabalhando nos seus textos que são suas posses mais valiosas. Nesse sentido, a personagem funciona como uma espécie de espelho da própria vida da escritora Louisa May Alcott.

Beth:
É uma pianista prodígio, mas diferentemente da irmãs ela não encara seu talento com tanta ambição, ela toca apenas para entreter sua família;
É uma menina doce e muito tímida (envergonhada), quase não aparece ao longo da história;
Obediente, de acordo com todos, faz de tudo para agradar;
Tem a saúde frágil e é acolhida e protegida por todos;


Amy:
É a filha caçula que se mostra já na adolescência uma ótima pintora, mas isto não é suficiente: ela quer ser a melhor, senão não vale a pena. Sua insistência em acompanhar as irmãs mais velhas nos bailes e nos encontros gera muitas situações de atrito, principalmente com Jo de quem sente muita inveja;
É mimada por todos, não esconde sentimentos negativos, diz o que pensa, sem a preocupação se vai ofender quem quer que seja;
Vaidosa e muito preocupada com a aparência é orgulhosa e competitiva;
Das quatro irmãs é a que consegue ascender socialmente, fazendo um casamento com um homem da aristocracia, “Teddy” o amigo querido de Jo, a quem ela chama de Milorde.

Considerações:

A autora apresenta quatro irmãs que ao longo da história vão se revelando cada em sua singularidade no mundo feminino da época;

Inicia o livro com a abertura de um texto denominado O PEREGRINO (John Bunyan -1628-1688, um pastor puritano) que será durante toda a narrativa o condutor na educação das quatro irmãs servindo de orientação em suas decisões;

É uma história “doce” que tem a culpa e a vergonha como fundo no processo educativo, baseado na doutrina cristã, uma pedagogia de acordo com a era vitoriana (1838-1901);

Todas as quatro meninas em algum momento são acometidas por um destes afetos/sentimentos, mas Beth é quem vai protagonizar a encarnação da vergonha, apresentada como timidez. Ela é a personagem que morre na história, definhando lentamente, após ter sido acometida de Escarlatina. O que nos permite levantar a questão: será que se poderia aludir à expressão “morrer de vergonha”? (Lembrando que um dos sintomas da escarlatina é a vermelhidão, característica da de vergonha.)

A vergonha é comumente relacionada ao sentimento de culpa – “vergonha de si mesmo”, porém, esses conceitos são tratados de forma distinta por Lacan (1992) e retomados por Miller (2001-02) que considera a culpa relacionada ao desejo, e a vergonha um afeto primário relacionado ao gozo, ou seja, o desejo relacionado à identidades perceptivas na relação com o mundo na busca da experiência de prazer, satisfação genuína, a auto realização, enquanto que o gozo a comportamentos guiados por repetições, norteados pelo imaginário na busca de uma satisfação possível como forma de evitar desprazer;

No processo de subjetivação do sujeito, que tem a Lei como fundamento, o afeto fundamental produzido é a culpa, enquanto que a vergonha está relacionada com a potência/impotência, entendida como possiblidades de auto realização frente à Lei;

Como produto da culpa a vergonha coloca o sujeito num lugar de inadequação, ou seja, ele sabe de algo que não deveria saber sobre si mesmo. A fronteira que é cruzada é interna, diferente da culpa em que o outro é a Lei, ou seja, aquelas figuras de autoridade da vida das quatro irmãs: os pais, a tia, o professor, o vizinho...

A vergonha é um sentimento difuso que tem a ver como o sujeito vai negociar com a realização de seu desejo ou abrir mão dele, se sentindo a altura ou não dos ideais que criou e estabeleceu para si a partir da relação com as figuras de autoridade;

O processo de subjetivação das meninas é fortemente norteado pela lei divina, tendo como regras o proibido e o obrigatório. Ao longo dos diálogos entre elas podemos identificar temas como violação/transgressão e omissão/obediência de acordo com os costumes da época, ao mesmo tempo em que estão presentes as noções de potência e impotência, expressas claramente nos diálogos com a mãe, como possibilidades na vida de suas filhas e que Jo está o tempo todo às voltas desde cedo, lutando pela sua emancipação. É através dela que a autora expressa sua opinião contrária ao casamento como a realização de vida de uma mulher, assim como sua independência financeira;

Referências:

1- Lacan, J. O Seminário Livro XVII O avesso da psicanálise (1969-70). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.
2- MILLER, J.-A. Nota sobre a vergonha e a honra (2001-02)
3- http://www.ipla.com.br/wp-content/uploads/2019/11/TeresaGenesini-o_ponto_de_vergonha_de_cada_um.pdf
- acessado em 02/04/2020.


Texto apresentado no Grupo de Leitura por Ângela Maria Hoepfner - Psicóloga - CRP 12/00940.

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