terça-feira, julho 07, 2015

Freud com os Escritores



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O ensaio termina com a evocação do fim do luto e de uma libertação da libido, pronta agora a reinvestir na vida e no mundo. “Reconstruiremos tudo que a guerra destruiu, talvez sobre uma base mais sólida e duradora do que antes.” A palavra alemã traduzida por “base” é Grund, isto é, “fundo”, e também “solo”, última referência à terra de Goethe. De maneira cativante e paradoxal, o movimento interior que nos carrega no vento da transitoriedade, da Vergänglichkeit, deixa transparecer o que dura no tempo. Por outro lado, o Grund, nesse diálogo entre o pensador e o poeta, na presença de Goethe, remete ao fundo, ao solo do pensamento e da poesia: a língua. A “transitoriedade” goethiana e o pensamento freudiano perduram na língua. A escrita é a morada do efêmero.

Se o pensamento freudiano subsiste como obra, é pela força de suas descobertas intelectuais e por habitar poeticamente a língua. Habitar poeticamente uma língua significa que o pensamento encontra a poiesis das palavras, num abandono mútuo, numa fecundidade amorosa, de que um dos exemplos, trêmulo e belo e perene, são essas páginas sobre “A transitoriedade”. Nada mais apropriado para caracterizar o ensaio freudiano do que a expressão de Schlegel: um “poema intelectual”.
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J.B. Pontalis e Edmundo Gómez Mango
Freud com os Escritores

Editora Três Estrelas, 2013

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