Da Agressividade à Pulsão de Morte
O cultivo do ódio e as comunidades de gozo
Os destinos da pulsão de morte e da agressividade no laço social em Freud, Lacan e Peter Gay.
Pensar a relação violência e laço social exige afastar duas tentações teóricas opostas. Primeiramente, o reducionismo biológico — que toma a agressividade como um instinto natural de sobrevivência ou dominância. E, em segundo lugar, o que poderíamos denominar de moralismo sociológico, que percebe a violência apenas como uma anomalia temporária, uma falha na engrenagem civilizatória.
A teoria psicanalítica, tanto em Freud como em Lacan, oferece uma via alternativa de compreensão ao demonstrar que a agressividade, o ódio e a destrutividade não são acidentes do percurso cultural, mas dimensões constitutivas da experiência do sujeito e da economia pulsional. Contudo, se a pulsão fornece a dimensão estrutural do problema, são as formações históricas que moldam os objetos e os caminhos pelos quais essa força se descarrega, se mascara ou se sublima.
Ao debruçar-se sobre esse tema na obra freudiana, constata-se que a concepção de agressividade passa por, pelo menos, três momentos fundamentais. Inicialmente, a hostilidade aparece subordinada à dinâmica das pulsões sexuais e à ambivalência afetiva, funcionando como uma consequência direta da frustração ou como um componente do sadismo e do masoquismo primários.
Alguns anos depois, em Além do Princípio do Prazer (1920), acontece uma virada importante de perspectiva. Diante das neuroses de guerra, dos jogos infantis de repetição e da reação terapêutica negativa, Freud introduz a hipótese da pulsão de morte - Todestrieb. Segundo ele uma tendência radical do aparelho psíquico à redução das tensões, à repetição involuntária e ao retorno ao inorgânico.
Finalmente, em O Mal-Estar na Civilização (1930), essa hipótese ganha envergadura social. Quando dirigida para fora pela mediação de Eros, a pulsão de morte assume a forma de pulsão de destruição ou agressividade. A cultura, portanto, estabelece uma luta permanente contra essa tendência destrutiva, utilizando o Supereu e a culpa como dispositivos para introjetar a agressividade e direcioná-la contra o próprio Eu.
É justamente na intersecção entre a economia pulsional e a história que o trabalho do historiador de origem alemã, Peter Gay, se revela fecundo. Leitor atento da psicanálise e autor de uma importante biografia de Freud, Peter Gay, em O cultivo do ódio (terceiro volume de A experiência burguesa: da Rainha Vitória a Freud), mostra-nos como a sociedade burguesa do século XIX não operou pela simples repressão da agressividade, mas por sua regulamentação e pedagogia.
Ao analisar práticas cotidianas — da oratória política aos duelos de esgrima nas universidades alemãs, do esporte competitivo ao imperialismo e à xenofobia —, Gay faz ver os vários movimentos em que a cultura burguesa forneceu "álibis para o ódio".
Para o historiador não se trata apenas de investigar por que os seres humanos odeiam, mas como uma determinada sociedade organiza, legitima, cultiva e transmite o ódio. Neste movimento, a pulsão de morte é historicizada: a destrutividade, o ódio e a agressividade encontram em cada época histórica os objetos "autorizados" para a sua descarga socialmente aceita.
Mas, se Freud nos oferece a pulsão de morte como estrutura e Peter Gay fornece a moldura histórica, o psicanalista francês, Jacques Lacan, vai radicalizar a questão no campo do sujeito. Em A agressividade em psicanálise, texto de 1948, a agressividade é inicialmente articulada à constituição imaginária do Eu durante o estágio do espelho. O semelhante (a – a’) é aquele que fornece a imagem de unidade ao Eu, mas é simultaneamente aquele com quem o sujeito entra em rivalidade constitutiva.
Um pouco mais tarde, ao aprofundar o debate desse tema para o campo do Simbólico e do Real, a pergunta se transforma. O foco de seu interesse passa a ser: o que ocorre quando o Outro, enquanto lugar da lei e da mediação da linguagem, vacila ou perde sua consistência?
Quando o Outro deixa de operar como um regulador simbólico eficaz, a agressividade deixa de ser contida pela rivalidade cortês e descarrila para o ódio absoluto. A articulação entre o ódio e a satisfação pulsional introduz a dimensão do gozo. O ódio não é apenas uma rejeição afetiva; é uma modalidade de fixação que visa atingir o gozo do Outro ou extrair uma satisfação paradoxal da destruição do objeto.
Nos nossos dias, a circulação da agressividade ganha contornos inéditos que extrapolam a análise freudiana clássica das massas. O ecossistema digital introduziu uma aceleração em que a hostilidade dirigida ao semelhante é instantaneamente amplificada, replicada e quantificada. Fazendo surgir verdadeiras comunidades de gozo.
O ódio contemporâneo opera como um vetor de laço social segregativo. O sujeito não se une aos pares apenas pela identificação a um Ideal do Eu comum, mas pela partilha de um gozo obtido na degradação de um inimigo eleito. A violência passa a circular como espetáculo e mercadoria, dispensando o sujeito do trabalho de elaboração psíquica.
No entanto, para que a investigação sobre a destrutividade não reduza a metapsicologia a uma sociologia do colapso, torna-se indispensável retomar os destinos da pulsão formulados por Freud em 1915, e desdobrados ao longo de sua obra. A mesma pulsão de morte que alimenta a violência e o aniquilamento é também a condição de possibilidade da sublimação, do pensamento crítico, da criação artística e da transformação social, conforme nos mostra Lacan no Seminário de 1966.
A cultura não destrói a pulsão de morte; ela opera sobre ela, oferecendo canais e circuitos simbólicos capazes de desviar a energia destrutiva da passagem ao ato. O trabalho da arte, da escrita, e da clínica consiste justamente em inventar destinos não destrutivos para a insistência pulsional.
A crise da contemporaneidade, portanto, talvez não deva ser diagnosticada como um "aumento da violência primitiva", mas como a penúria dos dispositivos simbólicos capazes de acolher, metamorfosear e dar destino à pulsão de morte. Quando as instituições e a cultura deixam de oferecer mediações sublimatórias e passam a ofertar objetos prontos para o gozo destrutivo, o ódio deixa de aparecer apenas como exceção e passa a ocupar uma posição privilegiada nas formas contemporâneas de constituição do laço social.
Ressituar a violência a partir da trama entre Freud, Peter Gay e Lacan, permite sustentar uma crítica da cultura que não simplifica a complexidade da clínica nem descontextualiza a história. A pulsão de morte permanece como o conceito limite que nos impede de ceder às ilusões pedagógicas ou utópicas: a destrutividade sempre estará lá. O problema ético e político que se coloca ao contemporâneo é saber que modalidades de laço e que invenções simbólicas ainda seremos capazes de sustentar para que o sujeito não seja inteiramente capturado pelo gozo da sua própria destruição.
Maria Holthausen

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