segunda-feira, abril 20, 2015

Psicanalise e Cultura






Psicanálise e transmissão do saber

Paolo Lollo



O discurso universitário nos faz ouvir a ideia de um saber que se transmite integralmente. O mestre endereça um saber ao discípulo, considerando-o um receptáculo vazio a ser completamente preenchido. O discurso científico - previamente esboçado pelos gregos e teorizado por Galileu, Isaac Newton e René Descartes - procura aproximar-se do real pela matematização e pela apreensão dos fenômenos da natureza por meio de cifras e letras. Galileu abre o livro da natureza, escrito "em linguagem matemática", e o decifra. Aprendendo essa linguagem, o homem pode ter acesso aos segredos da natureza, que obedeceria a leis universais e eternas. Trata-se, então, de descobrir essas leis, para que a ciência domine as forças da natureza.

O discurso universitário se outorga a tarefa de transmitir esse saber que seria mensurável, matematizável. Submetido ao discurso científico, ele faz da avaliação o guarda de honra da transmissão. A partir de um determinado conteúdo, que pode ser medido, há um esforço para avaliar que porção desse "todo" foi transferida do mestre para o aluno. A operação de transmissão é considerada bem sucedida, até mesmo perfeita, se a transmissão é total, sem resto. Mas como podemos medir, avaliar a transmissão do saber? Para isso precisamos de uma unidade de medida precisa: uma espécie de cálice de graduação capaz de transferir integralmente um conteúdo de saber perceptível na passagem de um a outro continente. Para a psicanálise, que concebe a matéria do saber como um estado psíquico, portanto proteiforme, o instrumento de medida é necessariamente impreciso e produz uma perda, que é não apenas necessária, mas também, como veremos adiante, útil à operação da transferência. Um instrumento semelhante a uma rede de pesca feita de uma malha grossa será suficiente para medir e também para transferir algum saber. Quanto mais grossa a malha, maior a perda na avaliação. Contudo, não significa que não haja um ponto ótimo de transferência do saber. O saber não se transmite de forma integral e, sobretudo, não da mesma maneira, já que sua forma e qualidade se transformam em cada transferência. São, portanto, variadas e não determinadas de antemão.

Para Jacques Lacan, o saber é transmissível graças ao fato de que permanece parcialmente escondido, velado. Explicar-se-ia, assim, porque sua retórica visa quebrar, fragmentar o discurso, por meio de jogos de palavras burlescos, digressões e interrupções, mas também por interjeições, onomatopeias, deslizamentos vocais e silêncios, tudo isso para transmitir a um público atento um saber que ofusca e "passa." Com as rupturas do discurso, Jacques Lacan corta o continuum de uma transmissão predeterminada em que significante e significado estariam colados e na impossibilidade de se separar, de se distinguir. A separação só pode ser concluída com a irrupção do sujeito que canta e que dança, um sujeito desejante (de-siderante), capaz de introduzir no discurso algo de humano e imprevisível, abrindo-o ao inconsciente (Lacan, 1991).

O discurso científico sustenta-se na exclusão do sujeito desejante, e visa à simbolização completa do real ( por exemplo, a grande teoria da unificação). Mas é verdade que esse discurso põe em cena o sujeito como observador externo de um objeto da natureza, a physis, razão pela qual poderíamos, então, entender o motivo por que se possa pelo menos conceber uma atitude neutra diante do real. O que parece problemático é calcar o discurso universitário no discurso científico: não podemos conceber um discurso universitário neutro que faça economia do sujeito desejante, do quid humano e de sua singularidade.
Quando um professor se dirige a um estudante para lhe transmitir um saber, ele põe em movimento uma dinâmica entre dois sujeitos. Assim, ele não pode abstrair-se do domínio humano que procede da singularidade. Se, na física, o ponto de vista do observador muda o objeto observado, no discurso das ciências humanas, o ponto de vista do professor forma e transforma o discípulo, mas ele também pode vir a ser transformado por um verdadeiro receptor que nunca é passivo. Assim, o objeto saber, o conteúdo transmitido no ensino, acaba se transformando nessa viagem de vai-e-vem.

Saber humanista e ato analítico
A psicanálise transmite um saber humanista cuja ética deve levar em conta a especificidade humana: a singularidade, o fato de que se vem ao mundo, se vive e se morre, um a um. Porém, ao mesmo tempo, a especificidade também se liga à universalidade humana: a liberdade do devir. Cada homem e cada mulher é impelido ao extremo dessa liberdade para se tornar ator e criador de seu próprio destino. A psicanálise procura ativar a singular força criativa de cada analisante, liberar a pulsão de vida, de modo que ela se torne capaz de desativar a força mortífera da repetição do mesmo. Rearticulando pulsão de vida e pulsão de morte, ligando-as às forças de criação, o trabalho analítico busca não apenas deslocar o sintoma, mas também transformá-lo.

A palavra "humano" remete a "húmus" e a húmido, portanto, a uma terra cujas qualidades lhe permitem engendrar o vivo, reproduzi-lo e cria-lo. A psicanálise e a transmissão de saber referem-se a esse húmus singular. Não haverá transmissão nem transformação da realidade se não houver obra de criação, ao mesmo tempo em que há repetição ou apreensão do saber. O saber pragmático da psicologia e da psicoterapia limita-se, no melhor dos casos, à cura por meio do deslocamento do sintoma. Sua ferramenta é o exercício (training) cujo princípio é a repetição do mesmo. A pulsão de morte é uma repetição, semelhante à de um disco quebrado que gira incessantemente. Uma repetição que não se associa a uma ação criadora, produtora, mas que é destinada a reproduzir os sintomas. A psicologia desloca o sintoma de um lugar para outro, mascarando-o e escondendo-o sob o tapete. Por isso, o trabalho analítico procura não apenas transferir, mas também transformar os sintomas. Do mesmo modo, o discurso da psicanálise visa transmitir o saber e, ao mesmo tempo, transformá-lo.

A ambição do ato analítico é movimentar uma dinâmica que enode repetição e criação, no intuito de deslocar o sintoma e de transformá-lo em seu ponto de origem, para que uma parte da energia que servia à repetição, ao deslocamento e ao recalque, possa ser utilizada na criação de objetos de arte, por meio da sublimação, assim como na autocriação e na recuperação. A energia que empregamos na manutenção e na repetição do sintoma pode ser usada para tornar possível o deslocamento criativo que podemos chamar "desejo", "desiderio", "de-sirius", que é uma energia usada para nos distanciar da estrela Sírio, prendendo-nos em uma órbita repetitiva. Mudar de órbita, ou até de estrela, é o objetivo da ação analítica e de cada transmissão de saber.

Transmissão da psicanálise
A psicanálise lê a natureza como um real em movimento que foge da apreensão por meio de categorias e dos instrumentos de medida dos geômetras. A physis, o real, é, para Lacan, "o que não cessa de não se escrever" (Lacan, 1985, p.127). Ela escapa à apreensão conceitual do saber humano. Essa recusa não significa que ela não aja no simbólico, mas temos que "saber lidar" com a presença ausente que não pode integrar nosso saber de forma plena e aberta. Por isso, a transmissão do saber analítico é uma empreitada difícil que não pode ser feita na universidade. Pela mesma razão, é difícil transmitir qualquer saber.

Sigmund Freud não desejava que a formação analítica fosse feita na universidade, pois ela seria transmitida somente "de forma dogmática, através de cursos teóricos ... sem a possibilidade de efetuar experiências ou demonstrações práticas" (Freud, 1976, pp. 217-220). Em contrapartida, ele desejava que todos os estudantes tivessem contato com a psicanálise durante seu percurso de formação universitária, pois ela lhes poderia abrir inúmeros horizontes nas mais diferentes disciplinas. Todavia, ele também pensava que apenas a literatura poderia oferecer aos psicanalistas em formação aquilo que a universidade não seria capaz de fazer. É instigante encontrar Freud opondo literatura e universidade. A literatura poderia transmitir aquilo que a universidade não está em condições de transmitir.

Modalidades da transmissão do saber
Há quatro frações de saber numa transmissão:

*Um saber que é transferido e que pode ser medido

Jacques Lacan chama esse saber de "o que cessa de não se escrever" (1985, p. 127). Em outros termos, um saber que pode ser transmitido por meio da teoria que consegue traduzir uma parte do real na linguagem das diferentes especialidades (matemática, física, filosófica etc.). O que cessa de não se escrever é uma pequena parte do real que encontra uma forma de representação simbólica. Mas essa parte mensurável, matematizável, traduzível em linguagem, não é todo o saber que uma transmissão coloca em jogo. Além disso, essa pequena parte do saber que passa nem mesmo poderia ser transmitida sem que as outras modalidades de transmissão também estivessem operando.

*Um saber que foi transferido, mas que não pôde ser medido

"O que não cessa de não se escrever" (Lacan, 1985, p.127). Um saber que está no real, que pode surgir ex-nihilo (do furo simbolicamente real), que é "pulsante" e pode ser transferido. Nós não sabemos quanto desse saber no real passou de fato através do ensino, já que não é mensurável. Mas podemos crer que esse saber tem uma existência que pode ser verificada. É precisamente ele que torna possível o processo de transferência sem o qual não há ensino. O saber no real, que não deixa rastro e do qual não temos representação, é a condição da transmissão do saber, pois possibilita o processo. Ele possui uma intensidade que se torna qualidade, pois constatamos que determinados alunos aprendem de forma rápida e eficiente, de maneira singular, enquanto outros não obtém o mesmo resultado. Este saber é um mistério para nós. Ele permanece em grande parte inacessível, mas é a condição da transferência e se pode verificá-lo no fato de que o saber mensurável passou satisfatoriamente. Ele é causa da qualidade dessa passagem e da criação de significantes novos. Logo, da qualidade da formação.

*Um saber que não pôde ser transferido: ele se perdeu, não chegou até o aluno a que estava destinado

"O que cessa de se escrever" (Lacan, J., 1985, p. 127). Nesse caso, trata-se de um saber real recalcado ou prescrito (forclos) que bloqueia a máquina da aprendizagem e da transferência. Algo do real não pode mais ser escrito, alguma coisa do real da transmissão se torna rígida, impossível de ser transmitida, de fazer vibrar a caneta sobre o corpo do papel e da letra. Trata-se do furo do traumatismo(1), do vazio produzido por uma sideração (verblüffung), estase do desejo. Uma estase que, certamente, pode ter a forma de uma repetição, como a do disco quebrado que gira ininterruptamente. Uma repetição que se torna pulsão de morte, que não se associa a uma ação criativa. Uma sideração que interrompe o caráter "pulsante" da physis, que não chega mais a se tornar lugar de emergência do real, nem a atravessar, furar ou quebrar a escritura para produzir algo de simbólico. No entanto, a paralisia apaga tudo, até mesmo o texto superegóico, por isso ela pode criar, de forma paradoxal, as condições de um novo arrebatamento, de um entusiasmo que levaria à produção de um novo texto.

Uma sideração é uma experiência de abertura fulgurante para o real, provocando a estagnação e podendo se transformar na condição de uma retroação que permitiria uma nova escritura simbólica. Nos seminários de Jacques Lacan de 8 de fevereiro de 1977 e de 5 de maio de 1979, Alain Didier-Weill buscou levantar e responder a três questões: o que possibilita a experiência da sideração? Como o analisante pode ultrapassar o muro da denegação para reencontrar o real? Como ele poderia fazer surgir um significante novo a partir da experiência siderante? Para Alain Didier-Weill, haveria três tempos lógicos passíveis de conduzir o analisante à produção de um significante novo: 1. Atravessamento da denegação que impede ao sujeito encontrar o real; 2. Experiência siderante; 3. Reação e resposta do analisante com a criação de um significante novo. O significante novo brota ex- nihilo do furo real e originário, evidentemente diferente do furo simbólico, mas capaz de antecipá-lo e criá-lo (Didier-Weill, A., 2010).

• Um saber que não pôde ser transmitido, mas que emergiu do nada, produzido pelo aluno, por sua pulsão criativa
"O que não cessa de se escrever" (Lacan, J., 1985, p.127). Trata-se de um saber pulsante que tem lugar na passagem do real através do simbólico. Ele emerge de um furo real na cadeia dos significantes inconscientes que Sigmund Freud chamou de "o umbigo do sonho" (1972, p.119). Um lugar de aparecimento, de nascimento e criação. O saber pôde surgir porque alguma coisa foi perdida na transferência e deixou um vazio ("o que cessa, por se escrever"); é um furo criador que permite sair do furo do traumatismo (trou-matisme) e da sideração, permitindo ao aluno ( e ao analisante) a produção do saber que falta no apelo; um saber que é produção e, portanto, uma atividade singular, e que é suposto produzir significantes novos.

Assim, o conjunto do processo de transmissão pode realizar-se. Já que uma transmissão é sempre singular, ela não pode estar referida a um sistema de avaliação universal. O problema é que não se pode avaliar nem medir com precisão o real psíquico. Podemos medir seus sinais externos, mas não podemos transmitir o que é da ordem da experiência de forma unívoca e integral... A aprendizagem dos animais que não falam permanece mecânica, superficial, externa. No saber humano, o inconsciente trabalha, um saber opera no íntimo, e o intima. Um espaço interno no qual um tempo (time) singular permite um novo tipo de aprendizagem que põe em movimento e questiona o sujeito aprendiz, e o convida a criar o seu próprio saber.

Saber e "Transcriação (2)"

Ensinar a aprender (3) é uma experiência singular que cada um cria da maneira que lhe é própria, mas pode ser induzida por uma transmissão que sugere e respeita o espaço de liberdade do receptor. Transmitir o saber significa primeiramente ensinar a receber o que nos é dado e a produzir o que não podemos receber diretamente e que devemos criar em nós a partir do novo. Transmitir o saber significa, então, criar as condições para que o saber seja a um só tempo recebido e produzido. Há na transmissão uma parte que é intransmissível e que não pode ser transferida, simplesmente porque não se encontra lá onde se crê que ela esteja e talvez não seja o que se crê que seja. Ela não é transferível pois ainda não existe em uma forma que possa ser acolhida e recebida. Chamarei "transcriação" essa parte que só pode ser transferida e recebida depois de criada.

Cada saber é sempre singular, porque produzido, em grande parte, por aquele que o recebe, mesmo quando se trata do saber científico, pois ele se encontra em simbiose com o sujeito que o produz e sustenta simultaneamente. Transmitir um saber significa, então, transmitir o transmissível, mas, também, fazer com que o não transmissível possa se reproduzir. Por isso, o problema não é apenas transmitir, doar um saber, é também perceber o "como", isto é, a maneira como ele pode ser recebido. Só há transmissão na presença da escuta do outro. Essa escuta é um "receptor" que , somente a posteriori, realiza a transmissão em um novo "dizer" (nova transmissão). O dizer constitui o agenciamento de dois movimentos: recepção e transmissão, a qual reúne, na transferência, repetição e criação.

Notas
(1) (N.T.) No original: trou - matisme, neologismo em que Lacan condensa os vocábulos trou, furo, etraumatisme, traumatismo.
(2) (N. A.) Neologismo que condensa o verbo "transferir" e o nome "criação", para significar uma transferência de saber que só opera mediante uma produção ex novo.
(3) (N. T.) No original: "apprendre à apprendre" também se poderia traduzir por "ensinar a ensinar" ou "aprender a ensinar". Optamos pela tradução que nos pareceu mais próxima ao encadeamento do texto.


Referências Bibliográficas
DIDIER-WEILL, A. (2010). Un mystère plus lointain que l' inconscient. Paris, Aubier.
FREUD, S. (1900). A interpretação dos sonhos in Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1972, vol. IV.
______ (1900) L'interprétation des rêves, in Oeuvres complètes, tome IV, Paris PUF, 2003.
FREUD, S. (1919[1918]). Sobre o ensino da psicanálise nas universidades in Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1976, vol. XVII.
______ (1919[1918]). Faut-il enseigner la psychanalyse á l' université ? in Oeuvres complètes, tome XV, Paris PUF, 2002.
LACAN, J. (1969-70). O Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992.
______ Le Séminaire, Livre XVII. L'envers de la psychanalyse. Paris, Seuil, 1991.
LACAN, J. (1972-73). O Seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.
______ (1972-73). Le Séminaire. Livre XX. Encore. Paris, Seuil, 1975.



Psicanalista, filósofo, pesquisador associado à Universidade de Paris VIII; exerce a clínica no Hospital da Piété- Salpêtrière e é secretário geral da Associação "Insistance" (arte-psicanálise- política)


FONTE: TRIVIUM - Estudos Interdisciplinares Psicanalise e Cultura


  


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