terça-feira, maio 31, 2016

Os Delimites do Amor



O parceiro amoroso da mulher atual
Lêda Guimarães

“Um homem quando ama é uma mulher”, assim proferiu Pierre Naveau durante a jornada do ano 2000 da EBP-MG, apoiado na formulação de Lacan “amar é dar o que não se tem”, o que determina que a posição do amante contenha em si a condição de castrado. Por essa razão, a sustentação de uma posição masculina implica numa desvalorização da vertente do amor e na prevalência da vertente erótica na constituição das parcerias, como um mecanismo defensivo fundamental para sustentar a identificação viril enquanto dotado de falo. Mas isso não quer dizer que os homens não saibam amar, como costumam se queixar as mulheres, pois ainda que mantenham como linha de frente o traço perverso da sua fantasia sexual, acabam escolhendo uma mulher, dentre as demais, como seu objeto de amor privilegiado. 

Seria também engano supor que as mulheres são mais especialmente dotadas da capacidade de amar. Sua incessante demanda de amor contém toda uma carga sexual que resulta na erotomania própria ao estado de apaixonamento, no qual o gozo feminino é experimentado sob o modo de um arrebatamento, que mantém em primeiro plano uma justificação em nome do amor: “me ame, mais, mais e mais ainda”.

Para traçar algumas formulações acerca do parceiro amoroso da mulher atual, vejamos inicialmente o que Lacan nos diz, no livro 18 do seu Seminário, acerca do modo como um homem poderá ser definido:

O importante é o seguinte, a identidade de gênero é o que acabei de expressar com estes termos ‘homem’ e ‘mulher’. É claro que a questão do que surge precocemente só se coloca a partir de que, na idade adulta, é próprio do destino dos seres falantes que se distribuam entre homens e mulheres. Para compreender a ênfase que se coloca nessas coisas, neste caso, é necessário nos darmos conta de que o que define o homem é sua relação com a mulher e vice-versa.

Tomando essa implicação direta entre homens e mulheres em sua parceria sintomática, pretendo desenvolver algumas formulações acerca das mulheres contemporâneas, levantando a hipótese de que o declínio do viril não poderia ter sido engendrado na história da civilização sem a contribuição, ou até mesmo a imposição da sua parceira-sintoma.

Ocorreu na civilização, em um dado momento propício, um fato radicalmente novo nas parcerias entre homens e mulheres. A partir do século XII, o sonho do amor eterno que faz pulsar o coração da feminilidade, alcançou um estatuto simbólico na configuração da realidade de nossa sociedade. Através do surgimento do amor cortês o estatuto simbólico desse sonho emergiu nas palavras de amor do cavalheiro gentil, dirigidas à sua dama inacessível. Com a passagem dos ditos do amor cortês para o campo da escrita, através das cartas de amor e das ficções literárias dos romances impossíveis, o sonho feminino do amor eterno ganhou um estatuto simbólico de verdade.

A aposta na crença do sonho de amor produziu nos últimos séculos a liberdade social para constituir os laços de casamento. O feminismo aqui se estabeleceu como o motor fundamental dessas transformações, se instituindo inicialmente como a luta das mulheres para alcançar uma independência econômica que lhes permitisse a liberdade de escolha da sua parceria amorosa. Desse modo, apoiadas na crença das palavras do amor cortês, as mulheres empreenderam uma luta contra as tradições da família patriarcal, que determinava as regras dos laços de casamento. A gênese do feminismo tomou, assim, como ponto de mira o desafio à autoridade paterna, àquele que era concebido como o juiz que ordenava a linha do destino das mulheres. Podemos supor, dessa maneira, que o grande motor do feminismo foi impulsionado pela aposta nas promessas do amor cortês, instituindo com suas ganas o declínio da imago paterna na civilização.

Oh! Lindo e esplendoroso amor, em que o cavalheiro servil se curvava extasiado diante de sua deusa: A Mulher impossível!

Porém, com o advento do feminismo, no qual A Mulher quis engendrar-se como possível, imediatamente esse lindo amor começou a desaparecer, pois à medida que as mulheres passaram a falar em resposta ao apelo apaixonado do seu amante, a desgraça começou a se abater sobre a virilidade dos homens, reduzindo suas promessas de amor eterno ao ridículo de meras falácias, instituindo a derrocada do viril.

Emerge, desse modo, das entranhas do amor cortês, o casal contemporâneo: a mulher superpotente com seu homem desvirilizado. De um lado da balança, que mantém o equilíbrio erótico da gramática fantasmática pulsional, temos a mulher multimídia, multifacetada em suas várias potências, autônoma, independente, capaz, sustentando uma máscara da feminilidade que contém várias faces: “A profissional realizada”, “A politizada, culta, intelectual”, “A administradora do lar”, “A mãe psicopedagogizada”, “A malhadora diet”, “A amante liberada”. Para sustentar essa série de potências fálicas, o amor nas mulheres passou a ser concebido como uma patologia, e nos homens como uma mentira.

A manutenção dessa descrença no amor se fez sob o preço de fortes defesas obsessivas nas mulheres, o que não implica necessariamente nos fenômenos das compulsões obsessivas, mas no modo como as mulheres sustentam o seu ser na amarração da sua estrutura subjetiva. Não encontramos mais tão facilmente na prática da psicanálise mulheres que sustentam o seu ser na divisão subjetiva histérica, que manteria seus ditos sobre o ser no campo de uma indefinição: “não sei bem o que quero, não sei bem o que sou”. Há, em contrapartida, uma forte prevalência da afirmação do eu na posição subjetiva central das mulheres - “sou o que penso”, conforme o cogito cartesiano do eu e como propõe a máscara da feminilidade contemporânea em suas múltiplas potências.

Disso resulta uma forte imposição na subjetividade feminina da coação do pensamento, defesa privilegiada do registro imaginário, que tem por função o recobrimento da dimensão do desejo. Esta estratégia obsessiva, por excelência, consiste num mecanismo de afastamento da dimensão do amor, já que o amor tem a ver com a falta, e não com a unidade imaginária do eu.

Então, como as mulheres obsessivas fazem existir o amor? Através do homem do seu pensamento. Fazem existir o homem que é o falo em seu ser, já que elas, por mais que queiram sustentar em si uma máscara fálica, bem sabem que esse falo elas não têm. Desse modo, fazem existir o homem completo do seu pensamento para amá-lo, mas precisamente por isso o odeiam, resultando no odioenamoramento.

E do outro lado da balança das parcerias-sintomáticas atuais, o que dizer dos homens contemporâneos que se sujeitam a essas mulheres que atacam sua virilidade todos os dias? Como nomeá-los?

Encontramos em Lacan, na Conferência de Genebra sobre o sintoma, uma nomeação para os homens que poderá ser traduzida para o português através do termo ‘pássaro-raro’. Trata-se da expressão na língua francesa drôle d’oiseau, na qual a palavra drôle pode significar ao mesmo tempo: raro, esquisito, estranho; cômico, que faz rir pela sua originalidade e sua singularidade; bizarro, surpreendente, curioso. Destacando o sentido bizarro, enigmático dessa expressão, retomamos a questão desse trabalho para perguntar como esses pássaros-raros conseguem suportar suas mulheres. Pergunta que as mulheres não costumam fazer a si mesmas, enquanto se mantêm encerradas no seu gozo neurótico do odioenamoramento. Mas ao longo das suas análises, quando começam a se afastar da inveja do pênis, passam a se intrigar com esse pássaro-raro, formulando as questões: Como eles suportam, em relação a si mesmos, o grande peso da sustentação de um falo que não têm? Como eles suportam, em relação às suas parceiras, que lhes arranquem as penas todos os dias? Como, por fim, não desistem de constituir uma parceria permanente com as mulheres?

Diante dessas mulheres ditas liberadas, independentes e capazes, que já se apresentam com o brasão “não acredito mais no amor”, este novo homem pós-amor cortês ainda assim, felizmente, se mantém como um soldado remanescente de uma guerra perdida, que não desistiu da vertente adorável da luta entre os sexos e propõe um terreno de trégua. Esse novo homem, que não desistiu dos seus anseios de ser amado por uma mulher, em lugar de proferir suas juras de amor, já que nestas palavras as mulheres já não mais acreditam, formula a sua súplica pela via do semblante, utilizando tão sabiamente estratégias próprias à histeria. Vestindo a nova roupagem do homem pós-moderno faz surgir o homem metrosexual, que tenta se feminilizar com os adereços estéticos propostos pelas mulheres contemporâneas, entregando-se a elas como o seu novo brinquedo. E, deixando assim se fazer de feminilizado, sustenta um apelo ao romantismo. Súplica muda desse homem, tão fragilmente dependente do amor de uma mulher.

Deste modo, esta tem sido a estratégia apaziguadora que o novo homem da atualidade vem utilizando para fazer laço de parceria com as mulheres, para tentar preservar o amor que aí venha a ser nutrido: ele já se apresenta como castrado, destituído de qualquer potência fálica que lembre de perto alguma sombra daquilo que as feministas definem como machismo. Cultivam, assim, o declínio do viril como modo de fazer apelo ao amor.


 In: Opção Lacaniana online - Ano 2 • Número 5 • Julho 2011
 

Um comentário:

Anônimo disse...

Anos atrás ministrei umas poucas palestras sobre lógica na Delegação Paranaense da Escola Brasileira de Psicanálise. Do pouco contato que tive com psicanalistas, especialmente lacanianos, creio que o vídeo abaixo talvez seja de interesse.

https://vimeo.com/169044757

Grato

Adonai Sant'Anna
adonai@ufpr.br

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