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QUANDO O CORPO FALA: PSICANALISE E O REAL DO SINTOMA

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  Desde Freud, a psicanálise se manteve em tensão com os discursos que pretendem domesticar o enigma do sintoma. A psicologia e a biologia buscam localizar o sintoma num terreno conhecido, causal, mensurável. Jairo Gerbase, em “A hipótese de Lacan”, articula esses discursos em termos precisos: há três orientações possíveis sobre o sintoma mental — a psicológica, a biológica e a psicanalítica —, e cada uma funda uma concepção distinta do sujeito e do real. Entre a moral do ambiente e a química do corpo, a psicanálise preserva o mistério do dizer. O sintoma, na hipótese de Lacan, é o lugar onde o significante toca o corpo e o faz falar; é o ponto em que o sujeito, afetado pelo inconsciente, tenta dar forma ao impossível. Por isso, a clínica psicanalítica não busca eliminar o sintoma, mas escutá-lo — pois nele ressoa o que, em cada sujeito, faz do corpo um lugar de linguagem e do inconsciente, um nome do real. A hipótese de Lacan Jairo Gerbase No campo que nos concerne, o do sintoma d...

A DEVASTAÇÃO NO MASCULINO E A VIOLÊNCIA CONTRA O FEMININO

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Johnson Tsang . “Here and There” Lucid Dream II .  Em: https://johnsontsang.wordpress.com/ Neste pequeno ensaio, apresento o artigo A devastação no masculino e a violência contra o feminino nas mulheres , de Denise Maurano e Joana Dark da Silva Souza, que se destaca pela consistente articulação entre a teoria e a clínica psicanalítica. As autoras deslocam a questão da violência contra a mulher do campo sociológico para uma dimensão estrutural do sujeito, apoiando-se na teoria lacaniana dos gozos — fálico e Outro. Com clareza e precisão conceitual, examinam como o encontro com o feminino pode ser vivido, por alguns sujeitos, como uma experiência devastadora, suscetível de desencadear formas extremas de violência. O texto oferece aos psicanalistas importantes elementos para pensar a relação entre o horror ao feminino , a fragilidade da posição fálica e as manifestações contemporâneas da violência. A devastação no masculino e a violência contra o feminino O artigo, “A devastação no ...

CLÍNICA PSICANALÍTICA

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- Questões da Clínica Contemporânea - Este texto sobre as questões da clínica contemporânea foi elaborado a partir de reflexões propostas em nosso grupo de estudo na Usina Dizer. Ele nasce, portanto, do diálogo e da troca de ideias, e pretende prolongar essa conversa, abrindo novas perguntas sobre o lugar da psicanálise hoje.  A modernidade e a invenção da psicanálise Sob a ótica da historiografia, os marcos inaugurais da modernidade são situados em três grandes acontecimentos: a Revolução Francesa, a Revolução Industrial e a Filosofia Iluminista. Esses eventos abriram um novo tempo histórico, marcados por promessas de emancipação e desenvolvimento, mas também com novas formas de violência e alienação. Na literatura, que se nutre da seiva da subjetividade em gestão, a modernidade encontra um marco privilegiado na obra poética e ensaística de Charles Baudelaire.  Para Walter Benjamin, As flores do mal e O pintor da vida moderna são textos fundadores da modernidade, pois neles...

FREUD: O EXÍLIO, O SONHO E O LEGADO DO INCONSCIENTE

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Sigmund Freud: vida, obra e herança do criador da psicanálise No dia 23 de setembro de 1939, em Londres, morreu Sigmund Freud. Doente, exilado, enfraquecido pela longa batalha contra um câncer na mandíbula, Freud morreu sob a sombra da guerra que já tomava a Europa. Mas o destino singular de sua vida e obra havia se consolidado: nada seria igual depois da invenção da psicanálise. Freud nasceu em 1856, em Freiberg, na Morávia — então parte do Império Austro-Húngaro, hoje território da República Tcheca. Descendente de uma família judia, cresceu em Viena, cidade onde viveria a maior parte de sua vida. Esse pertencimento judaico, em uma Europa atravessada pelo antissemitismo, nunca deixou de marcar seu percurso. Freud não era religioso, mas carregava em sua herança cultural e, na condição de cidadão do não-lugar, forjou um traço fundamental de sua sensibilidade crítica. Estudioso brilhante, iniciou-se na medicina e na neurologia, pesquisando sobre o sistema nervoso e trabalhando com pa...

A ARTE DE LER O QUE SE VÊ: UM PASSEIO COM MANGUEL

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"As imagens que formam nosso mundo são símbolos, sinais, mensagens e alegorias. Ou talvez sejam apenas presenças vazias que completamos com o nosso desejo, experiência, questionamento e remorso. Qualquer que seja o caso, as imagens, assim como as palavras, são a matéria de que somos feitos." A leitura sempre foi percebida como um gesto silencioso, fechado sobre as páginas de um livro. Mas Alberto Manguel nos lembra que esse gesto não pertence apenas às palavras. Ele diz: as imagens também se leem. Não como se lê uma legenda de jornal, mas como se lê um sonho. É preciso escutar seus silêncios, aceitar que a pintura se dirija a nós sem nunca se deixar decifrar por completo. Ao abrir Lendo Imagens , não entramos numa história da arte. Entramos numa sala cheia de quadros que nos olham. Giotto, Caravaggio, Picasso, entre tantos outros. O que fazer diante deles? A maior parte dos visitantes passa rápido, como se as pinturas fossem apenas cenários de um museu. Manguel, ao contrário,...

BOUVARD E PÉCUCHET: O DELÍRIO DA PERFEIÇÃO E A ESTRURA OBSESSIVA

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Seguidamente, glorificaram as vantagens das ciências: quantas coisas havia para conhecer! Quantas investigações — se para elas houvesse tempo! Infelizmente, o ganha-pão tomava todo; e ergueram os braços de espanto, quase se abraçaram por cima da mesa, ao descobrir que eram ambos copistas, Bouvard em uma casa de comércio, Pécuchet no Ministério da Marinha — o que não o impedia de consagrar, todas as tardes, alguns momentos ao estudo. Entre a comédia do saber e a tragédia do gozo No romance inacabado " Bouvard e Pécuchet" , Gustave Flaubert entrega ao leitor uma espécie de enciclopédia do fracasso humano diante do saber. Dois copistas, ao receber uma herança, abandonam Paris para se dedicar à vida no campo. O que poderia ser um retorno idílico à natureza transforma-se numa odisseia patética, cômica e angustiante. Os dois amigos mergulham em múltiplas áreas do conhecimento — agricultura, medicina, pedagogia, química, filosofia, religião — numa tentativa incessante de dominar o m...

A ESCUTA ANÁLITICA DOS SONHOS

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  Fecham-se os olhos e o inconsciente fala em imagens. Abrem-se, e ele se disfarça em palavras. No sonho, desejo e censura dançam sob a lógica da condensação e do deslocamento, criando enigmas que pedem mais escuta do que tradução. Na clínica, um relato onírico pode abrir frestas onde o discurso de vigília se cala, deixando emergir sentidos inesperados. Escutar sonhos é sustentar o mistério e seguir as trilhas da livre associação. Não se trata de decifrar charadas noturnas, mas de caminhar com o analisante na descoberta do desejo que o habita. O sonho é a escuta clínica aos enigmas do inconsciente Fecha-se os olhos e alucina-se; torna-se a abri-los e pensa-se com palavras. 1 Desde que Freud publicou “A Interpretação dos Sonhos”, em 1900, a psicanálise passou a contar com um território privilegiado para ouvir o inconsciente: o sonho. Nele, condensam-se e se deslocam imagens, afetos e narrativas que, sob a vigília, encontrariam resistência para se apresentar. Escutar um sonho, portan...